Um você ainda mais urgente

les derniers jours d'enfanceCecilia Beaux, Les Derniers Jours d’Enfance 

Pelo modo como as mulheres enchem a boca para dizer “você” é possível saber se estão apaixonadas. E o quanto. Tem algo desse tumulto – só que mais desesperado – na voz dos meninos:

Você, Você (Uma canção edipiana)

 

 Que roupa você veste, que anéis?

Por quem você se troca?

Que bicho feroz são seus cabelos,

Que à noite você solta?

De que é que você brinca?

Que horas você volta?

Seu beijo nos meus olhos, seus pés

Que o chão sequer não tocam,

A seda a roçar no quarto escuro

E a réstia sob a porta.

Onde é que você some?

Que horas você volta?

Quem é essa voz?

Que assombração

Seu corpo carrega?

Terá um capuz?

Será o ladrão?

Que horas você chega?

Me sopre novamente as canções

Com que você me engana.

Que blusa você, com o seu cheiro,

Deixou na minha cama?

Você quando não dorme,

Quem é que você chama?

Pra quem você tem olhos azuis

E com as manhãs remoça

E à noite, pra quem

Você é uma luz

Debaixo da porta?

No sonho de quem

Você vai e vem

Com os cabelos

Que você solta?

Que horas, me diga que horas, me diga

Que horas você volta?

[Letra de Chico Buarque (para um tema de Guinga)]

*

O modo como o amante da mãe é um monstro, Bicho-Papão que assombra a vida do menino, percorre toda a letra. Nesse estado de neurótica desconfiança, inquisição, ciúme, o menino não pode esquivar-se de estar mergulhado. Como esteve antes, no líquido amniótico. Ou de seguir perguntando. Compulsão. Antecipado interrogatório. E, pior, não há como competir. E há mesmo o ponto em que o autor não quis ser explícito, embora esteja lá: “quem é que você (ch)ama?” (“Eu ou o Lobo Mau?” bem podia ser a continuação da pergunta). E esse não tocar os pés no chão que está presente também nas impossibilidades de “Beatriz”. A dolência do ritmo, as dissonâncias, a intrincada harmonia (marca registrada de Guinga) emprestam a essa anti-canção de ninar a feição daqueles “clássicos discretos”, como “Valsa Brasileira” (com Edu Lobo), “Trocando em Miúdos” (com Francis Hime), “Todo Sentimento” (com Cristóvão Bastos), “Cadê Você” (com João Donato); e, dele próprio, “Basta um Dia” ou “Futuros Amantes”. O mais são rimas toantes (aprendidas com Cabral?) e destreza com palavras.

Para uma versão com a cantora Bruna Pintus, com acento europeu:

Para a interpretação (ao vivo) do próprio Chico Buarque, antecedida pela explicação sobre a obsessão do neto, Francisco, pela mãe/filha, (de onde se plasma, aliás, certo ciúme de pai):

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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7 respostas a Um você ainda mais urgente

  1. Carla L. diz:

    Gosto mesmo é do meu “Bem Querer” : http://youtu.be/c99YJmVL1zo

  2. Carla L. diz:

    Hoje percebi que também tinha saudades daqui…não ficarei mais tanto tempo sem vir…

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    Pois, olha, Carla, também como você estava com muita saudade daqui. E exagerei nos posts. Postei a granel hoje, do tanto que gosto de ser lido por minhas primas e demais tristes. Não é um privilégio?

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Qual o deus do Olimpo que concentra a perfeição em tãos poucos?

  5. nanovp diz:

    Boa onda, esta que ” você” traz para aqui….

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