Papa Francisco: três luzes e uma sombra

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Papa Francisco, foto roubada à SIC Notícias

A Igreja Católica é uma organização que se caracteriza pela lentidão das suas mudanças. Talvez por dar muita atenção ao passado e não aderir ao que pensamos ser o futuro sem o cuidado próprio dos conservadores, aguenta firme e em posição importante há 2000 anos, talvez a instituição mais antiga do mundo, sobrevivendo às sucessivas ondas de materialismo, relativismo, cientifismo e ateísmo que a sociedade foi (e vai) conhecendo.

Tudo na Igreja é, também símbolo. Porque os símbolos poupam palavras e permitem interpretações diversas; são abrangentes, não excluem.

Ao escolher um Cardeal argentino a Igreja sublinha este símbolo: o cristianismo, embora esteja na base da cultura europeia, já há muito extravasou o Velho Continente. O significado da palavra Católico (que quer dizer universal) é vincado e, se não é a primeira vez que um Papa não é europeu (o último tinha sido no séc. VIII, ainda havia a recordação do Império Romano, que se estendera por três continentes), é o primeiro Papa ao Sul do Equador. Esta foi a primeira luz da eleição.

A segunda foi escolher um homem que se distinguiu por não ser faustoso. Um homem que viaja em turística, que anda de metro e autocarro em Buenos Aires e recusou viver no Paço Episcopal para morar num apartamento onde cozinha as suas refeições. Um homem que foi engenheiro antes de padre e que adora futebol e tango. Que viveu na Europa, em mais do que um país, além de ter estudado no Chile e na Argentina. Não é o que se costuma chamar “um rato de biblioteca” e menos ainda um “rato de sacristia”, teve namoradas, segundo se diz. Esta ‘humanização’, que se segue a essa outra humanização que foi a renúncia de Bento XVI, é um sinal positivo.

A terceira luz e a mais importante, é o nome que escolheu e a cultura que tem. Os Jesuítas (e ele é o primeiro Papa oriundo da Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola) dedicam boa parte da sua vida à cultura e ao ensino. São, no geral, homens de grande bagagem cultural. Ao escolher o nome Francisco, o Santo do despojamento e dos pobres, faz, simbolicamente, um programa. As tentações e as corrupções que atingiram a Igreja, nomeadamente nos escândalos relacionados com o IOR (ou o Banco do Vaticano) serão combatidas.

Mas há, no entanto, algo que assombra a sua vida. Não sei se os críticos têm razão, mas as suas relações com a ditadura argentina, na década de 70, terão sido mais amistosas do que o recomendável. Não faço ideia se assim foi, mas sei que nos dissabores que tem tido com o casal Kirchner – na denúncia de um fausto idiota e na falta de combate à corrupção num país que ainda é pobre –  as pessoas decentes estarão ao seu lado.

O grande historiador francês Jacques Le Goff (citado hoje no ‘Público’ por Jorge Almeida Fernandes) disse o seguinte: “Não obstante os atrasos e a lentidão, não obstante as crises que fustigam as religiões, [a Igreja Católica] sobreviveu perfeitamente porque sempre soube adaptar-se às mutações profundas deste mundo. E creio que estamos a assistir a um desses acontecimentos característicos do cristianismo”. Penso que é exatamente isto. Para lá da espuma que são as discussões (importantes, sem dúvida) acerca do aborto ou da homossexualidade, que tanto motivam sobretudo os não católicos, a Igreja já percebeu que não pode manter no mundo moderno os tiques, a riqueza, a preponderância e até a arrogância que tinha em séculos anteriores.

Francisco (que não é Francisco I porque nunca houvera qualquer Francisco) é o símbolo ainda mais marcado dessa transição.

Texto publicado no Expresso Online

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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11 respostas a Papa Francisco: três luzes e uma sombra

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Bom texto, Henrique. E não esquecer que também há São Francisco Xavier e São Francisco de Paula, para além do Poverello.

