Poema de Quinta-Feira Santa

Esta é a photo tirada pela polícia ao beijo roubado em Odessa e recuperado em Berlim. Do meu rico Caravaggio, claro.

Esta é a photo tirada pela polícia ao beijo roubado em Odessa e recuperado em Berlim. Do meu rico Caravaggio, claro.

POETURA – ii
(CARAVAGGIO – ii)
POEMA DE QUINTA-FEIRA SANTA

CROCODILOS DANÇAM

Quando os nossos amigos se sentam
À mesa dos nossos inimigos
Enquanto avançamos com tanta dificuldade
Pois se Deus partiu rodeado dos anjos e das suas espadas
E nem nos deixou uma concha de luz que se pudesse beber
Com tanta dificuldade e a água barrenta pela cintura
A passos lentos sobre a areia mole
Quando os nossos amigos se sentam
À mesa dos nossos inimigos
Pré-históricos crocodilos dançam
Imensos de sangue frio e os dentes
Cheios do riso de quem nos vai comer
Dançam contentes para depois bem chorar:
Gosto tanto dele é tão bom faz tão bem
E nós surpreendidos no estômago da besta
Pequenos demais deglutidos trabalhados a ácidos
Ainda perguntamos
Inimigos eu traição porquê se um grão é nada
Um grão é nada apenas se não for semente

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

Esta entrada foi publicada em Post livre com as tags . ligação permanente.

6 respostas a Poema de Quinta-Feira Santa

  1. via Bruto da Silva diz:

    Sim, semente no estômago da besta, como grão, sempre é alguma coisa…

  2. Ó Eugénia, então Deus não nos deixou uma concha de luz? O que é que são palavras e versos? Isto no princípio como no fim é sempre o Verbo, mesmo que se carregue uma cruz. Acho que é o que diz, aliás, ese seu poema.

  3. nanovp diz:

    As traições vêem sempre dos amigos, dos outros, inimigos, já não se espera nada…

Os comentários estão fechados.