Stromboli

Na secura da cinza vulcânica, há um drama, uma procura. Quem procurava o desfecho imaginado encontra-se afinal, cara a cara com o seu próprio destino.

As imagens poderiam ser de um manifesto marxista, estandarte da luta de classes, glorificação do trabalho árduo, visão romântica de uma classe trabalhadora.

São retractos secos do sal do mar, onde nada é acessório, e só existe o essencial. A sobrevivência isolada do mundo. São traços de um humanismo profundo, encastrado no tempo, de uma vida que em si será mais rica que toda a ficção, agora filmada.

E como acontece no mundo real, onde vivemos, a história adensa-se no contraste de Karin (Ingrid Bergman), figura angélica mas sedutora, em contraponto à rudeza da paisagem e dos homens insulares.

A desilusão do paraíso que se torna inferno, mesmo inferno, no centro do vulcão que cospe lava negra transformada em terra dura, sem vida.

Stromboli que era ilha, transformada em pesadelo simbólico da fuga e emancipação de uma mulher. Karin é senhora do seu destino, é ela que o traça, é ela que o define, carregando no seu seio um filho que não terá pai; mesmo quando é obrigada a contornar o próprio vulcão.

Um contraste que seduz, que interpela. A figura destemida e erotizada de Karin, na secura e aridez da paisagem seca solidificada, contraste entre a terra firme de rocha e um mar que resfolega respeitosamente.

Também a coragem, de Karin, do povo da ilha, do mar e até do próprio vulcão.

E o cinema, a filmagem de rigor distanciado, livre, quase documental, como na sublime cena da pesca do atum, transformada em poesia visual a duas cores, o ecrã consumido em espuma branca. Ou na cena final, Karin, na sua “páscoa” libertadora entre o fumo branco, a rocha escura inclinada sobre o mar abstracto e silencioso. A música a esmagar a figura, que na tentativa de redenção vai subindo, escorrega, chora, e sobre a terra quente desespera deitada, face escondida pelos braços brancos onde contrasta a cinza escura colada.

É ali, nesse momento que Karin olha o céu negro picotado de estrelas cintilantes. O vulcão desaparece, a ilha que agora se silenciou como que por milagre. E o último bradar a Deus, “Dio, Dio mio, Dio misericordioso…”, o céu iluminado atravessado pelos corpos das gaivotas brancas.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

17 respostas a Stromboli

  1. Os contrastes apanhados. Belo filme. Belo texto.

    • nanovp diz:

      Caríssimo Ruy, a análise dos contrastes pode ajudar ao todo…Bom mesmo é o filme e a Bergman…e alguém precisa de explicação porque é que Rosselini deixou casamento para embarcar com a “deusa”?

  2. Carla Lopes diz:

    Foi com este filme que aprendi que atuns são prateados, mais bonitos do que os dos sonhos de criança, apesar da violência da cena.
    Concordo com você, é preciso coragem para ser vulcão.

  3. Bernardo, há quem diga que este filme é também o filme/metáfora do isolamento a que Ingrid Bergman foi votada em certos círculos depois do adultério a que Rossellini a levou. O filme impressiona mas ainda mais impressiona o vulcão, que eu tive a sorte, vai para um ano e meio, de ver em plena erupção, bem em cima da minha cabeça.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Rocha e cinzas. Bem contado, Bernardo.

  5. Este é o filme em que a câmara deixa de estar apaixonada por Ingrid para Ingrid começar a estar apaixonada pela câmara. Bem lembrado, Bernardo.

  6. Ivone Mendes da Silva diz:

    Que texto tão bom, Bernardo. Acabei de postar lá em cima umas conversas errantes e fiquei a pensar que há várias Itálias para cada um de nós. A sua também me agrada e muito.

  7. Maracujá diz:

    Quaisqueres palavras que possa escrever agora vão parecer ridículas quando comparadas com as suas, caro Bernardo e não querendo correr esse risco, aqui deixo apenas uma. Bello!

  8. Pasmo sempre com isto de nos maravilharmos com o horrível. Stromboli é das coisas mais opressivas que já vi.

  9. nanovp diz:

    Mais opressivo e claustrofobico do que horrível Eugenia. Para mim o que me parece muito forte é que a dureza da narrativa (casamento forçado para fugir à guerra) encontra o seu par na rudez da paisagem. E é a filmagem que consegue trazer um pouco de alento a tudo o resto.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    Na minha condição de viajante modesta, conheço Stromboli.Vou confessar um secreto gosto. Salvo na fita magnífica aqui lembrada, prefiro o lado «lunar» de Lanzarote. Saramago lá sabia.

Os comentários estão fechados.