Um morrer tranquilo

Retrato de Eleonora de Toledo com o seu filho João. Bronzino. (óleo sobre painel, 115x96  c. 1545) Galleria degli Uffizi. Florença

Retrato de Eleonora de Toledo com o seu filho João. Bronzino. (óleo sobre painel, 115×96 c. 1545) Galleria degli Uffizi. Florença

(Sei que já publiquei algures esta série que hoje inicio, mas não me lembro onde foi. Não interessa, republico-a aqui, dedicada ao nosso Pedro Bidarra, que gosta desta gente, destas histórias italianas com  sexo e hipotecas como diz Jorge de Sena no poema. )

Trazer para aqui a imagem de um quadro tirada da net é sempre uma tarefa complicada: as cores modificam-se, às vezes são mais vivas, outras mais mortiças. Talvez o fato do pequeno João seja roxo e o fundo de outro tom, mas o vestido da duquesa, esse parece conservar o esplendor saído dos teares florentinos, o veludo entrelaçado na seda branca do fundo, as romãs estilizadas que simbolizam a fertilidade e a abundância, o bordado a fio de ouro a fazer bouclé sobre as mangas e as jóias, o cinto em pedras preciosas, as pérolas na rede que contém os cabelos, as pérolas sobre o colo, os pingentes de perólas nas orelhas. Uma pose de corte para um retrato de estado. Na Wallace Collection, em Londres, está o outro quadro em que Bronzino pintou Eleonora com este vestido, de mãos cruzadas à frente e sem o filho. Quando exumaram o corpo dela no séc. XIX, uma idêntica rede de cabelo e um tecido semelhante fizeram crer que este tinha sido, também, o vestido com que a tinham sepultado. Mais tarde, os CSI da História vieram provar que era outro vestido, ainda que semelhante, e lá estão os restos na Galeria do Traje no Palazzo Pitti em Florença. Da mesma investigação resultou saber-se que Eleonora era de compleição frágil, que carecia de cálcio e que sua morte, como os Médicis sempre tinham sustentado, se devera a um surto de malária e não um obscuro drama familiar.

Quando Cosme I recebe o título de duque da Toscânia, sabe bem que a ancestralidade dos Médicis, feita de sexo e hipotecas como diz Jorge de Sena, nunca deixará que a velha nobreza europeia o reconheça como igual: ser muito rico e proteger as artes não é a mesma coisa que descender de Carlos Magno. Por isso, contrata com Pedro Álvares de Toledo, vice-rei de Nápoles, irmão do 3º duque de Alba e ajudante de campo de Carlos V,  o  casamento com uma das filhas, Leonor Álvares de Toledo. O nobre espanhol ainda franze um bocado o nariz, mas cede à riqueza e ao novo estatuto ducal de Cosme que,  por Leonor, fica aparentado com toda a grandeza de Espanha e com os Habsburgos ao mesmo tempo que estreita as relações com a pátria da mulher, permitindo que o controle espanhol sob a Toscânia abrande.

Em 1539, os florentinos recebem a jovem espanhola, a que desde logo chamam Eleonora, um pouco de pé atrás. Mas os vivos 17 anos da duquesa rapidamente granjeiam afeição e apreço. É nova, é bonita, é culta,  é piedosa e fértil. Engravida regularmente durante 18 anos e os onze filhos trazem ao palácio dos Médicis a estabilidade doméstica que Cosme tanto quer ostentar. Eleonora era bem-humorada, ria com as representações teatrais brejeiras feitas na corte, gostava de passear e de vestidos sumptuosos que disfarçavam a sua frágil silhueta e não dispensava os dez ourives que, em exclusivo para ela, fabricavam jóias e mais jóias. Cosme confia-lhe amíúde a regência da Toscânia, quando se ausenta, e Eleonora decide, apoia as políticas do marido, sorri aos embaixadores, governa.

