No Público, hoje

DO TEMPO AO CORAÇÃO

E se Marcel Duchamp e a sua Fonte, o famoso urinol com a assinatura R. Mutt suspenso em meia dúzia de grandes museus mundiais, réplicas do original, quisesse apenas informar que o estado da arte era um, pasme-se, urinol?

Porque a arte é o que fica após a erosão da história e o que nos religa ao mito da nossa origem, há sempre a vontade de encontrar significado nela e no acto artístico, criador por excelência e memorial da criação. Trocando em miúdos, não é diferente do que acontece, ao nível do discurso, com a mulher apaixonada quando ela quer encontrar significado amoroso no que é dito pelo homem que ama e não a ama, e pergunta a eterna pergunta, aquela que corresponde à freudiana inquietação masculina: o que querem as mulheres? A mulher interroga a amiga: o que é que tu achas que ele quis dizer quando disse? Esquecendo ambas que a verdade tende à simplicidade, e que um homem usa em média, por dia, 35% de palavras a menos do que a mulher. Esta economia corresponde a outra, a de um pensamento mais focado no objectivo prioritário e onde se contabiliza tudo em perdas e ganhos. Se um homem não quer uma mulher ele já decidiu que ela não compensa ou compensaria o investimento, isto é, o ganho não justifica o gasto. Não tem que enganar, à pergunta, o que quis ele dizer com isto, a resposta verdadeira é, salvo equívocas excepções: exactamente aquilo que disse.

No caso, um urinol é um urinol é um urinol. Ou como diria o tio Freud: um charuto, às vezes, é apenas um charuto.

Por muito que Marcel Duchamp fosse também o seu alter-ego feminino Rose Selávy, foneticamente, Eros C´est la vie [Eros é a vida], foi antes de mais um homem. E por muito que a autoria do famoso urinol seja atribuída à sua amiga e vizinha a Baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven, quem o propôs à exposição foi Marcel Duchamp. Por muito que queiram ver no fundo da lata de sopa de tomate de Andy Warhol esta fonte, ela não está lá. Ou seja, não foi desta fonte que jorrou a pop art, nem é esta a nascente do surrealismo. Não, nem tudo tem ligação com tudo ainda que tenha ligação com alguma coisa. Explico.

Zola, numa conversa com Mallarmé terá dito, para mim, o diamante e a merda têm o mesmo valor. E são amplamente conhecidas e mais que exploradas, no abjeccionismo, a escatologia como ruptura com o status quo e a conotação com o que o ser humano rejeita e expele de si, as fezes e a urina, com os valores e pessoas que expele para as franjas da sociedade. Tudo isto está no urinol, perdão, na Fonte? Não, isto está em alguma, má, política.

Eh lá, diz o meu querido leitor que saltou do enredo artístico-escatológico para a política sem aviso prévio. Vê? O Chipre também não teve avisozinho.

Tudo isto vem a propósito do que se passou esta terça-feira [19 de Março] no parlamento cipriota. Isto é, da resposta do Chipre à União Europeia, essa entidade que neste momento é a mesma jaula que David Mourão-Ferreira  escreveu em Do Tempo ao Coração: E arrisco-me a entrar na jaula dos teus dias / que rugem de não ser o que eu lhes prometia (…). Que vínculo nos obriga quando as promessas, outro nome para contrato, se incumpriram? Onde se estabelecem os fundamentais limites quando a União Europeia, em seu e em meu nome, em nosso nome e de todos os que a constituem, exige ao Chipre, como qualquer extorsionista, a supressão do estado de direito com um ataque à propriedade privada? O que é aceder aos bancos, às contas de cada um e retirar 9,9% dos depósitos com uma quantia superior a 100.000 mil euros, 6,7% aos de quantia inferior a tal número? O parlamento cipriota disse não.

A Fonte é um urinol. É um urinol. Por muito que queiramos encontrar significado político e económico nesta decisão da União Europeia, o nome dela é extorsão. Extorsão. Em meu nome, não.

Publicado no Público a 24.03.13

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
Esta entrada foi publicada em Post livre com as tags . ligação permanente.

30 respostas a No Público, hoje

  1. Bruto da Silva diz:

    Já não quero ser eu (ro) peu.

    Referendo ou eleições já!

  2. A Europa é um lugar muito perigoso. Perigoso demais para não se ser europeu. Temos duas grandes guerras para no-lo lembrar. É preciso é saber que europeu se quer ser.

    • Bruto da Silva diz:

      Queria ser europeu português. Se também for (muito) perigoso… vou para o Brasil (ou para a Nova Zelândia).

