O vírus Zweig

Maria Stuart, a mais recente manifestação do vírus Zweig

Maria Stuart, a mais recente manifestação do vírus Zweig

Corro o risco de ser repetitivo mas a culpa não é minha. É culpa do Pedro Norton, que me transmitiu o vírus, a mim e ao Manuel pelo menos. É culpa de nunca ter tido um professor de História (ou um programa curricular, para que os professores não me gritem aos ouvidos que a culpa também não é deles) que me explicasse a História assim, como se de um romance se tratasse, e não como um somatório de dados e estatísticas (eu sei, eu sei, que os puristas me vão já dizer que a História é uma coisa muito séria e não é para fantasistas como José Hermano Saraiva). E é culpa, acima de tudo, de um homem – um homem que, apesar de perseguido pela História, nunca perdeu a lucidez e a veia literária, como o seu admirável O Mundo de Ontem (obrigado outra vez, Mr. Norton) nos demonstrou cabalmente -, Stefan Zweig, que me fez redescobrir o prazer das biografias históricas. Primeiro, com o José Fouché, depois com a Maria Stuart. Bem sei que, num caso como noutro, o material de trabalho era da mais fina cepa – então no caso da Maria Stuart, Queen of Scotland, até Shakespeare se baseou nela para escrever Macbeth, e não me lembro de outra história em que o amor, o mais nobre e enriquecedor dos sentimentos, tenha causado tanta desgraça a um monarca, a ponto de o fazer perder honra, glória e coroa, de outra história em que a luta titânica entre duas mulheres (a mesma Maria Stuart e a sua prima Elizabeth, Queen of England, todas mimos e delicadezas na aparência e intrigas e punhaladas nas costas) tenha tido influência tão decisiva nos alinhamentos e alianças da velha Europa. E por aqui me fico, que o vírus Zweig não me dá descanso e a Maria Antonieta, para onde ele me leva agora, já chama por mim.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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12 respostas a O vírus Zweig

  1. Como Mr. Norton clamou e eu, com graciosa vénia, confirmo, a Maria Antonieta é uma obra-prima. Ando doido a comprar nos alfarrábios e – bo a notícia – há tudo e a preço moderado. Um dia destes faço a lista…

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, faz lá a lista que eu tenho Zweigs, todos bem velhinhos também, para a troca…

  2. Já este Zweig me anda a dar nervos, Menino Diogo, e não é de hoje! Que chatice… toda a gente o lê menos eu.

    E você, Manuel Fonseca, nessa azáfama e veja lá se foi capaz de me dizer: vou comprar zweigs à praça, quanto quer lhe traga deles? Com meio quilinho me governava. Égoiste!

    • Diogo Leote diz:

      Menina Eugénia, para quê ler o Zweig quando tem pelo menos três criados (o cardeal Norton, o Mestre Fonseca e moi-même) ao seu dispor para lhe fazerem resumos em forma de post?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    E chama bem. Maria Antonieta sempre teve bom gosto.

  4. Ivone Mendes da Silva diz:

    Ah, mas a minha edição também é da Livraria Civilização Editora e a imagem é diferente. E tenho ali ao lado A marcha do Tempo.
    Só um apontamento, querido Diogo, então o menino não sabia que o amor, esse nobre e enriquecedor sentimento, causa mais desgraças do que outras coisas? 🙂

    • Diogo Leote diz:

      Agradeço o apontamento, Ivone, eu sei bem das desgraças que o amor pode trazer. Mas nunca tinha lido sobre tanta desgraça junta numa raínha (e tudo tão bem escrito).

  5. nanovp diz:

    Ele há alturas que sabe bem ser infectado….

  6. Pedro Norton diz:

    eu prometo nunca mais voltar a ler sem preservativo.

  7. Então, então, renuncias assim, tão facilmente, a esse teu jeitinho de grande educador do povo português?

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