Pequenos milagres do quotidiano

Há um pequeno mistério (sem solução) que envolve a primeira vez de quase todas as coisas. Será que ela ficou especial para sempre pela sua condição iniciática, logo, por razões sentimentais, ou antes devido ao próprio conteúdo da experiência? A minha primeira greguería – “O abraço é um colar, mas sem fecho” – mesmo depois das centenas de greguerías lidas e relidas, continua a ser a minha preferida. Tropecei nela sem aviso, numa revista quadrada e de capa amarela chamada Ramón, dedicada ao então para mim desconhecido Gómez de la Serna, que um amigo me trouxe de Madrid.

Mas comecemos pelo princípio. Quem foi Rámon Gómez de la Serna, aqui numa versão cubista, pintado em 1915 por Diego Rivera?

portrait-of-ramon-gomez-de-la-serna-1915

Um dos autores mais originais da literatura espanhola,  nasceu em Madrid em 1888 (no mesmo ano que Fernando Pessoa) e viveu longos períodos no Estoril, onde construiu uma moradia. Dandy e provocador, figura da vanguarda do cubismo, do surrealismo e do movimento Dada, foi amigo de Almada Negreiros (quantas greguerías terão inventado juntos?) e juntamente com Charlie Chaplin e Pitigrilli, o único estrangeiro admitido na Academia de Humor Francesa. Rámon (como gostava de ser chamado) foi o pai da greguería, esse género literário que “nasceu naquele dia de cepticismo e cansaço em que peguei em todos os ingredientes do meu laboratório, frasco a frasco, os misturei. Meti então a mão no grande saco das palavras e ao acaso, que deve ser o melhor padrinho dos achados, tirei uma bola… Era greguería, ainda no singular; mas plantei essa bola e tive um jardim de greguerías”. Como tudo o que não é fácil de definir, a greguería deixa-nos adivinhar os seus contornos pela negação: não é um adágio (são demasiado tristes), nem um aforismo (tem sempre algo de enfático e opinante), nem uma metonímia. Apesar de significar algarviada ou gritaria confusa, acaba por ter direito a uma fórmula semelhante a uma operação matemática: metáfora + humor = greguería.

Greguerias

Observador marginal, un mirador, como se descrevia, Rámon cultivou esta arte subtil e excêntrica questionando a crença numa ordem estabelecida. As suas máximas, ora filosóficas, ora poéticas ou humorísticas, nascem de relações insuspeitas no caos da realidade e são minúsculos milagres do quotidiano. Num vaivém permanente entre o poético e o prosaico, o mágico e o analítico, o insólito e o mundano, as gregues, como Rámon lhes chamava na intimidade, têm o atrevimento de definir o indefinível e equivalem a um estado de graça profano. Nas suas imaginativas conferências sobre greguerías, Ramon levava num baú diversos objectos, muitos deles provenientes da feira do Rastro, e ao tirá-los diante dos presentes, improvisava uma greguería. As greguerías tiveram populares concursos na época, a que não faltaram falsificadores.

Tenho muito a agradecer ao Gato Maltês da Assírio & Alvim que, além de certamente tocar piano e falar francês, fala muitas outras línguas e foi traduzindo autores, poemas e textos de vários tempos e lugares. E há uns tempos, quando o entrevistei, agradeci ao Jorge Silva Melo ter traduzido a sua selecção de greguerías para português. Foi então que fiquei a saber a história: ele estava sem trabalho e em casa, a tratar de uma pessoa doente (que continua viva) e precisava muito de se rir. Durante dois meses, entre teclas de computador e medicamentos, traduziu centenas delas e até houve uma (de momento não me recordo qual) que duplicou a sua presença no livro. Tenho de confessar que já devo ter oferecido mais de 11 exemplares deste livrinho (que entretanto já foi editado há 15 anos) e sempre que vejo um à venda, não resisto a comprá-lo. É como se as greguerías fossem uma espécie em extinção, necessitadas de protecção para sobreviverem. Neste momento tenho 4 exemplares e a única diferença entre eles está na cor da lombada, mais ou menos amarelecida pela proximidade ou distância das janelas soalheiras. Mas as greguerías, que parecem definições evadidas do dicionário, têm o hábito de fugir das estantes. Enquanto os gatos passam por mim no corredor, dizem-me baixinho: “Os gatos são gárgulas que passeiam pela casa”. E quando eles estão a dormir, avisam: “O gato faz-se de morto para que o deixem dormir a sesta”. Quando tenho visitas (há gatos que fogem e gatos mais sociáveis, que se aproximam) é inevitável lembrar-me: “O gato olha para as visitas como se a conversa lhe desse sono”. Aposto que Ramón viveu entre gatos, conhece-os bem demais. Tal como acerta em cheio na definição de livro: “O livro é o salva-vidas da solidão”. Ou na definição de escrita: “Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos”. Quando espreito a lua à janela, não consigo esquecer que é “um banco de metáforas arruinado” ou que “põe na floresta uma luz de cabaret”. Durante o banho, quando o sabonete me escorrega das mãos, lembro-me com frequência que “o peixe mais difícil de pescar é o sabonete dentro da banheira”.

img334

 Nada, nem ninguém parece escapar às greguerías:

“Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo, a  conversa em cima”.

“ O que acorda da sesta ao fim da tarde repara que lhe roubaram o dia enquanto dormia”.

“ À morte não a ouvimos, porque já na intimidade anda de pantufas”.