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    A questão é que tão cedo não vai haver uma Europa feita por conversa. Por conversas. Conversas em diferentes idiomas — que são efetivamente modos de pensar. A Europa, como era de supor, tem sido re-construída por decreto, na marra, apesar de um parlamento à Weimar (É preciso manter as aparências). Cipriotas, Irlandeses, Espanhóis, Portugueses, Gregos, Romenos… todo mundo que não tem real poderio econômico acumulado: marmelo na moleira, mais cedo ou mais tarde. E não se enganem, vai chegar a vez dos italianos. E, pior, dos arrebicados franceses.
    Um belo artigo, Prima.

    E essa analogia pairando sobre significado e origem.

    • Henrique Monteiro diz:

      O problema é que quando não há soluções boas, somos obrigados a escolher a menos má. Escrevi isso mesmo no Expresso, hoje. A falta de liberdade, segundo Isaiah Berlin, é quando já não podemos optar por um bem. As declarações, como as da Eugénia, são boas de fazer, mas não têm valor político, uma vez que não indicam o que deveria ser feito. (De resto concordo que é extorsão).

      • Não, Henrique: valor político não é sinónimo de valor económico – sequer este é sinónimo de outra coisa que não seja valor humano: nunca estudei economia, e não percebo meia pevide de gestão, mas nem por isso deixei de prestar atenção a Ernâni Lopes. A política antes de ser gestão é uma ideia de comunidade.

        Não cabe a todos o mesmo papel, não precisamos de ser médicos para discutir a eutanásia.

        O que quero discutir é a Europa porque acredito que assim, feita desta matéria económica sem mais, assim como a temos, é um projecto condenado.

        • Ruy, estou mais preocupada do que posso parecer. Mas acredito.

        • Henrique Monteiro diz:

          O que eu disse de valor político nada tem a ver com valor económico. Por exemplo, o postulado: “Eu quero que o povo seja feliz”, não tem valor político porque jamais é contraposto pela frase “Eu quero que o povo seja infeliz”. Quero dizer que o valor político de uma afirmação tem a ver com a possibilidade de escolha. Ora eu penso que, no caso de Chipre, não há possibilidade de uma boa escolha. De resto, não vejo diferença moral entre o assalto à conta bancária e o assalto à pensão, ao salário, ao IMI e ao que por aí anda. Mas isto é política… vamos cantar hinos do Thomas Tallis que é mais divertido.

      • Por acaso acho que a declaração da Eugénia tem valor político. O cidadão tem valor político quando vota, quando parte montras, mas também quando, em acto de cidadania, produz uma declaração. Quanto mais pessoas proferirem uma declaração rejeitando determinda decisão, mais pesso ganha essa declaração e maior o valor político…

        • Henrique Monteiro diz:

          Se entenderes a política como luta de classes tens razão. Se a entenderes como o debate e disputa leal entre opções para uma sociedade, não tens. Partir uma montra é um ato de vandalismo. Votar é uma escolha (o que vem no sentido da minha tese). Quando produz uma declaração tem de se avaliar o valor que tem. Uma declaração emocional sem valor político pode ter (e tem muitas vezes) consequências. Mas isso não significa que tenha valor. É bom distinguir o que deve ser distinto.

          • Henrique, já temos base de discussão para os amuse bouche na terça. E é indistinto eu achar ou não achar que a política é luta de classes. Tás tramado, vais ter de me aturar. E se não me deres razão ponho-me a cantar que te lixo.

            • Henrique Monteiro diz:

              Haverá uma arvore onde te penduraremos com a inscrição “não cantarás”. Aprende-se muito no Asterix

  4. Da líquida escatologia de Duchamp ao excrementício Chipre é uma viagem que nos deixa a pensar se um charuto é mesmo só um charuto.

  5. “Por­que a arte é o que fica após a ero­são da his­tó­ria e o que nos religa ao mito da nossa ori­gem”

    Gosto desta expressão. Acho-a fantástica! Quanto ao mais;

    Ernâni Lopes mas também Marx; a economia precede a política.

    Foi a prepotência egoista das classes poderosas que nos trouxe à pré-insolvência.

    Com todas as vicissitudes que lhe são conhecidas e que também aqui têm sido afloradas, a UE tem desenvolvido mecanismos poderosíssimos de resposta à atual crise sem os quais as consequências seriam bem mais dolorosas.

    Está desenhado o processo de mutualização das dívidas soberanas; o passo decisivo que proporcionará a atenuação dos diferenciais das taxas de juro com a inerente redução dos custos de financiamento e o consequente alavancamento do investimento dos países em dificuldades.

    Este instrumento não entrará em vigor enquanto o ajustamento orçamental dos países em dificuldades não estiver garantido. E bem.

    “A necessidade cria o engenho”; é neste período crítico que o “efetivo” processo de construção europeia está a acontecer. No final, todos ficaremos mais fortes, apesar do impiedoso ajustamento.

    Cito Ernâni Lopes de novo: “Em economia, o ajustamento ocorre sempre”. É este o mote do princípio da economia sustentável que os demagogos insistem em ignorar e os ingénuos nem querem perceber .

