Porque nunca teremos o céu na terra

O Céu na Terra

O Céu na terra, foto CM Évora

Acho que foi Soren Kierkegaard que escreveu que todo o homem tem inveja de Deus. Por inveja da perfeição. Se assim é, a história do fruto proibido ganha um significado diferente.

O homem era feliz nas trevas do desconhecimento, como presumimos que o é qualquer animal não racional (o meu cão faz a mesma festa quando não me vê há uma semana ou há uma hora, por não ter a noção do tempo, talvez o maior fautor de infelicidade, porque é o tempo que nos aproxima da decadência, da morte).

Ao possibilitar-se o conhecimento, o homem sofre. Torna-se infeliz porque não aceita um destino como uma fatalidade. Quer causas e quer consequências. Não confunde uma semana com uma hora. Quer saber mais.

E mais.

Ascende, quer subir ao céu, ao lugar de Deus.

A corrupção das almas é a resignação à impossibilidade desta perfeição. A entrega à fatalidade do ser imperfeito.

É a descida que corresponde à subida.

E é por isso que a busca, a demanda, a procura jamais pode parar, ainda que seja o caminho ascendente, o caminho das pedras, o caminho difícil, para o qual não há trilho nem rumo certo.

E é por isso que nunca teremos o céu na terra, nem sequer nas nossas vidas pessoais.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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20 respostas a Porque nunca teremos o céu na terra

  1. Para já há que distinguir entre inveja e emulação. Depois, tenho todo o gosto em ser eu e não ser o meu cão. O Céu? Como não sabe o que é, porque diz que jamais o terá na Terra? Não era preciso recuar tão longe, mas pronto, os sofistas e Platão. Nestas coisas dos deuses, a vida ser curta e o tema ser difícil, levou aqueles ao relativismo filosófico. No Fédon Platão recorda-os e antecipa-se à revelação cristã. O que diz é mais ou menos assim: neste oceano de questões do sentido último, as vagas são grandes e parece impossível conhecer, A não ser que os deuses venham em nosso auxílio. A revelação é então uma “exigência” da razão humana. Então – diz Kierkegaard – só há uma pergunta a que o homem tem que responder: Jesus Cristo é ou não Deus? Em casa afirmativo, o Céu encarnou num momento do tempo (T.S. Eliot), naquela barriga de 15 anos. Por isso no meu FB escrevi hoje que tenho o Céu ao colo. O problema é então como saber se Jesus Cristo é Deus. Temos todo o “tempo” para responder. Mas será que queremos saber? Como dizia Lubac, a mística é uma colheita da tarde. E dos cépticos, dizia Aristóteles que deviam ser como os troncos das árvores. Platão dá uma ajuda: cada escravo agrilhoado só sai da caverna se quiser, e para isso tem que virar a cabeça por si próprio. Nós conhecemos a Alegoria.

  2. marie diz:

    Ou seja, temos a obrigação de continuar…

  3. Panurgo diz:

    A História das Ideias e da Literatura mostra isso mesmo. Mas revelam ainda outra coisa: o Céu nunca o teremos. O Inferno sim.

  4. Céu é o infinitésimo que tudo contém.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Kirkegaard estava enganado: nenhum homem tem inveja de Deus. Quando parece que existe, essa inveja é uma encenação para enganar a solidão de Deus, desfalecida marioneta de criação humana.

    • Henrique Monteiro diz:

      Não me apanhas, Manel. Tu queres que este diga quem ou o que é Deus, mas vais ter que o descobrir sozinho.

    • Estou mesmo interessada em saber o que é,no seu entender, “inveja de Deus”, que modalidade de encenação é essa. E já agora, que marioneta é essa, que parece conhecer tão bem. Sabe, tenho mesmo na Filosofia um interesse muito grande.

      • Henrique Monteiro diz:

        Não tem descrição, este Deus. Quanto à inveja é a interpretação da recusa do homem em assumir as suas limitações. Que nunca conhecerá tudo, que nunca saberá tudo, que nunca agirá de forma perfeita. Mais, de acordo com o mito de Abel e Caim, quem se aproxima paga por isso. Caim matou Abel por inveja de ele ser o preferido de Deus. A resposta lá de cima – de que lado estou? – não existe. Não há lados num círculo.

        • Estas perguntas não eram para si, mas para a pessoa que comenta. Para si é a lá de cima e já respondeu. Na sua concepção cíclica de tempo (hegeliana, ou nietzscheana, se quiser) não cabe a distinção entre finito e infinito. Eu, como já percebeu estou do lado do finito.

        • Assim é claro. Mais “finito” e “bene trovato” que isto é impossível: http://100mim.wordpress.com/2013/03/18/henrique-monteiro-100-papas-na-lingua/
          Parabéns pelo que testemunha ( e não é de cor), também porque ajuda a enterrar – e com argumentos – a dicotomia público/privado que nos impingem desde Kant. Agora ainda há a questão do Céu na terra. Diz neste video que o Papa não é o Céu na Terra. Mas se ouvir tudo o que ele tra-diz, ele afirma com argumentos que o Céu “está” na terra. Mas isto não cabe neste quadradinho. E os jornalistas, meus Deus! Ouvi um dos grandes a dizer que a Comissão dos “Vescovi”, blá, blá. Mas isto está a melhorar.

  6. Bruto da Silva diz:

    E, então, o que é o Céu?

    E, a sério, quem o quer na Terra?

    E, vendo bem, por que alguém o quereria?

    Cantemos

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Explicação convincente que destrói ilusões humanas.

  8. nanovp diz:

    O homem aspira ao divino, chegar lá em vida, na terra, seria a sua destruição. Deixaria de fazer sentido.

  9. O andamento desta discussão remete para a discussão do tema da ressurreição; na conceção Cristã e segundo Ratzinguer o acesso do homem ao “Céu” torna-o, no fim, igual a Deus; a dádiva suprema.

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