“ Aborrecer-se é beijar a morte”.

“ O mal do desejo é que aparece sem avisar ”.

“ O beijo é fome de imortalidade”.

“ A felicidade consiste em ser-se um desgraçado que se sente feliz”.

“Cada palavra tem um caroço intragável: a sua etimologia”.

“A idiossincrasia é uma doença sem especialista”.

“A vespa é a dactilógrafa dos insectos”.

 “A lagosta tem, em vez de olhos, binóculos de teatro”.

 “Os crocodilos vivem em permanente concurso de bocejo”.

 “A girafa é o cavalo esticado pela curiosidade”.

“Os tigres aparecem no circo como se saíssem debaixo da cama”.

“O leão tem na ponta do rabo o pincel de barbear”.

 “Os japoneses com óculos parecem rãs”.

“O criador guarda a chave de todos os umbigos”.

 “Quando fechamos a porta com violência, esmagamos os dedos ao silêncio”.

E ainda uma das mais belas definições que já encontrei de cinema: “O cinema nasceu quando as nuvens paradas da fotografia se puseram a mexer”.

Este livro é para ser lido aos pedaços, abrindo uma página ao acaso e vislumbrando uma pequena revelação. Por mais que já tenha percorrido as suas páginas, parece sempre que há algumas que estou a ler pela primeira vez. No outro dia redescobri estas:

“As porteiras são as parteiras da manhã”.

“As recordações encolhem como as camisolas”.

“Nostalgia: nevralgia das recordações”.

“As japonesas levam escondidas nos seus altos penteados as suas cartas de amor”.

“O amor nasce do repentino desejo de tornar eterno o passageiro”.

É verdade: às vezes, quando dou um abraço (e correndo o risco de contrariar a minha greguería preferida) não me importava que ele tivesse um fecho. Temporário, como estes pequenos milagres do quotidiano.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
Esta entrada foi publicada em Está Escrito. ligação permanente.

16 respostas a Pequenos milagres do quotidiano

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Nem acredito, Maria João, que este da Assírio me tenha escapado. Está tão bem apresentado por ti. Quero ter um. Ah e tenho de desmentir esta gregueria: “As porteiras são as parteiras da manhã”. Em Luanda, a Dona Apolónia, parteira e minha vizinha, às seis horas, acordava as manhãs, a assobiar e a tratar do jardim. Parteira, era a minha porteira da manhã.

    • Maria João Freitas diz:

      Manuel,
      Só tenho uma explicação para o Gato Maltês número 37 lhe ter escapado: o facto de eu ter açambarcado tantas Greguerías. Quem sabe, ainda lhe vão parar umas às mãos.

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    Oh, Maria João, se bem começa, melhor acaba este texto. Gostei tanto das greguerías que só eu sei. Vá e agora mais textos, está bem?

    • Maria João Freitas diz:

      Ivone,
      Muito obrigada pelas tuas palavras. Também quero escrever mais. E de preferência, melhor.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Que texto Maria João! Quantas razões para ver o que nos rodeia com outros olhares! De todas as greguerías que me fascinaram, a escolher uma é esta: “A idi­os­sin­cra­sia é uma doença sem especialista”.

    • Maria João Freitas diz:

      Maria do Céu,
      Também essa é uma das minhas preferidas, entre tantas outras. Mas não foi a primeira…

  4. V. diz:

    Gosto da sua maneira envolvente de narrar, não és apenas uma escritora, mas uma excepcional contadora de histórias, suspirei com muita pena ao final do seu texto, queria ler mais.
    Não conhecia o “estilo”, nem tampouco o escritor, mas agora desejo o livro, Greguerias, do Ramón Gomez de la Serna.

    Obrigada pelo texto, abraço.

    • Maria João Freitas diz:

      V.
      Muito obrigada pelas palavras, mesmo sabendo-as exageradas… Acho que os outros nos fazem um favor, sempre que lêem um texto nosso. Daí a necessidade de tornar a história interessante o suficiente para que os seus olhos desçam mais uma linha, depois outra e assim até ao final do texto.

  5. Gostei muitíssimo, Maria João.

    • Maria João Freitas diz:

      Eugénia,
      E eu gostei muitíssimo que tivesse gostado. Além do mais, desconfio que as Greguerías são umas amigas que temos em comum.

  6. nanovp diz:

    Maravilhoso texto ! Fiquei com imensa vontade de comprar e ler…

  7. Bruto da Silva diz:

    Um banco de metáforas sabiamente salvo das ruínas, com grandes hipóteses de recapitalização.
    E de rentabilidade imedita 😉

    • Maria João Freitas diz:

      Bruto da Silva,
      Nunca entendi como é que este livrinho não se tornou um best-seller. Com centenas de Greguerías por pouco mais de 7€, sai baratíssima a unidade. Uma verdadeira pechincha.

  8. JP Guimarães diz:

    Olá Maria João, excelente texto e que livro extraordinário esse que nos apresenta. Para além do Ramon, também o Gay Talese mostra saber muitos de gatos aqui: http://www.brainpickings.org/index.php/2013/03/25/gay-talese-new-york-a-serendipiters-journey-cats/
    Curiosamente num livro também ele “out of print”. Espero que goste.
    JP Guimarães

    • É bom continuar a aprender com a Maria João, sobretudo desta forma. Há muito que não compro um livro – pelo menos para mim -, mas estou tentado a fazê-lo. Vou procurá-lo!

Os comentários estão fechados.