Os Poetas

Há amores assim. Que parecem perdidos, desaparecidos para sempre, mas, quando menos se espera, quando já deles desistimos, nos caem outra vez no colo, sem nada termos feito por isso. É o caso de Os Poetas, um projecto de poesia e música (e aqui, música e poesia são redundantes, pois é tão musical a poesia quanto é poética a música) que nasceu de gravações das vozes de Cesariny, Herberto Hélder, Al Berto e Luísa Neto Jorge a dizerem alguns dos seus poemas. Pela mão de Hermínio Monteiro, o fundador e então responsável da Assírio e Alvim, as gravações foram parar aos ouvidos de Rodrigo Leão e a dois dos seus ex-colegas dos Madredeus, Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro. Daí até à gravação do álbum Entre Nós e as Palavras mediou apenas um extraordinário rasgo de inspiração dos três músicos, que deu também azo a um não menos extraordinário concerto na Aula Magna em que até Cesariny – sim, o próprio, de carne e osso – apareceu a dizer (bem acompanhado pelas teclas de Rodrigo, pelo acordeão de Gabriel e pelo violoncelo de Francisco) a Pastelaria e O Navio de Espelhos. Corria o ano de 1997 e, porque já o fiz aqui a propósito da Pastelaria, escuso de vos repetir o efeito que o disco teve na minha alma sensível (ainda tenho na bochecha esquerda a marca do estalo que me custou). Só vos digo que me bastou uma audição e a presença no irrepetível happening da Aula Magna para me deixar levar por um coup de foudre que se estendeu até aos dias de hoje. Certo, certo, é que, por mais esmero que tivesse na custódia das sagradas vozes de Cesariny, Herberto Hélder e Al Berto, o disco fugiu-me das mãos por artes misteriosas e nunca mais o recuperei (tal como o irrepetível espectáculo, também o disco era de edição única e esgotou em dois tempos).

Mas, na próxima sexta-feira 8 de Março, seja ou não para uma mera aparição fugaz, Os Poetas estarão de regresso. Nem todos de corpinho feito (Cesariny e Luísa Neto Jorge, assim como Francisco Ribeiro e o mentor Hermínio Monteiro, já não andam por cá, mas isso já não tinha impedido Al Berto, nos idos de 1997, de deixar a sua marca no projecto), mas com gente suficiente para me fazerem reviver um amor antigo. Regressam com o tal novo disco que muitos pediam há quinze anos, mais alguns poetas e respectivas vozes (António Ramos Rosa, Adília Lopes) e um actor diseur (Miguel Borges) a juntarem-se ao grupo. Ah, e parece que finalmente vou recuperar o há muito desaparecido Entre Nós e as Palavras, que, segunda consta, foi reeditado para ser vendido no local da nova aparição (CCB). E, porque tanto milagre junto até dá para desconfiar, deixo-vos com Os Poetas colheita 97, a prova viva da existência da associação de Cesariny com Rodrigo Leão e amigos.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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7 respostas a Os Poetas

  1. maria joão Vasconcelos diz:

    Tb fiquei muito contente com este projecto…..espero ansiosamente o novo disco…O outro aqui o tenho muito bem guardado…..

  2. Isto, sim, menino Diogo, é serviço público. Viva!

  3. Há coisas boas. Esta é muito boa.

  4. Ivone Costa diz:

    Que bom!

  5. nanovp diz:

    Belo “revival” que todos merecem…

  6. Maria João, Eugénia, Rita, Manuel, Ivone e Bernardo: ainda bem que gostaram. Já estou a imaginar o próximo projecto dos Poetas: poemas da Eugénia e do Bidarra musicados pela Rita, tocados pelo Henrique e pelo Bernardo e editados pelo Master Fonseca. Já estou a ver o Coliseu ao rubro.

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