Sou só eu que não quero ser mosca?

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As pessoas dizem: “ah, eu gostava de ser mosca” só para saber o que Fulano diz a Beltrano. Ou Cavaco a Passos, ou o Seguro sobre Sócrates, ou os juízes do Tribunal Constitucional uns aos outros, ou Louçã a Gaspar quando um tio comum faz anos.

Está bem! Mas se fossem moscas alguma vez entenderiam o que dizem Fulano e Beltrano? Uma mosca tem tem pouco cérebro. Eu sei que há Fulanos e Beltranos cujas elucubrações não carecem de massa cinzenta para ser entendidas. São básicas. Porém, ainda assim, não devem ser ao nível de mosca. Caramba, uma mosca é um artrópode e isso não indica grande compreensão ou inteligência, soa mais a calhau do que a lucidez.

Eu não queria ser mosca, porque se fosse mosca, ainda que presenciando importantes acontecimentos, ouvindo inultrapassáveis personalidades, de nada me serviria. Morreria daqui a 20 dias, uma vez que o ciclo de vida da mosca doméstica não ultrapassa os 25.

Que raio sabe de moscas quem diz “ah, eu gostava de ser mosca”? Nada! Uma mosca quer basicamente evitar levar com uma coisa na cabeça – seja um mata-moscas seja o rabo de uma vaca. Daí ter dois ou mais olhos. Mas não necessita de conhecer as imbricadas relações humanas, menos ainda as da política.

Mosca boa só houve aquele suplemento que saiu com o “Diário de Lisboa” onde o Luís Sttau Monteiro escrevia a Guidinha e Fernando Assis Pacheco peças de subtil humor. Eu não queria ser mosca! E além do mais, nunca me interessou o que Fulano diz a Beltrano. Pelo que leio deles nos documentos, parecem-me pessoas muito desinteressantes. Mesmo para mosca.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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7 respostas a Sou só eu que não quero ser mosca?

  1. ERA UMA VEZ diz:

    Há tanto tempo que não ouvia falar da Guidinha.

    Fazia parte dos sábados à tarde na esplanada do Café Central da cidade onde vivo.
    Hilariante aquela sua escrita sem pontuação.Às vezes quase faltava o ar. Nada que uma boa gargalhada não resolvesse.Às vezes, em coro.

    No Verão de 73(julgo não estar enganada) os leitores habituais tinham trocado a Guidinha pelo livro do General Spínola, uma publicação corajosa, reflectida,irreverente, que tinha surgido entre silêncios…assim… aparentemente do nada.

    Profético? Um guia para os próximos capítulos? Talvez. Meses depois, mistério desvendado.

    Muita água já correu Sado acima(sim, que este é do contra como se sabe) e o café central perdeu a graça desses tempos.
    Nem livros, nem jornais, nem gente,nem gargalhadas, nem bom café.

    Pior que isso: Está às MOSCAS!!!

  2. Pois eu, se fosse do Partido dos Verdes gostava de ser mosca. O bem que a mosca faz ao eco-sistema. E sem moscas como é que havia jornais, ah, Henrique?

    • Henrique Monteiro diz:

      Como rapaz nado em África, alguma predilecção pela mosca havia Vexa de ter. É compreensível… Quanto à associação do artrópode com os jornais não alcanço…

  3. olinda diz:

    não e nem eu – também porque passam muitos dias, na média dos vinte e cinco, a pousar na merda.

  4. nanovp diz:

    Como dizem os ingleses ” beware of your ambitions. You might achieve them !” definitivamente não quero ser mosca….

  5. Pouco interessantes sim, pero..peligrosas! Hã?

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