Não sou eu a Adiar

 

ANTONIO RAMOS ROSA

 

Talvez porque tudo o que se queira dizer já tenha sido dito, cansam-me as palavras ocas que desalmadamente enchem o mundo de ruído. E apetece-me ficar calado como aquela personagem de Tarkovsky.

Talvez porque tudo o que se queira escrever já tenha sido escrito, e desola-me ver a palavra desvirtuada, ao desbarato, por aí.

Talvez por tudo isso, hoje, deixo-me falar pelo poeta.

 

“Não posso adiar o amor para outro século

não posso

Ainda que o grito sufoque na garganta

ainda que o ódio estale e crepite e arda

sob  montanhas cinzentas

e montanhas cinzentas

 

Não posso adiar este abraço

que é uma arma de dois gumes

amor e ódio

 

Não posso adiar

ainda que a noite pese séculos sobre as costas

e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação

 

Não posso adiar o coração ”

 

António Ramos Rosa

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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12 respostas a Não sou eu a Adiar

  1. olinda diz:

    e como fazes tão, imensamente, bem.

  2. Rita V diz:

    que bom teres trazido o poeta

  3. Henrique Monteiro diz:

    Alto, que isto é a sério! Aqui pára tudo e lê-se três vezes. Bem hajas!

  4. Ou seja Bernardo, as mesmas palavras podem voltar a ser ditas e parecer que nunca foram ditas.

    • nanovp diz:

      É sempre assim, a descoberta da novidade que afinal já tinha sido outrora…por isso também é preciso continuar sempre, over and over…

  5. Bem trazido, Bernardo, muito bem trazido e dito.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Lembro-me de há anos e anos ter ouvido o António Ramos Rosa numa tertúlia ali para o lado do Bairro Alto. A obra tinha lido, mas ouvi-lo e depois conversar num ‘tu cá, tu lá’ foi benção.

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