Pulga Dramática

 

bigode

 

(Isto é mesmo uma de 1-2-3 experiência, que a minha imaginação tem estado de tal forma sedada que já nem sei se ainda sei alinhar um texto. Vai daí escolhi um modelo já existente, uma espécie de desenho já feito para colorir. Espero, pelo menos, que nem todos conheçam a história…)

A cena decorre em seu cenário: o bigode dum motociclista.
Neste apêndice piloso farfalhudo e nem sempre de asseio exemplar, vive, ou melhor, sobrevive a nossa Pulga Dramática.
Certo dia, durante uma folga (a mota estava no mecânico e o motard roncava num banco em frente), Pulga Dramática vê-se inesperadamente na convenção anual de do Sindicato das Pulgas, assim sem perceber muito bem como, e logo fica espantada. Era a sua primeira vez na convenção, e o brilho das quitinas bem polidas, dos anéis, das correntes e dos relógios, as barrigas satisfeitas encimadas por cartolas de sucesso, tudo ali lhe mostrava que aquelas suas congéneres estavam realmente bem de vida.
Num dado momento uma destas personagens do glamour pulgoso aborda a nossa Pulga Dramática em termos que a deixaram ainda mais envergonhada do seu triste e baço físico, a magreza escanzelante, a tússica convulsão, enfim, todos os sinais de um retrato quase disparatado naquele ambiente tão selecto:
Mas que diabo de vida levas tu para teres esse aspecto tão resolutamente miserável? Acaso vives nalgum cão??!…
Não, não é num cão…, já me deixei disso há muito… Eu vivo no bigode dum motociclista! Tás a ver a cena… É sempre dum lado para o outro, um vento do caraças, e muitas vezes chuva!… Para cúmulo, quando está parado fuma como uma besta!…, uma poluição de merda…
Daí a tosse.

A pulga gorda e luzidia olhou a outra com uma pena que roçava o desdém.
Mas por fim lá aconselhou:
Devias experimentar uma mulher… As mulheres são do melhor que há! São óptimas, très soignées…, e acima de tudo  cheiram bem!…
Mas é preciso saber escolhê-las.

E…, e como se faz isso?…, inquiriu Dramática, esparançosa.
Fazes assim: vais para a porta duma igreja e escolhes. Quando vires uma com aspecto de que tem meios para te sustentar a contento, trepas!…
E lá foi Dramática convenção fora, rumo àquele amanhã que cantava não muito longe dali: passara por uma igreja pouco antes da fortuna lhe apresentar o sucesso tão de mão beijada…
Depois o tempo passou, como é seu costume.

Certo dia, na Baixa, Pulga Dramática dá de caras com o seu interlocutor gordo e rico da convenção anual do sindicato. Que de imediato lhe arrasou o ego:
Além de famélica és burra! Não fizeste nada do que te disse, e agora olha para ti! Essas olheiras dizem tudo… Pareces o Gaspar!
Mas eu fiz tudo o que tu me aconselhaste, pulga gorda e luzidia!…
Como assim?… Quer dizer, o que é que correu mal, afinal?!…
Fui para a porta da igreja e esperei pela hora da missa. Vi passar várias mulheres, mas nenhuma me satisfazia por aí além… Muitas velhas, sabes como é…
Até que de repente pára um Bentley Continental com motorista e tudo… E de lá de dentro saiu uma do melhor que vi na vida!
É que nem hesitei, claro. Fui aos saltos até ao carro e quando ela ia começar a andar saltei-lhe para cima dum Louboutin cheio de atilhos…
E trepei – como me aconselhaste.

E então??!…
– Depois da estafadeira de trepar por ali acima, cheguei finalmente a um local verdadeiramente aprazível. Temperatura e humidade ideais, nada de excessos, um aroma amável na atmosfera… Bem, eu estava cansadíssima, e havia ali uma área suave, muito bem tratada por sinal – parecia um put de golfe!…
Olha: adormeci que nem uma pedra.
E depois?…, pergunta com ânsia na voz pulga gorda e luzidia.
E depois, perguntas tu…, enfatizou Pulga Dramática.
E depois acordei outra vez no bigode do motociclista, ora a grande pôrra!!!…

The end

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo.
E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado.
Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.

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29 respostas a Pulga Dramática

  1. Minhona diz:

    Estou tristíssima e confusa. Nunca imaginei sucumbir ao fascínio de uma pulga e empolgar-me com o seu destino… com a banda desenhada de uma só aventura pulguina. E sorri a pensar no António que ao sentir-se menos inspirado (julga ele) reduz drasticamente o tamanho das personagens em proporção. Afinal agigantou duas pulgas, que tomaram conta da minha atenção em suspense não fosse a minha miopia imaginária perder um salto dramático e decisivo para o final feliz. Comigo está sempre de parabéns. Sinceros!!!