  6. Panurgo diz:

    Propriedade privada de quem? Só se for a dos ingleses, dos franceses e dos russos. De resto, o Chipre já confisca 10% dos depósitos para despesas militares. Não há originalidade nenhuma e nunca ninguém se queixou. Os cipriotas vão pagar e pouca bulha – alguma vez o Tio Sam (que, convém não esquecer, tem 60 mil sobrinhos armados até aos dentes estacionados na Alemanha, mais uns 20 mil em Itália) vai dar a ilha de borla ao Czar? Isto não é política, nem arte: é comércio.

    De resto, Zola, Mallarmé, Freud, Duchamp resumem bem a coisa neles próprios – têm o mesmo valor que a merda. É a Europa que ficou da Primeira Guerra. Aguenta-se bem, as doenças do espírito ocidental foram exportadas com o maior êxito para a Ásia e para a América Latina. Nada há a temer.

    • Ainda bem que temos o Panurgo para nos conduzir o pensamento do esgoto ao paraíso.

      • Panurgo diz:

        Certamente que não. A minha falange há muito que foi derrotada. Disso, aliás, dá conta o encontro de dois homens verdadeiramente livres, Alexandre e Diógenes. O Cão nada mais pedia do que o Sol, e o Homem Magno (que tantos tentaram imitar sem sucesso) responde-lhe: – Não sou eu que te faço sombra. Sobre isto muito haveria para dizer, mas fiquemos apenas pela simples constatação de que Diógenes era, aos olhos do homem que conquistou todos os homens, tão livre como o dono do mundo. É uma homenagem sublime que perdurará enquanto houver um homem livre à face da terra. Coisa, aliás, raríssima.

        Isto a propósito do que escreve. Fala de promessas não cumpridas. Que promessas eram essas? E quem as fez? Esquece-se de que a União Europeia é um território militarmente ocupado, isto é, subjugado. Ora, voltando aos gregos, a condição fundamental para a Sabedoria, para a procura da Verdade, era a Liberdade. Como é que alguém nascido para escravo pode ser livre, como é que pode prometer em verdade? Não pode. “Mas há a paz”, podem dizer. Qual paz? Recordei ontem as palavras com que Gálgaco qualificava Roma: «Roubar, massacrar, saquear, eis aquilo a que a sua língua mentirosa chama autoridade; deixar atrás de si o vazio é, para eles, pacificar”. E é assim que o berço de uma outrora cultura insigne e brilhante, espaço de Impérios e de Aristocratas, se viu transformado no penico americano; os Europeus julgados e condenados pela sua «macabra colonização», enviam agora os seus soldados para a tarefa de assegurarem e ajudarem no Caos que o Pentágono vai lançando e instalando por onde lhe bem apetecer; impedidos de armarem os seus exércitos contra ameaças externas, armam as suas polícias. É isto a paz? Na nossa língua mentirosa também encontramos expressões maravilhosas como “Dívida Sustentável”, “Dívida Soberana” – afinal é o jugo, e não o povo, quem mais ordena. É a língua do subserviente a falar – atente nas cartas que os traficantes de escravos do Sul americano trocavam entre si: encontrará coincidências espantosas com a linguagem do aleijadinho mental, quer dizer, do liberal. Como é que aberrações destas proliferam – não esqueçamos o freudismo-marxismo, nascido do mesmo aborto que os liberais – eis a questão. A par da Política andam a Ciência e a Arte. Os homens constroem a cidade de acordo com a sua visão do Cosmos – a Ciência serve-a, a Arte propaga-a. No seu Livro dos Danados, Charles Fort deixa o seguinte apontamento:

        Scientists and their dream of «pure science.» Artists and their dream of «art for art’s sake.»

        It is our notion that if they could almost realize, that would be almost realness: that they would instantly be translated into real existence. Such thinkers are good positivists, but they are evil in an economic and sociologic sense, if, in that sense, nothing has justification for being, unless it serve, or function for, or express the relations of, some higher aggregate. So Science functions for and serves society at large, and would, from society at large, receive no support, unless it did so divert itself or dissipate and prostitute itself. It seems that by prostitution I mean usefulness

        E todos aqueles que se recusaram a prostituir-se, foram chamados de loucos, fascistas, hereges, drogados, etc.

        Desculpe lá o lençol palavroso, Eugénia. Viu como o governo do Chipre assinou o dito resgate? Para sairmos do esgoto, convinha não começar por tomarmos banho; o melhor era recuperar a espinha dorsal. Mesmo que não servisse de muito, pelo menos serviria para que deixássemos de andar a focinhar na bosta.

  7. Bruto da Silva diz:

    Fico parvo e passo a considerar-me eurosético 🙁

  8. Bruto da Silva diz:

    Acabo de ouvir os Sinais e penso que são mesmo fatais 🙁

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Plagio a querida Rita. Parabéns.

Os comentários estão fechados.