O Meu Cavalo

 

 

Manetgypsy

Escreve-me todos os dias. Emails, até cartas. Mais até do que uma vez por dia. Diz que me ama, que, em pedra preciosa a opala, em flor a exuberante gerbera, sou a mulher da vida dele. Sempre opala e gerbera, nunca me chamou rubi ou ametista, nem estrelícia ou crisântemo. Ama-me e persiste neste amor com a mesma sólida constância que lhe alimenta a imagética, o meu tão pouco metafórico amor.

Vertem lágrimas os emails diários, as cartas ocasionais. O meu amor opalino não sabe porque me vim esconder nesta quinta, entre os meus cavalos e éguas, como noviça escondendo-se num convento entre sorores dolorosas e uma amantíssima madre superior.

Ao meu longínquo e florido amor incendeia-se-lhe a escrita de ciúmes. Conto-lhe, quando lhe respondo, que estou aqui sozinha, entre cavalos, erva e vento. Conto-lhe que monto nua. Sem arreios nem sela. O dorso do cavalo entre as coxas, monto nua, a pressão da minha carne a marcar o trote.

Têm ciúme de tudo os emails do meu amor. Da sela, dos estribos, da cabeçada que arrumados na cavalariça me vêem subir para a garupa. Do banquinho para onde trepo nua antes da montaria. Da vara que levo na mão, do cigarro que ainda tenho no canto da boca.

Os meus cavalos já conhecem o volume do meu corpo, virilhas e nádegas a moldarem-se-lhes à coluna. Há o largo em frente à casa, o primeiro renque de árvores, o vasto plaino, quilómetros até ao lago. Cavalgo devagar, poupo-me a galopes. Paro junto ao lago e deixo-me ficar estendida sobre o reluzente corpo animal, o meu corpo, a cara, seios, as ancas a cobrir-lhe cada centímetro.

Esta minha liberdade aflige o meu colérico amor. Os possessivos emails dele, nessas alturas, amarfanham as pétalas da gerbera a que antes ele protestara devoção. Freio nos dentes, o meu amor acusa-me. Que o troco por um cavalo. Que me entrego, obscena e zoófila, a garupas contra-natura. O meu amor chora e pergunta: de que é que tu gostas? O que é que tu sentes?

Perguntam-me os emails do meu amor se me venho ou não. Se monto já molhada ou é o trote ou a fricção do pelo que o meu pelo orvalha. Que suor ao suor do cavalo se junta, soletram húmidos os emails do meu tão pouco cavaleiro amor.

E eu rio-me, cigana e livre, entre erva, cavalos e vento. Estou sozinha, numa remota quinta, monto a pelo, um raro relincho, uns contentes resfôlegos. Sou livre e até fumo. Um irregular carteiro, uma linha de internet, trazem-me os ciúmes que fazem do mundo o mais nu dos mundos.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

16 respostas a O Meu Cavalo

  1. Mas que pouca vergonha é esta?! Vou já fazer queixinhas à Tia, Manuel Fonseca.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      É uma vergonha cigana e nua. Aqui para nós, Eugénia, que ninguém nos ouve, a Tia tem o guarda-fatos vazio.

  2. Carla L. diz:

    Depois de ler o texto todo, de um só fôlego, neste fundo amarelo pulsante, fui lá ver se a feição da moça era mesmo de satisfação. E é !

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Estimadíssima Carla, gostava agora de ver a sua feição que espero de satisfação. Como vai essa sua quinta? E os cavalos?

  3. Ivone Mendes da Silva diz:

    Uma tristeza enciumante e nua. Gostei muito, Manuel.

  4. Diogo Leote diz:

    Manuel, sabes que mais? Deste-me vontade de ler a mesma história contada pelo cavalo,

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    E aqui está mais uma para o meu arquivo de preciosidades do “Escrever”. Que verve, que cigana, que cavalo, deuses!

  6. Bruto da Silva diz:

    Seria também interessante a versão vernácula desta hipopeia 😉

  7. nanovp diz:

    Mas que ciumentos, os homens…até dos cavalos…!!! Mas entende-se que a mulher valia tudo, até o ciúme…

  8. Ruy Vasconcelos diz:

    Pois é. Mas, rapaz, eu acho que o Manuel anda muito ciumento nos últimos tempos. Será por que aquilo que os olhos não vêem o coração (ou, quem sabe, outros órgãos) não sente?

Os comentários estão fechados.