Pagliacci

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É tentador acreditar que aquilo é uma palhaçada só deles. Que, no fundo, no fundo, o país sempre arranjou uma maneira de olhar para a politica como uma ópera buffa que a ninguém lembraria levar a sério e que nunca impediu que a economia funcionasse. Como alguém sugeria, com um gosto duvidoso, que diferença há afinal entre o rei do bunga bunga e o príncipe dos palhaços? Sempre foi assim, sempre funcionou assim, sempre funcionará assim. A política, por aquelas bandas, é uma balbúrdia. Eppur a economia si muove. Ou lá se vai movendo.

Mas olhemos para o fenómeno sob outro prisma. E já que estamos mergulhados em metáforas circenses, saltemos para a ópera Pagliacci de Ruggero Leoncavallo. À primeira vista é de uma comedia que se trata. Dir-se-ia que é também buffa a ópera que o palhaço Tonio anuncia no prólogo. Mas Pagliacci é um sofisticado jogo de sombras, uma matrioska infindável de sentimentos universais. E por trás das aventuras e desventuras de Colombina e do Pagliaccio, vive-se, mil vezes espelhado nesse mundo que é a representação dentro da representação, o drama proibido e “real” dos amores desencontrados de Nedda e Canio. Abreviemos. O drama é o drama universal do marido encornado e a obra termina como terminam tragicamente muitos desses dramas humanos: com uma vingança servida em alguidar de sangue.

Fast forward. O drama que se esconde por baixo da fina camada de comédia burlesca que é a politica italiana é, também ele, universal. E o paradoxo que revela é quase tão antigo como o da dor incontida do encornado marido que só encontra na morte a forma de perpetuar o amor que desejaria prolongar em vida. O universalíssimo (porque está longe de ser só italiano) drama de Beppe Grillo é o drama da petite différence fundacional (mas tantas vezes esquecida) que separa os processos, as regras e portanto os resultados de dois sistemas: democracia e economia de mercado. Por muito que gostem de andar a par, por muito que pareça existir evidência que o grande mercado dos votos favorece o funcionamento do grande mercado dos preços (e vice versa), a verdade é cada um dos sistemas responde a perguntas fundamentalmente diferentes. A democracia responde à necessidade de encontrar processos pacíficos para regular a mudança de poder. A economia de mercado responde à necessidade de encontrar processos pacíficos para regular a produção e a distribuição de riqueza.

Ora, convenhamos, quando se fazem perguntas diferentes, a entidades diferentes, por processos diferentes, obtêm-se normalmente respostas diferentes. Qual é, qual pode ser o espanto? Se ninguém podia esperar que a tecnocracia europeia escolhesse Grillo, por que carga de água haveria o eleitorado de escolher Monti?

O que é perigoso e o que deve servir de lição no caso italiano é que, tal como o pagliaccio Canio, tal como qualquer ser humano desde a criação, ninguém gosta de se sentir encornado. Tanto mais que, já se sabe, as cabeças enfeitadas tendem a aquecer em demasia. Desta vez os eleitores italianos encontraram a vingança no regaço de um pagliaccio. Olhemos para a coisa pelo lado positivo: podia ter-lhes dado para um Duce.

 

Texto publicado na Visão de 7.3.2013

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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7 respostas a Pagliacci

  1. O Duce virá, se os pagliacci não deixarem de o ser! Fatal como e destino!

  2. olinda diz:

    que belo texto. mas acrescentei-lhe muito riso e também bolor – ao aquecimento das cabeças enfeitadas. 🙂

  3. Tão bem pensado, fez ranger a ferrugem do meu pensamento político: que vingança é esta, Pedro, em que o único sangue que corre é o do vingador?

  4. Panurgo diz:

    Temos de revisitar essas noções de Democracia e de Economia. Para ser mais preciso: a Democracia é o sistema através do qual a Economia do Estado rouba os cidadãos de uma determinada Nação, sendo o produto do saque distribuído entre aqueles que comandam o Estado.

    Assim percebe-se que a malta esteja um bocado farta de inglesices e Salsicheiros.

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