Sinto Me

 
Não me perguntem porque me sinto assim.
Apenas o sinto, como diria o poeta. Não me interessa vasculhar os recantos menos claros da minha história, nem padecer em divã alheio, em busca de uma luz ténue que me forje um caminho.
Sinto-me assim, denso mas fresco, com as nuvens paradas lá fora, a tarde suspensa no tempo, o ar fresco que entra pela janela entreaberta.
Não vislumbro razão de sentir assim, nem a sinto perto. Olho antes a luz do dia que vence a noite, em transparente azul celeste.
Sinto-me assim, porque já não sei sentir de qualquer outra forma.
A vida arrastou-me para um mundo onde os pequenos nós da madeira do chão fazem sentido. Onde o silêncio evoca partituras polifónicas.
Um mundo que distingue o uivo do lobo solitário do ladrar longínquo do cão perdido na noite.
Aprendi a cheirar a manhã que vai nascer, e o vento fresco que ainda não afaga a pele. A degustar a gota doce do liquido que escorrega pela garganta, e sobe ao cérebro em tons de névoa que me molha os olhos.
A passar as mãos pelas paredes rugosas, onde revejo geografias desaparecidas.
Sinto-me assim, às vezes sem norte, quando o mundo ressona num roncar de abismo.
Sinto-me sentido, como o homem que se sonha desejado, no conto de Borges.
Sinto-me assim porque assim sinto. Os outros, o mundo.
Sinto-me.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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14 respostas a Sinto Me

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    Belas palavras sob bela trilha sonora. Winwood é o que há, seja no Traffic, seja no breve Blind Faith. Tive a honra de, num boteco em Salvador, tomar umas e outras com Jim Capaldi. Antológico.

    • nanovp diz:

      Ruy a bateria que aqui se ouve é o mestre Capaldi, que é co-autor do tema…sorte a sua, a mim coube-me apenas ouvi-lo aqui em Lisboa numa altura em que nada sabia de música, e como me surpreendeu…

  2. olinda diz:

    e bem. sentes-te muito bem.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Tão bom sentir sem desperdício! Assim, sim.

    • nanovp diz:

      Bela ideia : sentir sem desperdício! Fez-me lembrar o que minha avó (acho que era ela…) dizia: “saber não ocupa espaço”…

  4. mas que bonito é o teu sentir

  5. Rita Marques dos Santos diz:

    Não tenho palavras para descrever o que sinto ao ler as tuas… reservo-as enquanto estou a ouvir a música que deixas-te… Guardo-as!

  6. Luisa Tavares de Mello diz:

    Por vezes também me sinto assim. Livre, sensível, detalhada. Sem tanta beleza na prosa mas solta na alma! Noutras, escondo-me no fundo de mim e é de lá que olho e respiro e sinto, e temo o amanhã e a noite como se a partir daí não houvesse nada.

    • nanovp diz:

      Quantos dias não o são assim também…e estar “solta na alma ” deve dar força para mexer montanhas. Obrigado pelo seu sentido comentário. Até breve.

  7. Carla L. diz:

    E que bom que é sentir-se assim tão claramente.
    Já quis definir para outros que meu silêncio tem sentido e percebi através de suas palavras que ele tem na verdade é som, diversas vozes e instrumentos.
    Tenho mania de tatear lugares e objetos que me agradaram primeiramente os olhos.É como se na superfície estivessem contidas mensagens.

  8. nanovp diz:

    O som do silêncio, ou as mensagens por baixo da superfície, como bem diz, tudo isso será o sentir a vida. Cada um à sua maneira…

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