Uma declaração literária

 

Já nos tinham fodido a carteira, o presente e o futuro. Vá que não vá, que se lixe. Não foi só um, é verdade. E que nenhum deles tenha culpa nenhuma, por tanta ser também a nossa culpa, vá que não vá, que se lixe outra vez e para sempre. Mas que nos fodam o léxico!? Ó meu Deus, não deixes que vão ao cu à semântica. Narrativa, o substantivo feminino narrativa, que o latim nos entregou, de boca e pergaminho, não pode ser cuspido, gaguejado e praguejado com venalidade serpentária. A palavra é boa demais para se reduzir à ilustração da patifaria e da megalomania.
Foi degolada. Vai fazer-nos tanta falta.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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23 respostas a Uma declaração literária

  1. Degolada e esquartejada – como uma maldição.
    Tempos ermos, estes.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      O que vale é que agora temos dois Papas. Um tipo vai a Roma e é bestial, vê a coisa em 3D.

  2. jcpessoa1 diz:

    Ainda ontem, me fartei de ouvir a palavra “narrativa” e, nunca esperei, que fosse o narrador a pronunciar a palavra…
    Fiquei lixado!

  3. Ó se vai. Está morta. Enterre-se.

  4. Panurgo diz:

    Você é um saloio. Não sabe que está na moda em Paris de França? Como um certo Engenheiro-Filósofo português dizia há uns anos, à exaustão: «mundividência». E calha bem, era a propósito de idas ao cu com aliança no dedo, ou lá o que era.

  5. soliplass diz:

    Bendito post. Do melhor que li sobre o assunto.

    Não lhe ocorre que se poderia dizer das narrativas deste o mesmo que o comentário johnsoniano sobre as cartas de Lord Chesterfield (classificadas à época como soando a « philosophe in pimp’s chothes») ? “They teach the morals of a whore and the manners of a dancing master”?

  6. Bruto da Silva diz:

    Ficou plasmado!
    E vernacularizado, em excesso, a retirar razão: pode ser simples história que se conta…

  7. N diz:

    a narrativa está morta. pena que o narrador não esteja preso.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Não deve ir preso porque não tem culpa. Aliás nenhum tem culpa nenhuma. Andamos há 30 anos nisto e, com excepção do Guterres, nenhum acenou com culpa nenhuma. Prenda-se o Guterres.

  8. olinda diz:

    pouco me interessaram as palavras: fixei-me na narrativa dos olhares e das vozes e das posturas. e quem não viu o que eu vi, que foi um homem a querer justiça pela consciência do povo, não vê nada – antes anda com duas palas como os burros que são obrigados a puxar carroça.e adorei a repetição da palavra narrativa, sim, talvez agora o povo a fixe, e lhe saiba o significado, para depois, então, lhe encontrar o sabor.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Já dizia um poeta que havia em Portugal o hábito de se tomar por grande uma data de gente indigna. É um direito que lhe assiste também Olinda. Um direito que, como também dizia o outro, lhe reconhecemos e que devemos defender mesmo que seja preciso defendâ-lo com a própria vida. Reconheça em troca, Olinda, que temos o direito de olhar a “narrativa” com os nossos probres olhos em vez dos seus encantados.
      ps – já tenho as palas em casa há muito tempo. Guardei-as da escola primária.

      • olinda diz:

        reconheço com certeza, Manuel: há espaço para todos – até para a narrativa que, desencantada por pobres olhos, sobrevive: aguarda que a olhem de frente, como se fosse – e é – gente, e em verdade, enfim, dançar. 🙂

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    «Olha pra mim» que gostei tanto!

  10. Bruto da Silva diz:

    Porque nem o saloio nem o berçado terão (ainda) encontrado o fundamento da ‘narrativa’ em causa, aqui vai uma ‘douta’ pista:

    PROGRAMME DOCTORAL EN SCIENCE POLITIQUE (PDSPO)

    Quantitative Narrative Analysis or QNA is a methodological approach to texts that allows researchers to structure the information contained in narrative texts in ways that make possible a statistical analysis of the information. The approach exploits the invariant linguistic structural properties of narrative (namely, the chronological sequential order of narrative clauses and their simple linguistic structure SVO, or Subject-Verb-Object. In narrative, Subjects are typically social actors, Verbs are social actions, and Objects are either social actors or physical objects. Each SVO element can also have attributes, namely, the characteristics of both Subject and Object, such as the name, organization, or type of actor, and the circumstances of action, such as time and space, or reason and outcome. The SVO and their attributes provide an invariant structure of narrative also known as “story grammar,” roughly corresponding to the 5 W’s and H of journalism (Who, What, When, Where, Why, and How).

  11. nanovp diz:

    Ficamos à espera da “ressurreição” da narrativa, não quero acreditar que tenha sido de vez enterrada…

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