O fogo, o lar, o vinho

IMG_0137

 

Pode ser anacrónico, pode ser estúpido, e certamente é, mas logo hoje que o dia se tornou maior, para confirmar a certeza da primavera e coincidir com a festa da ressurreição no calendário católico, apesar da chuva incessante e mais teimosa do que uma torneira a pingar, que faz esta atmosfera de fim do mundo, logo hoje, dizia, me deram saudades da aldeia, do Inverno, do fumeiro e da lareira. De uma lareira destas e não daquelas nesgas numa sala a que os patos bravos chamam lareira quando querem vender um “T2 de luxo”.

É um canto num chão de pedra e um simples lume. Panelas e potes de ferro, tão pretas do fumo como pretas de si. Por cima, os presuntos, as chouriças, os salpicões a curarem-se naquele ambiente doentio e o vinho aquecer, antes de levar a generosa dose de canela e de ser servido nuns púcaros de barro. O presunto é cortado sábia e finamente numa tábua ensebada e comido por cima de uma broa de milho feita daquele modo que os fiscais da pureza alimentar jamais autorizariam, numa mesa de madeira escalavrada onde as pontas das naifas deixaram golpes como o tempo nos deixa rugas.

Viemos da rua, do frio, da neve. Sacudimos as botas à entrada, despimos o casacão de lã encharcada e abeirámo-nos do fogo. Voltámos à condição de humanos na sua mais pura acepção, de animais acossados pela natureza persistente que contra nós atenta. Mas nós fomos vencendo a guerra; temos a roupa, temos a comida que guardámos de tempos mais prósperos e fáceis, temos, sobretudo, o fogo que nos alumia e aquece.

Quem não viu a aldeia como ela foi, sem a estrada, sem a camioneta, sem o fogão a gás, sem o micro-ondas, sem a televisão, sem a eletricidade, sem a complexa gente tão farta de ódio como de compaixão, como vai compreender a nossa essência?

Crescemos, pensamos tudo saber, mas lá no fundo mantemo-nos o animal acossado. E quando lá fora o tempo nos faz má cara, faz-nos falta o fogo, o lar, o vinho.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

12 respostas a O fogo, o lar, o vinho

  1. Rosa Maria de Sousa diz:

    Gostei mesmo. Rosa Maria

  2. Luisa Tavares de Mello diz:

    “Quem não viu a aldeia….como vai compreender a nossa essência?” Não vai, digo eu! Mas não é preciso ir tão fundo nas raízes de um povo para não o compreender. Já escrevia Albert Camus: ” Um dia virá em que todos falarão a mesma língua e ninguém se entende”!

    Até a forma de nos sentirmos “acossados pela natureza que contra nós atenta” é, agora, diferente e não depende exclusivamente das vivências. É, na minha modesta opinião, a natureza humana em mutação. Somos estrangeiros na nossa própria vida, Permitimos que o ter e a técnica nos dominassem . Recalcámos o ser e a natureza.

    Foi bom ter estado à lareira.

    • Henrique Monteiro diz:

      Cara Luísa, a natureza humana não muda, adapta-se, o que é ligeiramente diferente. Ou se quiser, como dizem os espanhóis, no es lo mismo, pero es igual. Temos 140 mil anos de lareira, de fogo. Não é numa nem em duas ou três gerações que adaptamos os nossos atavismos a uma forma de vida diferente. Para compreender a natureza humana, as suas manhas e falhas, as suas generosidades e grandezas há que ter sempre o fogo presente. O fogo e a luz, bem como os mistérios que são próprios das sombras.
      Cumprimentos,

  3. Luísa Tavares de Mello diz:

    Que sábio e que lindo! Nem comento para não estragar.
    Cumprimentos,

  4. Bela postagem! Sem mais.

  5. Rita V diz:

    …faz-nos falta!
    😀

  6. nanovp diz:

    Belo aroma, fez-me lembrar o Torga…

  7. Fatima M. Padinha diz:

    Por momentos estive sentada à sua lareira (mas eu conheço outras parecidas … lá onde se chamam “lume de chão”) não sei se acossada, mas pelo menos aquecida e momentaneamente reconfortada pela sensação inigualável que é sentir algo bom que outros também sentem, em conjunto. Ou em comunhão, mais de acordo com a época. A lareira permite isso. Mérito seu, Henrique! Tks

  8. Não vi. Nasci lá, é verdade, mas já era tarde e África demais quando retornei. Contaram-me pai e mãe, mas julgo que isso não conta, pois não, Henrique?

  9. Raquel Rodrigues diz:

    Henrique, que prazer poder ler tuas lindas palavras, é realmente uma poesia, estou encantada, e curiosa para conhecer esta tão linda cultura.

Os comentários estão fechados.