Morreste-me* divagações 1

luta espadas

A morte e o (des)consolo da saudade.

O medo. O medo da saudade que é o que fica, quando não houver mais nada para ficar.
Um muro com retalhos de cal.

Ainda sou tão menina. Tão protegida por esta vida que me abraça pela minha mãe, com os braços do meu homem. Ainda. Este ainda tão presente e gélido.

A morte dos outros.

– Anda a morrer imensa gente – penso eu enquanto cresço.

– Tu é que estás grande. Estás no mundo dos grande e dos velhos. A cada dia alguém já fez 40, alguém já fez 50, alguém já fez 60. O sino toca cada vez mais vezes lá na nossa terra e as paredes vão perdendo a cal.

A terra deserta. Um banco vazio num branco vazio.

Sombras com bengalas ou mulheres vestidas de preto com bengalas. Às vezes não dá para distinguir bem. E gatos. Nem ratos nem corridas de gatos e ratos. Só gatos. As pessoas morrem ou abalam. Ficam as casas abandonadas com o cheiro, que demora muito tempo a desaparecer, uma vida. E com os gatos. Talvez venha daqui a ideia de que gatos vêm os mortos.

– Em duas semanas. Foi-se em duas semanas.

– Assim de um momento para o outro?

– Sim, assim sem mais nem menos.

A morte dos que vão indo, ensina-me a dar importância à vida. Ou pelo menos a olhar para a minha mãe e sentir-me pequenina de cada vez que a chamo. E é tão bom…

– Mãe

– O que é Sandra?

– Nada. Não é nada

– Estavas a chamar. O que me querias?

– Já me esqueci.

– Ai… cabecinha de andorinha.

Quem não pensa na morte são os mortos vivos. Estou viva por isso penso na morte – as duas condições são uma constante luta de espadas.

– Porque é que escolheste o Morreste-me? – perguntaram-me muitas vezes.

– Há quem diga que são os personagens, as peças que nos escolhem. Que vêm ter connosco. É verdade que se esta luta não me apoquentasse nunca teria olhos para ler o Peixoto e o seu Morreste-me. Nem curiosidade para perceber como um texto literário poderá resultar em palco. As razões específicas são muitas e atropelam-se umas às outras. Deixam até de ser claras. Mas a vontade é clara e nasce primeiro.  Assim que li o livro tive muita vontade. Tive fome e quando há fome há vida.

O teatro aconteceu.
A curiosidade foi exposta e o texto resultou num monólogo.
As pessoas, como eu, choravam. E eu senti-me acompanhada naquilo que já era a minha saudade.

Continuo uma menina que não sabe o que é regressar a uma terra agora cruel, mas uma mulher capaz de olhar para a sua sombra na cal.

– O sino não pára de tocar. E as sombras na cal, são já só quase tudo aqui na nossa terra.

 

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo.
Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte.
interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.

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11 respostas a Morreste-me* divagações 1

  1. Mário diz:

    Quando era criança descobri que era possível parar o tempo. Era fácil. Bastava ir para o Alentejo. Os dias lá pareciam maiores.

    Agarrem na mão de um moribundo. Aperta-se com força para dar vida. Dá-se um beijo. Acredita-se, tem-se esperança, fé.

    Agora está. Agora já não está.

    Sentado num qualquer banco de hospital sem reacção.

    Tratar de tudo pelo telefone.

    Coitado, foi o destino. O destino é uma invenção.

    Deus, provavelmente, também.

    Não sei o que pensar – evito pensar.

    A morte não tem nada de bom. Não há lições na morte. Lembro-me dos meus avós sentados à porta de casa. Fazia os recados, ia comprar um rajá, bebia laranjada e gasosa. Isto foi há dois dias. Ontem estava o meu pai no jardim. Hoje já não está.

    Apetece-me ir lá para fora, sentar-me à sombra de uma casa caiada de branco e esperar a morte. Cumprir o plano inicial. Mas tem que ser no Alentejo.

    PS: Obrigado pelo post. Fico à espera de mais divagações. Eu também vou divagando.

  2. curioso (é a vida) diz:

    com pêsames 🙁

  3. nanovp diz:

    Morrer pode ser só atrasar o reencontro…e os sinos tocam por isso também.

  4. Sandra Barata Belo diz:

    os sinos também tocam para a vida.
    imagino-os a tocarem a chegada da primavera. um céu azul com uma, ou outra nuvem de algodão. uma amendoeira branca em flor. as andorinhas…
    acho que estou ansiosa pela primavera!

  5. Os sinos, que já não tocam, tocavam para tudo, Sandra. Músicas diferentes, mas música sempre. Há tanta música na morte, como há música na vida.

  6. Sandra Barata Belo diz:

    dancemos!

  7. A cal; abalar; os sinos. Fez-me voltar a Vila Viçosa, Sandra.

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