O mundo no café e a Europa cada vez mais de cuecas

Os europeus não produzem mais. Quase nada. A ideia de competição evaporou. Não aprendem mais. Não são competitivos. Desperdiçam. E, pior, ignoram a gravidade da coisa. Justificam-se quando acreditam. Se acreditam. E se acreditam, acreditam fraquinho. Não há mais proselitismo, porque seu projeto deixou de inspirar grandeza até nos mais jovens, que são uma minoria. Estes, a sua vez, querem mais é escapar para a Nova Zelândia, viver fazendo de conta que são anglo-saxões. Mesmo que os anglo-saxões de verdade, históricos, não passem mais sem imigrantes (chineses ou não – e  alguns até do Leste ou do Sul da Europa). De repente, o futuro do mundo migrou para a Ásia e outras bandas. A produção é cada vez mais coisa made in Malásia, em Bangladesh, no Chile, em Ghana, na Índia. E onde mais houver massiva produção, rotule-se essa produção de trabalho escravo. Indiscriminadamente. Mas especialmente se for competitiva. E, assim, moralmente se passa um pouco melhor. Moralmente ao menos. Mas passar bem “moralmente” ainda não põe produtos na prateleira.

Enquanto isso, na vida real, far away from Athens and Paris, a produção de verdade – sem demãos de outsourcing – prolifera.

Assim como os cafés.

P.S. – Falar em café, esses ambientes nobres – tão expressamente bonaerenses, para os sul-americanos – e quem mais aufere lucro com o negócio do chocolate são os Países Baixos. A Costa do Marfim produz uma grandiosidade de cacau. Mas sua participação nos lucros do negócio do chocolate, embora detenha a própria matéria prima, é irrisória. Ao menos, se comparada à parte do leão que fica com a Holanda, onde não se vai encontrar um só pé de cacau de Groningen à Zelândia. São os marfinenses que suam, no entanto. Embora em Abdijan não haja museus do chocolate, tantos cafés como em Amsterdão, nem se frequentem exposições de Vermeer ou Mondrian. Logo, o correspondente dessa economia, para todos os efeitos virtual, sobretudo a norte, é uma superestrutura cada vez mais virtualizada e mascarada pelo aporte das novas mídias. Porém, até quando a Europa vai brincar de outsourcing? Ou seja, de fazer de conta que produz, quando na verdade apenas intermedia? E cada vez pior?

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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25 respostas a O mundo no café e a Europa cada vez mais de cuecas

  1. jpr diz:

    deviamos plantar marmelos…. de preferência com y !!!

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Saúde!

    • Bruto da Silva diz:

      Mas tem que começar pelo marmeleiro… E depois até chá pode dar 😉

      • Ruy Vasconcelos diz:

        Ok, se o faz feliz: “In principio erat marmelum”. (Na verdade, ‘melinum’)

        Agora, acho que depois dá até vira. Ou samba.

        • Bruto da Silva diz:

          Quanto às origens, não está nada fácil…

          Encontro do latim “cotoneum malum / cydonium malum” e do grego “kydonion melon” (Kydonian apple).

          Aqui, o chá pode ser com a vara: vergastada grossa 😉

          • Ruy Vasconcelos diz:

            É. Não pode ser um chá de sumiço. Há de se aplicar a infusão com cara de ‘malus’.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Não seria má ideia diversificar a produção, JPR. Ao invés de só vinhos, azeitonas, e um carrinho aqui e acolá, também o marmelo em seus mais possíveis usos. Se a marmelaria não for subsidiada, então, tanto melhor. Aliás, você sabia que ‘marmalade’ foi uma dessas muitas (e sonegadas) palavras que passaram do português ao inglês?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Lúcida análise. Além do mais, aprendi.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Bom, gentil Céu, quando falo em ‘aprender’, veja, não é questão de “aprender com outros” — isso, a rigor, seria impensável para a maioria dos europeus, especialmente os do Norte. (Eles têm sempre razão, e o mundo a girar em torno do umbigo). Mas aprender de seus próprios erros, de pós-II Guerra ao presente, passando por esse controverso processo de “unificação”. Talvez um dos raros méritos da “unificação” haja sido ao menos o fato de novas guerras, de devastadora escala, as maiores e mais destrutivas que já se deram, não se terem reproduzido na Europa, nas últimas décadas. As que se deram, dos 1990 para cá, como as dos Balcãs, não foram menos terríveis, mas não mataram tanto.

