Reflexões profundas do repórter cansado

Um dia, aqui sentado a escrever,
algo vai acontecer.
Nesse preciso momento, meus caros,
sereis os primeiros a saber.
Mas neste instante, agora,
quando escrevo estas linhas;
neste momento, nesta hora
só há coisas comezinhas.
Um homem matou o outro;
o outro roubou aquele;
e aquele, indignado,
tem há muito declarado
que sim, que não, que talvez.
Pela milésima vez
falou um tipo qualquer
que disse o que sempre disse
(salvo quando contradisse)
o que não queria dizer.
O outro, o que é mais vivaço,
aproveitou o embalo e disse,
a quem quis escutá-lo,
que está mal o que foi feito;
que se fora ele o eleito
já cantaria outro galo.
E a gente escreve tudo,
para que mais tarde, um dia,
de manhã ao acordarmos,
não saibamos bem quem somos,
nem que são estes senhores.
Isso, sim, seria grave,
serem no grande palco
atores os espetadores…

E se os espetadores fugissem?
e o espetáculo terminasse
por falta de freguesia?

Vai acontecer um dia

 

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Redação de jornal bem organizada

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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6 respostas a Reflexões profundas do repórter cansado

  1. olinda diz:

    que cansaço tão giro! 🙂

    (mas olha que desconfio que os espectadores só fogem se continuados a serem chamados de espetadores. viva a antiga ortografia!)

  2. nanovp diz:

    Vou passar a “ver” estas “notícias” bem melhores e mais verdadeiras….

  3. Pedro Bidarra diz:

    Bravo, bravo, bravo. O título devia ser “O Fado da Redacção”

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    É vívido este retrato. Dava fado na voz do Pedro Moutinho.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Pensando melhor, que tal o bonitão do Camané? Desta letra construía figo para milhões.

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