O que é uma Filarmónica?

capa_e tudo acabou em 69_300dpi

Hoje é lançado, daqui a nada, na Fnac do Colombo, o livro da Filarmónica Fraude, uma banda mítica para mim. Há um século, em Março de 69, em Luanda, devia fazer um calor desgraçado e eu, como toda a gente devia ser um miúdo de calções a caminho do Liceu Salvador Correia. Deve ter sido por essa altura, já não sei se de calções ou não, ouvi uma canção, a ” Flor de Laranjeira” que – coisa impensável para um puto criado a Beatles – pela primeira vez me fez gostar e exaltar com uma canção pop portuguesa, cantada em português. Nessa altura, acho que devo ter pensado: um dia ainda hei-de agradecer a estes gajos.

E não é que hoje sou o editor deles e me obrigaram a escrever para o livro um testemunho em que, como acontece aos tímidos que gostam de uma coisa, meti os pés pelas mãos! Ouçam primeiro a canção. O testemunho vai a seguir.

Tinha 16 anos e, numa Luanda colonial com camadas cubistas (ui, as esquinas que aquilo tinha) eu era um puto despenteado. Nunca tinha era ouvido uma canção tão despenteada, ou mais despenteada do que eu.

A bem dizer, acho que nem a ouvi. A coisa bateu-me nos olhos, na miopia daquele tempo. Vi-a. A canção apareceu-me como um filme à porta da moderna e burguesíssima igreja da Sagrada Família. Chegavam carros àquela igreja, tudo gente muito bem. A canção, “Flor de Laranjeira” chamada, era mais do que um espelho: era igual à realidade que eu via mas revelava-me, nas escondidas dobras do que via, o que ainda não sabia nomear. A “Flor de Laranjeira” dava nome, uns nomes surreais, ao enfatuado, à pretensão, ao cinismo, ao falso moralismo. A cantar e sem precisar de se zangar. Um filme que voltei a ver na liberdade encantatória de “Animais de Estimação”. Fiquei fã da Fraude, eu que nunca tinha ouvido uma filarmónica.

Fui fã, fui fiel: tanto fui pelos laivos de Jethro Tull que ainda hoje julgo escutar no “Devedor à Terra”, como vou pela doçura trágico-marítimo da “Canção de Embalar”. E fidelíssimo, quando ouvi “Orícia”, “Orícia não era culta / os homens a cobiçavam, ai os rapazes também”, o que me fartei de a procurar. Uma Orícia que, toda a vergonha perdida, tivesse ganho toda a experiência, foi um sonho adolescente, na humidade dos trópicos.

O que o miúdo de Luanda nunca sonhou, foi que um dia, hoje, neste inverno do nosso descontentamento, poderia ser editor da Fraude. Agora sim, vou ler tudo e saber o que é uma Filarmónica.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

9 respostas a O que é uma Filarmónica?

  1. olinda diz:

    então lê tudo muito bem para depois vires contar ainda melhor. 🙂

  2. A primeira coisa que me chamou a atenção foi próprio nome, que depois vi realizar-se (umas quantas vezes, porque depois perdi-me deles) nas suas raras passagens pela rádio.
    Em 69 tinha 17 anos e não sabia nada de nada de nada de nada, mas gostava imenso do Zeca Afonso, Carlos Paredes, Amália, e pouco mais em português. A Filarmónica foi uma surpresa no seu tempo.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Eh pá, o livro é super-divertido. Está cheio de episódios de ir às lágrimas

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ah não, Táxi, essa tua filarmónica não tem a graça da fraude… Sabes que eles foram a Espanha participar num concurso de yé-yé (sim, isso que tu dançavas em miúdo com as tuas pernas longas de Luky Luke). A cois teve lugar numa praça de touros e os espenhóis chamaram-lhe “Orquestrita Fraude”.

  3. nanovp diz:

    E nunca tinha ouvido falar…vamos ao livro então….

Os comentários estão fechados.