Tempo nocturno, um poema pagão

 

O meu tempo é o das ruas e da chuva,
o dos silêncios escuros onde cai por vezes
a bênção tardia de uma noite que se demora
no gesto cansado de um deus antigo
ancorado a um cais onde já não há
rumores de império nem de ondas.

Pelo pomar de imagens
onde colho os meus poemas mais longos
rolam alguns versos sem destino.
Mordo-os como quem reza
e espero na volta da frase
um ritmo que seja conforme
à minha natureza de sibila magoada
e aos meus dedos frios como os caudais nocturnos
dos rios onde não há barqueiro nem remador
nem metáfora que lhes valha um lugar
que se reconheça.

O meu tempo é um Minotauro redivivo,
a vela negra esquecida no barco de Teseu,
um coro de fantasmas anacrónicos.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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8 respostas a Tempo nocturno, um poema pagão

  1. Muito bom. Gostei muito, também da inesperada alusão à cantiga de Meendinho.

    Um abraço

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Obrigada, Ana, pela sua leitura atenta. Sabe que eu gosto muito destes cruzamentos intertextuais. Se alguma coisa ambiciono para os meus textos é uma marca de intemporalidade, e é para isso e por isso que convoco os espíritos ancestrais, embora isso não me impeça, muitas vezes, de morrer fremosa no mar maior.

  2. Um bom fantasma deve ser anacrónico (quererá isto dizer que não tenho saudades do futuro?…)
    Gostei muito.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      E eu aqui toda contente por ter gostado. E sim, quanto mais anacrónicos melhores são e desses que gostamos …

  3. nanovp diz:

    Tanta sugestão, “morder como quem reza”…

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