      Já é alguma coisa.

  4. É verdade, Ruy, estamos exangues – em coma – na cama do hospital. E com mais esta sua valente estocada apagamo-nos ainda outro bocadinho. Amanhã, já mortos, em veloz conversa de dois ou três dos vigorosos, musculados moços do mundo novo, entre a competitividade e um golo de cacau, um deles lembrará talvez, com uma pontinha de saudade, uma página da Odisseia, quem sabe este verso da “Vocação Animal” de um obscuro português: “Aprendi como é devagar – comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder – aprendi devagar”.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Se é para divagar sobre o devagar, bom Emmanuel, o poema abaixo, do mesmo que emprestou nome a este nosso bloguezinho. Não tem conotações de epopéia grega, nem de tragédia grega (antiga ou contemporânea), mas vai comendo (e fodendo, claro) pelas beiradas:

      ‘Cidadezinha qualquer’

      Casas entre bananeiras
      mulheres entre laranjeiras
      pomar amor cantar.

      Um homem vai devagar.
      Um cachorro vai devagar.
      Um burro vai devagar.
      Devagar… as janelas olham.

      Eta vida besta, meu Deus.

      (1930)

      P.S. – Não há um único poeta brasileiro contemporâneo tão bom quanto Helder. E, logo, para artigos assim – feito a poesia de H. – não faltam mercado comum e extinção de barreiras alfandegárias.

  5. O caro Ruy substima a capacidade produtiva dos europeus. Produzem sim, muito, digo, muitíssimo; diretivas, diretivazinhas, diretivazonas, regulamentos, regulamentinhos, regulamentões, certificados, certificadinhos, certificadões, certificadanhas, capatazes, capatazinhos, capatazões, capatazães, tecnocratas, tecnocratazinhos, tecnocatrazões, tecnocatracazões, e muitas outas coisas terminadas em ões, excepto …ões, e mais constroem altos castelos, ou seja; castelões onde se acantonam os capatazães, afagando seus inuteis canudães, ao longe mantendo os resignados rebanhinhos, pelo caminho esquecendo as causas das epopeias de seus antepassados convictos que estão do seu inevitável ascendente do devir.

  6. olinda diz:

    é interessante isso que dizes . confuso mas interessante.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Grato. É isto mesmo. Idéias novas (ou no mínimo pouco prontas para vestir), parece que, no geral, soam um tanto, como dizer, confusas.

      E são.

  7. Panurgo diz:

    As coisas não estão assim tão más na Europa. Exagera-se muito.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Certamente.

      E, no mais,”tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”.

  8. Quando era pequenina tinha uma colecção de histórias, Andersen e outros, em livro e disco. Coisa brasileira, com vozes lindas, Nara Leão, por exemplo, canções. Uma delas, A Bruxa das Pernas Tortas. Nesta história havia uma linda rapariga que havia sido transformada em pombinha pela Bruxa que tomou o seu lugar como noiva do rei. A pombinha todos os dias ia ao palácio e perguntava ao jardineiro e esperava a resposta:

    Jardineiro, jardineiro
    Da real horta
    Como vai o Rei
    E a Bruxa das Pernas Tortas?

    Come bem, passa bem
    Leva a vida regalada
    Tão serena e sossegada
    Como no mundo ninguém

    Resumido e espremido: um alfinete encantado enterrado na cabeça pode fazer que uma bruxa ocupe o lugar da rainha. Mas só temporariamente.

  9. Ruy Vasconcelos diz:

    Essa história soa familiar, Prima. Não lembro de Nara Leão narrando, no entanto. Lembro da série Disquinho, que eram discos coloridos, compactos e lp’s: Fábulas de Esopo, Branca de Neve, Os Três Porquinhos, Pedro e o Lobo (com música de Prokofiev) e muitas coisas mais que a maravilhosa cultura europeia disseminou pelo mundo.

    E que são nossas também.

  10. Bruto da Silva diz:

    Mas o reino do chocolate não é só na Holanda: Suiça e Áustria têm império nessa arte?

  11. nanovp diz:

    Tudo passa com o tempo, mas o Homem não gosta de mudar…

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