O pior presidente

wghardingDizem que foi um dos piores presidentes da América.

Eram tempos de Proibição. Mas na sala oval – vai camarada ó vira ó vira – aviava-se whiskie aos convidados, porventura no meio das reuniões.

Digam o que disserem, a América saída da I Grande Guerra estava a precisar de normalidade: os olhos, o penteado, as boas maneiras apontaram para Warren G. Harding e ele foi a Presidente. Republicano e conservador. Cabelo liso, risco ao lado, dois terços dos cabelos puxados suavemente para a esquerda, um terço a cair com naturalidade para a direita. Nota displicente para referir a displicente popa que ostenta numa fotografia aos 17 anos.

Repito, acabara a I Grande Guerra e Harding foi eleito por defender o “regresso à normalidade”. Pode dizer-se que inventou o politicamente correcto. Os negros americanos adoravam-no e tinham razão: defendeu que deviam ter igualdade política, educacional, económica e tentou criar uma legislação que evitasse o linchamento com que os sulistas os brindavam. As mulheres achavam-no um campeão: defendia-lhes o direito ao voto, o apoio aos cuidados na maternidade e criou um programa de apoio ao primeiro filho. Apoiou trabalhadores, mineiros e ferroviários, pugnando pela criação de um horário de trabalho de 8 horas.

Eleito Presidente, limitou as festividades com uma boa razão: “Temos a malfadada tendência de esperar muito do Estado e fazer depois muito pouco com ele.” Os números do desemprego, a meio do seu curto mandato – pouco mais de dois anos – caíram para metade. Assumiu o cargo a 4 de Março, no Verão já tinha a economia a crescer. Baixou os impostos e – ó que caralho –as receitas do Tesouro subiram. Cortou na despesa pública, endireitando o orçamento ao atacar as gorduras do Estado (mas porque é que não se vai buscar este filho da puta ao cemitério!).

Há rumores de que tinha umas gotas de sangue negro (três, quatro?) forma insidiosa e improfícua de tentar roubar protagonismo ao esplendor mulato de Barack Obama. Os mesmos rumores alegam que, para evitar problemas, foi também membro do Klu-Klux-Klan.

Uma vez sentado na Casa Branca, as boas maneiras de Harding acharam que deviam chamar os amigos. Veio o gang do Ohio. Uns canalhas do piorio, diga-se. Tipos que estariam em confiança, num tu cá tu lá como os caldeireiros, com certa malta do BPN. Os amigos deram-lhe, a Harding, as piores e mais amargas noites dos seus dois anos de mandato. Livrou-se deles.

Teve, no entanto, outras noites. Ao pé de Harding, Clinton era um menino que até podia cantar na Igreja de São Roque com o Henrique a padrinho. Pela Sala Oval houve desfiles nocturnos. Uma jovem voluntária que talvez pudesse chamar-se Monica se não se chamasse Nan. Nan Britoon. E houve uma legião de mulheres, duas das quais as melhores amigas da Primeira Dama. (Tinha um sibilino sentido de humor. Um dia, disse alto e bom som ao Povo: “Posso não ser o melhor Presidente que a América já teve, mas serei certamente lembrado como o mais amado.”)

A mulher, cinco anos mais velha, inteligente e sólida – uma Clinton avant-la-lettre – detinha, se não todo, pelo menos um viçoso e sumarento naco do poder. Chamavam-lhe a Duquesa. Era divorciada quando casou com ele. Casou porque quis, contra a vontade paterna e, até certo ponto, forçando o próprio Harding que foi sobretudo sensível ao jogo de interesses: ele precisava de dinheiro, ela de política.

Terá Florence, a sua mulher, sabido que ele manteve afrontoso comércio afectivo (que, ao contrário do oitocentista colonialismo português, foi muito para além da orla litoral) com a melhor amiga, por acaso casada com um dos melhores amigos do presidencial marido? Os dois sinceros e bons amantes trocaram pelo menos uma centena de cartas. Para o ano que vem – 2014, meus amigos – termina a interdição de publicação dessas cartas que os historiadores (esse autorizado Grupo Impala) já cheiraram e lamberam. Vieram de lá, da Biblioteca do Congresso, a revirar os olhos para a esquerda com os devaneios poéticos, para a direita com as liberdades eróticas – em todo o caso, e vindo de americanos, deve ser uma coisa um bocado Soror Mariana, sobretudo comparado com as irlandesas e católicas expansões priápicas e seminais de James Joyce a Nora que prometo para um destes dias.

Abortos, filhos ilegítimos e um suicídio terão constituído a colecção de consequências das eventuais razias do Presidente Harding.

Morreu em San Francisco de enfarte de miocárdio – tudo ponderado não é de espantar; embora a teoria da conspiração aponte para eventual envenenamento perpetrado pela mulher. Costa a costa, os restos mortais tiveram uma viagem triunfal. Palmas, lenços, cânticos, um suado patriotismo, saudou, small town a small town, (qual Salazar) a travessia da América até Washington.

Talvez tenha sido o pior Presidente da América. Dava-nos jeito num palácio que juntasse Belém e São Bento.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a O pior presidente

  1. Pior? Nada disso, Barack é muito pior, as agências de informação que gerem a sua pessoa é que são muito boas, excelentes, foi aquilo que Bush descuidou e todos lhe batiam e detestavam.

  2. O Harding era muito moderno na comunicação, Taxi. Foi jornalista, Há revisão histórica em curso e as cartas de amor à amante germânica hão-de ser um mimo… Não te sabia anti-Obama. Estás a ficar muito à la mode, qualquer dia ainda fumas.

    • Não é questão de ser anti, eu não pertenço a claques, não tenho dinheiro para pompons, até sou muito a favor, ele está a lançar as bases corretas para o conflito que o mundo precisa, mas só o veremos dentro de 10, 20 ou 30 anos, quem estiver vivo, verá, já não será o meu caso, e tenho pena, pois nunca vi uma guerra a sério, as nossas, salvo seja, guerras coloniais eram coisa de soldadinhos de chumbo.

  3. Ó Manuel Fonseca, está tão gira esta incursão politicamente incorrecta… Já me ri, logo de manhã. Não sei é se agora esta malta se elegia.

  4. a.riès diz:

    🙂 🙂

  5. Bruto da Silva diz:

    ‘small town a small town’ ou seja ‘small town by small town’?

    (e que o ‘juntasse’ fosse ‘substituisse’ por uma barraca)

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Riso com substância. Obrigada, Manuel.

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