  2. Mário diz:

    O facto de se ser católico não resolve a posição (de consciência) de cada um quanto às questões do aborto e da homossexualidade. Apesar do mainstream, não são dogmas por parte da Igreja. Há espaço para mudança. Assim haja vontade (e interesse).

    A Igreja é um best-seller há 2.000 anos. Com propriedade poder-se-á dizer: não ensinem o (Santo) Padre a rezar a missa.

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    Não há emendas possíveis a um artigo assim. A não ser apontar para o fato de, Jesuíta que é, possivelmente a escolha do nome guardar mais de um Francisco no passado. Porém mesmo isto a Ivone já tratou de sublinhar.

  4. Panurgo diz:

    Li durante a noite alguns dos seus textos que pude encontrar online. Pareceu-me bastante banal, sem nenhum rasgo luminoso. Terá, pelo menos, a vantagem do rebanho mediático conseguir compreender uma dúzia de frases e assim evitar parvoíces como aquelas que diziam de Bento XVI.

    A quem possa interessar:

    http://aica.org/aica/documentos_files/Obispos_Argentinos/Bergoglio/2005/2005_06_25_JornadasPastoralSocial.htm

    http://www.pastoralsocialbue.org.ar/descargas/Deuda%20Social%20Bergoglio.pdf

  5. Henrique Monteiro diz:

    Cara Ivone e Ruy: de facto, Francisco pode ser o de Assis, o Xavier (o missionário Jesuíta) e Salles, o da comunicação. Mas eu aposto que é o de Assis. Não fazia sentido ele não somar, faz parte do pensamento da Igreja querer acrescentar e não reduzir. O novo Papa, sendo jesuíta e com o trabalho que tem pela frente, precisa dos franciscanos e de outras sensibilidades. Claro que ele não tem (e provavelmente nunca o fará) de dizer a que Francisco se refere.
    Outra coisa é ele ter a cátedra cardinalícia de São Roberto Bellarmino, o jesuíta que mandou queimar Giordanno Bruno. Tem passado despercebido, porque os jornalistas são muito incultos no que toca a hagiografia e às coisas da Igreja. Mas este é outro motivo para ele homenagear os franciscanos.

    • Bruto da Silva diz:

      também pensava que seria de Assis e estava convencidíisimo que o revelaria: os desafios estão lançados (para Bem de Todos).

  6. Henrique, fiquei esclarecido sobre o novo papa em meia dúzia de parágrafos. Obrigado.

  7. A formação jesuita “certifica” o caráter, na salvaguarda dos pilares cristãos e na denúncia e combate aos “desvios” eclesiásticos. Neste caso, o hábito não faz o monge. É preciso afirmá-lo com o próprio exemplo; sair da sombra e fausto dos templos e cerimónias e descer ao povo irmão. Bastará o afago de um olhar sincero, um gesto, para semear a esperança, a vida. O nome escolhido parece, efetivamente, anunciar um programa. Se é o que se diz, e eu acredito, é bem-vindo, muito bem-vindo.

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    Ouvi a irmã deste papal Francisco dizer, na televisão, que não queria que ele fosse Papa. E explicou:
    “Quando veio cá João Paulo II beijei-lhe o anele. Ajoelhei-me e quando levantei os olhos vi no olhar dele todom o amor que João Paulo II tinha, mas também uma infinita solidão. Sei que há muito amor no olhar do meu irmão, mas não quero ver nele essa infinita solidão.”
    Isto foi mesmo o que a senhora disse e falou mesmo de “una infinita soledad”.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Acrescento importante aos parcos que tinha sobre o Papa Francisco. Merci bien.

  10. nanovp diz:

    Bem dito e escrito. Concordo também com a “outra ” humanização. A resignação para mim foi sem duvida um grande gesto de humildade. Mas isso já são outras histórias…

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