Pilinhas e Pipis

"Corações Perdidos", de Jake Scott

“Corações Perdidos”, de Jake Scott

De características próximas do “filme independente” – orçamento modesto, margem à improvisação dos actores, deriva geográfica e um certo realismo social – “Corações Perdidos” é, sobretudo, um assunto de família: primeira longa-metragem dirigida por Jake Scott, filho de Ridley Scott, após videoclips para os Cranberries, R.E.M., Smashing Pumpkins e Tori Amos, trata-se de uma produção da Scott Free, a empresa de Ridley com o irmão recém-falecido, Tony Scott. O ambiente intimista favorece a história: Doug (James Gandolfini igual a si próprio, logo excelente) e Lois Riley (Melissa Leo igual a si mesma, logo óptima) perderam a filha de quinze anos num acidente de automóvel em 2009. Desde então, Lois fechou-se em casa, numa agorafobia malsã, e Doug aproveita e vai para a cama com Vivian, a empregada de mesa de uma casa de panquecas. Vivian morre de ataque cardíaco, Doug descobre que Lois já preparou a lápide do casal ao lado da tumba da filha adolescente, mas a única fuga que lhe resta é fumar um L&M às escondidas na garagem de casa. Doug tem uma convenção de pequenos empresários em Nova Orleães e, ainda anestesiado pela dor, conhece Alisson (Kristen Stewart, a esforçar-se muito para que não lhe preguemos um par de estalos pelo ar de enjoo), uma stripper de 16 anos que gosta de ganhar gorjetas no fellatio oferecido à clientela. Claro que, para Doug, Alisson se irá revelar a substituta afectiva da filha defunta.

Se nos cingirmos ao cinema norte-americano e ao período pós-blockbusters, o melodrama de trauma familiar tem frondosa árvore genealógica. Do “Gente Vulgar” dirigido por Robert Redford em 1980 ao belo e dorido “A Porta no Chão” de Tod Williams (2004), a lista de ficções apoiadas no luto dos jovens desaparecidos é quase um subgénero. “Corações Perdidos” não é propriamente um salto quântico na tradição, mas também não a desmerece. Os actores são irrepreensíveis – mesmo Stewart, contratada antes da tempestade mediática “Twilight” – e os clichés vão sendo evitados um a um, “in extremis”. Pior do que esforços semelhantes de Todd Field ou Nanni Moretti, melhor do que um telefilme inspirado.

"Laurence Para Sempre", de Xavier Dolan

“Laurence Para Sempre”, de Xavier Dolan

Depois do razoável sucesso artístico de “Amores Imaginários”, o wunderkind do Quebeque, Xavier Dolan (faz 24 anos em Março) escorrega no gelo da sua ambição. À terceira longa-metragem, Dolan ausculta uma década de relacionamento entre a agitada Fred (Suzanne Clément, prémio de interpretação feminina em Cannes 2012) e o angustiado Laurence (Melvil Poupaud, de “As Linhas de Wellington” e “Conto de Natal”). Disfarçando o stresse com um par de malabarismos intelectuais, Laurence está no fim dos anos 80 e quer ter um corpo de mulher. Fred, estupefacta, acede: o amor que sente por Laurent parece autorizar que ele se transforme em ela. Mas o amor não é simples, muito menos a meias com a transsexualidade (ou será a três?). Dolan acerta alguns tiros do seu agitadíssimo olhar – há trouvailles audiovisuais, como a chegada à ilha negra, e a banda sonora inclui Visage, o “Funeral Party” dos The Cure e um grande Stuart Staples. Mas as quase três horas de narrativa não suportam as indefinições éticas, com a esquizofrenia plástica a alternar entre o sonho pop e um burlesco muito “eighties”. Apenas nos últimos 25 minutos o filme atinge a maturidade, confrontando os seus dilemas. É tarde demais.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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4 respostas a Pilinhas e Pipis

  1. Rita V diz:

    fiquei curiosa
    dá para ver este último filme de trás para a frente?

  2. Resultaria melhor, amiga Rita.

  3. nanovp diz:

    Não vi nenhum, será que andam “por aí”?

  4. Andam os dois, Bernardo. Talvez te proporcionem mais prazer do que a mim.

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