No quadro de Bronzino, pintado por volta de 45, surge com um dos filhos. A tradição diz ser João, mas pode ser Francisco ou mesmo Garcia. O sumptuoso vestido enche o quadro, um vestido que é o quadro. A duquesa tem a pose das figuras femininas nos quadros de Bronzino, contidas e geométricas. No vestido toda a riqueza dos Médicis se desdobra em ouro e veludo e as jóias pousam sobre ele quase imperceptíveis, de tal modo é rico o tecido que as exibe. Riqueza, estabilidade, perpetuidade. Um retrato oficial. Não é a Eleonora jovial dos saraus da corte, mas a soberana consorte que exibe o poder e um herdeiro.

Dezassete anos mais tarde, a malária leva-a para o túmulo. Cosme volta a casar com Camila Martelli, depois de uma passagem de alguns anos pelos braços de Eleonora dos Albrizzi.

A estabilidade que Cosme sonhara para os filhos desvanece-se. O casamento de Francisco com Joana de Áustria e o longo romance com Branca Capello; o assassínio da linda Isabel pelo marido, Paulo dos Orsini; o desequilíbrio emocional de Pedro que estrangula, com uma trela de cão, Eleonora Garcia, a prima com quem casara, não eram, decerto, as aspirações de Cosme. Só Fernando conseguirá dar a Florença e à Toscânia alguma da tranquilidade a que o pai aspirara.

E Eleonora continua, serena e majestosa, no quadro de Bronzino e no poema de Jorge de Sena:

“ELEONORA DI TOLEDO, GRANDUCHESSA DI TOSCANA”,
DE BRONZINO

Ao Murilo Mendes

Pomposa e digna, oficialmente séria,
é geometria ideal de príncipes banqueiros,
sobrinhos, primos, tios de toda a Europa,
de reis, senhores de terras e armadores,
severamente equilibrados entre
o sexo, a devoção e as hipotecas.
O mundo é um imenso cais de intolerância austera,
a que aportam escravos, pimenta, a caridade
à sombra das colunas sem barbárie gótica.
Na boca firme, como no olhar duro,
ou o cabelo ferozmente preso
ou nas imensas pérolas que se multiplicam,
ou nos bordados do vestido que nem seios
se alteiam muito, há uma virtude fria,
uma ciência de não pecar na confissão e na alcova,
uma reserva de discreto encanto
em que a Razão de Estado era um passeio altivo
por entre as árvores de um jardim areado,
com áleas racionais e relva em secção aúrea.
Sem dúvida que os astros presidiram,
numa ciência de terra já redonda,
às próprias proporções que o quadro regem.
Palácios, festas, complicadas odes,
e procissões e cadafalsos e a
de um céu toscano limpidez que pousa no
pó e nas ruínas da imperial Toledo,
tudo isto se condensa em penetrante
tom de ocre vago, onde as cores se opõem
como teses tridentinas muito práticas
elaboradas com paciência para o descanso eterno
dos príncipes cristãos que se devoram sob
a paternal vigilância de uma Roma éterea,
guardada pelos suiços, por cardeias e frades.
A grã-duquesa – se o foi, não foi de quem é filha,
de quem foi mãe, ante um retrato assim
tão pouco importa! – fez-se pintar.
Mas a pintura era outra coisa, um escudo,
um escudo de armas e um broquel tauxiado,
para morrer tranquilo quando a angústia brota,
como um vómito de sangue, do singelo facto
de ter-se ou não ter alma, os mundos serem múltiplos,
e o Sol rodar ou não em torno à terra inteira,
iluminando as multidões, as raças, tudo,
e os príncipes e os súbditos, nessa harmonia do mundo,
cujo estridor silente ao madrugar se ouvia
ranger discretamente, às portas dos castelos.

Jorge de Sena
Lisboa, 6/6/1959

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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12 respostas a Um morrer tranquilo

  1. maria joão vasconcelos diz:

    gostei imenso….a partir dum belo retrato , a história de uma mulher desconhecida para mim e que me fez querer saber mais…..toda a história dos Médicis é apaixonante…..

  2. olinda diz:

    confesso: gosto muito, mas muito, mais do teu texto do que do poema.

  3. Panurgo diz:

    O Eco escolheu-a também como capa da sua História da Beleza. De resto, o Renascimento é coisa de mulheres; divirtam-se.

  4. Pedro Bidarra diz:

    Bravo, bravo, bravo

  5. nanovp diz:

    Deliciei-me a ler, Ivone, e ao poema também…

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