Onde está a liberdade?

 

dov'e

primeira mulher com que fala depois de vinte e dois anos sem ver nenhuma

Rossellini fez “Dov’è la libertà”, com Totò, o mais popular dos cómicos italianos. Totò é um barbeiro e, com navalha afiadíssima, deveria cortar o pescoço a um cliente porque o tipo, o melhor amigo, mas um mau carácter, tentara abusar da sua mulher, como ela, indignada, lhe confessara.

Para o papel desse amante degolado, Rossellini queria uma cara fresca, um tipo que trouxesse o cheiro acre da rua, uma maldade consuetudinária. Lembrou-se que conhecera o dono de um cabaret mal-afamado. Direi, recorrendo à minha imprestável experiência, que seria um lugar parecido com o Cica, Cica, Boom, referência romana que redespertou o escanzelado lobo lúmpen que jaz em mim.

Rossellini foi ter com esse patrão da noite e convidou-o, explicando-lhe que a coisa metia vingança, por causa duma mulher casada que dormia com outro homem. Cito, ipisi verbis, o culturalíssimo diálogo de Rossellini com esse anjo do vício.

Diga-me uma coisa – disse o tipo – de certeza que no filme não sou cornudo?
Nada disso, antes pelo contrário.
Fala a sério?” insistiu o reticente actor.
Absolutamente, meu amigo, não será cornudo?” jura, e não mente, Rossellini.
Mas sou o quê, então?
Vai ser um filho da puta, um canalha, um bandido, mas não um cornudo.
Ah, isso está bem. Aceito.

Pode gostar-se tanto de um realizador pelas cenas que filmou como pelas que não filmou. Rossellini não filmou esta cena e preferiu que, ao sair da prisão, fosse Totò a conta-la à primeira mulher com que fala depois de vinte e dois anos sem ver nenhuma. Evoca-a no exacto local do crime a que sempre o criminoso volta, agora que a nova malha da cidade já destruiu a barbearia, casa e rua onde morara.

Revoltado com a reclusão, Totò estudara todas as formas de se evadir durante vinte anos. Mas agora, solto, a liberdade  abate-se sobre ele como mil duras desgraças saídas da boceta de Pandora. Enquanto esteve preso, a História, veloz, viu triunfar Mussollini, estalar a Guerra, triunfarem os aliados, regressar a democracia. Mas Totò passou ao lado da História e a vida, na nova sociedade, causa-lhe desgosto e angústia.

Totò quer regressar ao aconchego caloroso da cadeia. A impiedade, o crime, a ausência de amor enchem os corações e os dias e ele tem saudades do convívio bondoso e leal com ladrões e homicidas, essas pessoas de bem, amigas, desinteressadas, unidas, a que o ligam vinte anos de cárcere. Descobre que a cadeia é a “casa mia” da canção que, na cena mais pungente de “Dov’è la libertà”, ele ensina outro preso a cantar. Segue, agora, os planos de fuga que desenhara, mas em sentido inverso, para regressar à prisão, lugar de sonho. Ao olhar humilde de Totò, o valor da liberdade anda francamente sobrevalorizado.

Publicado no Expresso, no passado sábado. Hoje, se forem ler, vão ver que se  arrebita a rectaguarda europeia

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a Onde está a liberdade?

  1. Isto comove-me e não sei dizer bem porquê! Receio estragar o momento por falta de engenho! Ficarei por aqui. Sem palavras!

  2. Esta “casa mia”, coisa de homens com saudades das mulheres, comove o mais empedernido.

  3. Isto assim parece um clube masculino…. Vinha comentar as lindas subversões deste texto, mas vou-me já embora.

  4. nanovp diz:

    Triste, triste, será uma casa só com a saudade da mulher, por isso a prisão deve ser o inferno.

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