Valsa Triste

"Notas de Amor", de Sarah Polley

“Notas de Amor”, de Sarah Polley

Desde já um dos melodramas do ano, “Notas de Amor” (“Take This Waltz”, no original) é uma canção de melancolia sobre um dos supremos enigmas: como manter a chama do casamento? A actriz canadiana Sarah Polley regressa à realização com o retrato expressionista de um jovem casal, Margot (Michelle Williams) e Lou (Seth Rogen) durante um Verão transformador nos arredores de Toronto. Lou é um cozinheiro autodidata especializado em pratos de frango. Margot é uma aspirante a romancista que ganha a vida redigindo guias turísticos. Numa dessas encomendas, em Louisbourg, Nova Escócia, Margot conhece Daniel (Luke Kirby), um desenhador que conduz um riquexó e é demasiado cobarde para revelar publicamente os seus trabalhos. Descobrem a coincidência de ser vizinhos, e a empatia é instantânea, como se a intimidade não precisasse da repetição para evoluir. Margot ama o marido, vive a sorrir com ele há cinco anos, mas há uma ausência de pulsão física e uma tristeza impronunciável que atormentam Margot como a luz fugidia do ocaso. A doença de “Away From Her” (a primeira obra de Polley) era a Alzheimer, a doença de “Take This Waltz” é a rotina, esse invisível inimigo da vida a dois. A realizadora afasta o filme do mesmo cansaço que perscruta graças a um amor minucioso pelas personagens, e esse amor ganha correspondência na extraordinária Michelle Williams: ela compõe Margot com as frágeis mudanças do olhar, as tonalidades da pele, os pequenos gestos que a suspendem entre um jeito infantil e uma carência erótica muito superiores ao retrato de Marilyn Monroe que quase a levou ao Óscar. Apesar de algumas facilidades formais – o sonho junto ao farol, o longo travelling circular que sublinha a entrega a Daniel – “Take This Waltz” retrata a nudez física e emocional com uma sensibilidade pouco comum, ao som de Leonard Cohen e do “Video Killed the Radio Star” dos Buggles. A relembrar que o tempo banaliza tudo, até o amor.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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6 respostas a Valsa Triste

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Desatei a correr e só páro no cinema se ainda apanhar algum aberto. Thanks man.

  2. Diogo Leote diz:

    Com o Blue Valentine, a Michelle (com a grande ajuda do Ryan Gosling, é certo) recuperou o meu gosto pelas falsas comédias românticas. Por isso e por este teu esclarecedor texto (obrigado), não vou perdê-la uma vez mais.

  3. A menina Michelle é definitivamente especial. Se não fosse à manifestação hoje, ia com vocês repetir a valsa.

  4. Pedro, estou convencida de que isso do tempo banalizar o amor é uma grandecíssima mentira em que acreditamos, em vez de acreditarmos que o maior aliado do amor é o tempo.

  5. curioso (des amours) diz:

    ou o amor pode ser tão forte como o tempo, ou ainda mais forte com memória…

    então, com o recente Óscar “Amour”, em que ficamos? des maya dos 😉

  6. nanovp diz:

    A rotina,quer só assusta nas relações e no amor, é não querer deixar passar o tempo.

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