Postais de Mumbai: a sesta é para quem sabe

Mumbai. Março de 2013.

Mumbai. Março de 2013.

Mumbai. Março de 2013.

Mumbai. Março de 2013.

Mumbai. Março de 2013.

Mumbai. Março de 2013.

Por uma questão de pudor, própria dos grandes intérpretes, o meu pai costumava dizer que ia “ali congeminar”. Aprendeu com o pai dele que tinha aprendido com o meu trisavô. E por aí fora. Eu digo aos rapazes que “já venho”. Retiramo-nos, discretos, decididos, sem grandes alardes, numa espécie de ritual silencioso que dura há gerações, com a precisão maníaca de um relógio suíço. Paris valerá uma missa mas, na minha família, duvido que valha uma sesta. É que não faz a sesta quem quer. Nem faz a sesta quem pode. Faz a sesta quem sabe. Muitos dormem, outros tantos passam pelas brasas. Mas há toda uma dignidade especial numa sesta bem feita. Toda uma sabedoria requintada. Talvez oriental. Entre a sesta  e o simples cochilo há um oceano de bocas abertas, de cataratas de baba, de mão desmaiadas, de corpos oferecidos sem pinga de vergonha.

Sei muito bem do que falo. Sei apreciar o que vejo. E continuo a pasmar-me quando quando vejo uma bem dada.

 

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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3 respostas a Postais de Mumbai: a sesta é para quem sabe

  1. De olhos fechados em Mumbai

  2. nanovp diz:

    Há sestas e sestas, estas sabem a especiarias…

  3. Maria João Freitas diz:

    O pai de um amigo meu, uma espécie de engenheiro teólogo, chegada a hora da sesta diz a quem o quiser ouvir: vou ali morrer um bocadinho.

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