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Empolgou-se? Bestial!
    Isso põe-me bem contente, obrigado…

  3. Gostei; mas acho que a pulga famélica é pouco inteligente e preguiçosa! Devia ter percebido que, logo, logo, poderia voltar ao “local verdadeiramente aprazível”! Fica assim explicada a origem da fome! Já diz o ditado; quem muito dorme…

  4. maria leao diz:

    Nunca imaginei, que as pulgas tivessem tanta vida! Se eu fosse pulga, jamais iria para a porta de uma igreja . Desse sítio, para além dos comuns mortais, saem em bando (geralmente) uma éspecie de terror da sociedade “as ditas beatas velhas” ! Cheias de vicios, cobertas de mentiras … pouco limpas, trajam tudo aquilo que não são: uma velhas ranhosas e em geral já com os dedos cheios de atrozes de tanta se benzerem, ou “des”benzerem …. Ora na qualidade de Pulga, elegeria outro sitio para viver! … Jamais esse que simplesmente fede a mentira. Não sei , qual seria o sitio ideal, pois suponho que até mesmo as pulgas não vivem de sonhos, o que implica que esse tal “mundo ideal ” não exista …. Vai daí (adoro esta expressão) iria para a porta de um spa! Saltaria para as costas fosse lá de quem fosse, e aproveitaria os “doces prazeres ” de umas belas massagens ao som de odores em geral bons! Parabéns pela história , mais uma vez fantástica! Escreva, escreva sempre ….

  5. maria leao diz:

    ….. Esqueci-me de dizer, chorei a rir ….. ainda bem que existem pessoas que escrevem, com Maísculas, sem AO …. e com don de saber escrever ….. Vai daí, em nome dos que gostam de ler , escreva sempre ,até porque escreve matavilhosamente bem ! Parabéns ! Sinceros …

    • Diz bem; Maria. Um spa era capaz de ser melhor coutada para a pulga, embora haja sempre o risco de afogamento súbito…
      Muito obrigado pelo seu comentário!

      • Maria Leão diz:

        Ora pois, o risco de afogamento súbito, até as pulgas devem saber o que é! Vejamos, as pulgas devem saber, ao seu modo, nadar. Nadar por entre mil e uma coisa, elegendo sempre um local sujo, sendo o spa por princípio aparentemente limpo, estão fora do seu habitat! No entanto, com tantos workshops, tanta invenção não haverá já modos de ensinar a “pulga”, a não se afogar nos cremes, nos óleos, em todos os liquidos que prefazem um spa? …. … Insisto a/s pulga/s devem frequentar os spa … correndo evidentemente o perigo de lá sairem meias tatuadas … mas cheirosas! Mais uma vez, pois nunca é demais, neste mundo tão estúpido e pobre , dar-lhe os parabéns e pedir-lhe para que muitas Histórias apareçam … com pulga ou sem ela , mas com palavras !

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Li de um fôlego só. Pelo riso que me brotou, pelo engenho, rendi-me. É necessária “Pulga Dramática”, parte II.

  7. Estou a chorar de tanto rir!
    Fabulástica esta da pulga dramática 🙂

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    António, andas a deixar crescer o bigode, é?
    Really funny! Gosto muito de contos moralistas,

  9. Rita V. diz:

    estou aqui com uma dúvida…queria dizer put ou green?
    😛

  10. Pois, Rita, é uma questão muito pertinente… (a bem da verdade, nada sei de golfe…) 🙂

  11. nanovp diz:

    A vida é assim, às vezes anda-se para trás, ou vai-se parar ao mesmo sítio…

  12. Maria Leão diz:

    ….. num dia cinzento, como o de hoje, achei que ao abrir este blog iria ler as aventuras da pulga dramática, desta vez num spa …. Não ainda , não foi hoje! …. Talvez. esta seja a altura de elas viajarem até Roma ….! Porque não, estarem presentes no “conclave” , talvez a inteligência da pulga ajudasse os “membros que prefazem o conclave” , a descerem à terra! Poderiam, ser mordidos e teriam um ataque de comichão ….. why not ! Isto, é claro, não passa de uma sugestão …. no fundo no fundo o que eu queria era ler mais uma história ….. fico a aguardar!

  13. António,
    o que eu ri com este seu texto!
    Já conhecia a história, mas contada por si é toda outra elegância.
    Que saudades de lê-lo.

    (e o que demorei para chegar aqui também é de nota: os posts desaparecem da página principal num instante…)

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