Uma biblioteca de perdidos e achados

Debaixo do vulcao

juro não com­prar nem mais um

Só trago aqui este texto obscurantista por ser tudo verdade, verdadinha.

A Malcolm Lowry adoro-lhe a tur­bulên­cia, a tremideira alcoólica, o mescal e o “Debaixo do Vul­cão”. Um Vul­cão de que com­prei já 158 exemplares. Não con­fun­dam esta amarga pre­cisão com jac­tân­cia: juro não com­prar nem mais um. Mês a mês, comprava um livro e dois desa­pare­ciam. Quando chegava a Feira do Livro (em Maio há outra) pedia desconto nas ban­cas e trazia uma dúzia. Os “Vul­cões” entram-me em casa e desa­pare­cem de mansinho: evaporam-se, volatilizam-se. Parafrase­ando o epitá­fio: entram de noite, desa­pare­cem de dia. Seja o que for é uma coisa que lhes dá. Não tenho nem um.

Sou espírita — se vivesse no Brasil (mas a misericórdia divina não é sufi­cien­te­mente GRANDE) seria pai-de-santo. Não inter­essa, nem invo­cando o espírito argentino e labirín­tico de Borges con­segui achar as ruí­nas cir­cu­lares onde estes livros vão parar.

Indigno, recon­heço que o mescal é uma estranha forma de refu­tar a real­i­dade, mas nos meus momen­tos mais alu­ci­na­dos acred­ito que exista algures uma bib­lioteca de per­di­dos e acha­dos onde um dia, comovi­dos e frater­nos, eu e 158 “Vul­cões” nos reencontraremos.

malcolm_lowry

A Malcolm Lowry adoro-lhe a tur­bulên­cia

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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25 respostas a Uma biblioteca de perdidos e achados

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    Ora, mas esse local existe, Maneluccio. Chama-se Casa da Mãe Joana. Fica num país esquecido, à ponta do Ocidente. Lá o Manel bem poderá professar seu Pai-de-Santismo. E reencontrar com a fúria dos “vulcões” bajo una copa de mescal & las benediciones de San Jorge Luis Funes. Melhor, se em versão adaptada para cinema, com “sutaque” de Albert Finney. Mas, arre, sem contracenar com Bisset.

    • Carla L. diz:

      Estou aqui me divertindo com a figura de Manuelíssimo com turbante branco e charuto aceso no canto da boca.E sua guia é azul e branca…e Bisset combinaria bem com tal figura!

      • Ruy Vasconcelos diz:

        Tenho minhas dúvidas, Carla. Bisset poderia pensar que se trata do próprio “encosto”.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Como a Carla me compreende. Mas saiba que eu teria de lutar com o fantasma de EPC, um intelectual luso de que fui, antes da sua morte, o último editor. Era conhecida a sua pancada pela femme douce que ela era.

        • Ora, então foste editor de Edward Prairie Rabbit? Gostava de alguns de seus textos. E o que ele fazia longe deles, era muito provavelmente problema dele.

          • Manuel S. Fonseca diz:

            Um album enorme intitulado “Nacional e Transmissível”. Tenho boas lembranças…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ah Ruy, já devia saber que ninguém é pai e santo ao mesmo tempo na sua própria terra. Nunca explorei o que, de minha avó e minha mãe (uma certa relação com o, digamos, está sobre o natural…
      Mas acho que a Bisset talvez a coisa funcionasse.

  2. Carla L. diz:

    Por certo estão logo atrás daquela porta que esconde-se entre a estante e a poltrona. Porta esta que muitas vezes te traz para o Brasil.Se eu encontrar algum exemplar perdido por aqui mando imediatamente voltar pelo mesmo caminho que veio.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Carla, se encontrar, guarde. Não mande, pelas alminhas, que podemos provocar algum desacerto no karma já tão desatinado que o planeta leva.

  3. Panurgo diz:

    A mim são as viagens de gulliver que me fogem. Mas 158 edições? Isso é coisa à Eco.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      À Eco, Anturgo? (Quer dizer, Panurgo). Parece que está mais para Alzheimer, não?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Panurgo, as Viagens de Gulliver não admira. Liliputizam-se, é o que é. Agora, um Vulcão?

      • Panurgo diz:

        De um vulcão alcoólico é de esperar tudo. Nunca compreendi o livro, de qualquer das maneiras. Talvez deva ser lido como foi escrito: depois de abrir a porta do canil e correr atrás da cadela.

        (veja lá é se faz um inventário dos alfarrabistas que visita.)

  4. Tolkien. Não lhe sei dizer quantos senhores dos anéis perdi – perdi, não se evaporaram: uma carrinha de caixa aberta atascada de joalheiros…

    Tenho uma teoria: os livros perdidos, ou evaporados, são livros com vontade própria: não querem viver avec nous. Ó cruéis – tau tau nessas páginas, ai!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Não querem? Acha mesmo Eugénia! Já li o Vulcão 3 vezes. De princípio a fim e em poucos dias de cada vez. E um livro destes não quer viver comigo? Ó minha amiga…

  5. Henrique Monteiro diz:

    “Here lies Malcolm Lowry, late of the Bowery,
    whose prose was flowery, and often glowery.
    He lived nightly, and drank daily,
    and died playing the ukulele”
    Além do epitáfio, tenho um exemplar de sobra (que não trouxe de casa do Manuel).

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Pelo meu lado, perdi Kunderas, alguns do Eco, mais ainda do Ballester. Fugiram de mim, só pode! E logo eu que sempre os tratei bem… Não esqueço a divertida do Kundera que retive na moleskine mais pequena e trago na mala de mão: “As mulheres não preferem os homens bonitos, mas sim os homens que tiveram as mulheres bonitas.” Falácia em grande, mas que me fez rir.

  7. Verdade, meu Bravo Fonseca, quando um homem, ja na escadaria da Terceira Idade, desanda a obcecar pela sexualidade dos outros, algo na Dinamarca da alma nao anda cheirando propriamente a pino silvestre.

  8. nanovp diz:

    Manuel juro que não tirei nenhum da estante!! Mas que há um quarto escuro em cada casa, onde se encontram todos os livros perdidos isso não tenho duvidas…

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Bernardo, diz-me a Agatha Christie que tu não te livras de alguma suspeita.

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