Preto na Branca

"Blancanieves", de Pablo Berger

“Blancanieves”, de Pablo Berger

Quantas versões de “Branca de Neve e os Sete Anões” aguenta um homem? “Branca de Neve”, do basco Pablo Berger, é a milésima adaptação do conto dos irmãos Grimm. Face às últimas reencarnações – o cinético mas preguiçoso “Branca de Neve e o Caçador” e o farsola “Espelho Meu, Espelho Meu! Há Alguém Mais Gira do Que Eu?” – este filme espanhol é um portento de originalidade: mudo, rodado num preto e branco sacramental, de cúria rendilhada, transfere a acção para a Espanha dos anos 20, onde Antonio Villalta (um comovente Daniel Giménez Cacho), o mais adorado toureiro da Andaluzia, leva uma valentíssima cornada na Colossal de Sevilha, agonizando enquanto a mulher (Inma Cuesta), bailarina e cantora de flamenco, morre no parto da filha de ambos, Carmen (interpretada por Macarena García no final da adolescência). Paralítico e inconsolável, Villalta casa com a enfermeira de serviço, a pérfida Encarna (Maribel Verdú, inesquecível Luisa Cortés de “Y Tu Mamá También”), que enfia Carmen numa pocilga após a morte da avó materna. Carmen ainda cresce para brincar com o pai, mas a madrasta arruma com ele, encarregando o amante caudilhista de assassinar a afilhada. Carmen será resgatada das águas por um grupo de seis anões toureiros – terá a crise de Castela devorado um anão? O filme ganhou há poucas semanas dez Goya, os prémios do cinema espanhol, e justamente: a banda sonora de Alfonso de Villalonga é um triunfo, e Macarena García pode ser a nova Elena Anaya, numa indústria diversificada que começa em Badajoz, vai até Santiago do Chile e terminou 2012 a conquistar 18% do seu mercado doméstico (a média portuguesa são os 2%). Mas há limites ao que se pode fazer com “Branca de Neve e os Sete Anões” como base.

Publicado na revista “Sábado”

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Preto na Branca

  1. Carla L. diz:

    Pela fotografia percebo que vou gostar das luzes deste filme.Apesar de ter uma queda por adaptações, ando um tanto farta das versões modernas da Branca de Neve.Grata pela dica!

  2. Branca de Neve será para sempre a do João César. Mas ó Pedro, a dos toureiros anões deve ser gira: onde é que eles espetam as bandarilhas nos touros?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    ‘Branca de Neve’ tão bem analisada nunca vi.

  4. Talvez saia consolada desta “Blancanieves”, Carla. Não passa pela excelência, mas pelo menos é silenciosa… Estes anões, como os do subtexto do conto original, estão mais interessados em espetar as bandarilhas na Branca de Neve, dottore. Sempre atenciosa, Maria do Céu.

  5. nanovp diz:

    Uma Branca de Neve toureadora aguça o apetite…

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