Viagens, lavandeiras, salinas

Praia das Barreiras - Camocim 1987

Praia das Barreiras, Camocim

No inverno de 1987, mais estival que o verão europeu, tudo passou-se em Camocim. Muita música, praia, férias ansiosamente da faculdade. Os amigos certos. Uma musa. Voltando a Fortaleza, compus uma canção que buscou refletir essa atmosfera rara.

A canção veio a chamar-se “Antes de lhe telefonar”. Foi gravada no álbum Cidadela, do guitarrista Pádua Pires, em 2002. Pádua, aliás, esteve por lá e viveu um tanto daquela atmosfera gentil. Talvez Pádua não seja o melhor crooner de plantão. Mas comoveu-me que “Antes de lhe telefonar” tenha sido a única canção recolhida num disco instrumental, com o selo do músico versátil que os amigos sabem que ele é.

O chegadinho, a que se faz referência na letra, é um confeito vendido pelas ruas de Fortaleza por alguém que segue anunciando-se pelas batidas de um triângulo. É mais fino e oblongo que um sequilho. Um biscoito fino, um pouco quebradiço. Ou ao menos tão fino quanto as células rítmicas que saem dos dedos dos vendedores anônimos, a percorrer a cidade, e recheá-la de vivacidade e síncopas. A foto de um vendedor de chegadinho foi parar, por sinal, na capa do CD de Pádua.  

Mudam-se os tempos. E visto a partir de outros vidros, esse foi um dos invernos de nosso contentamento. 

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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17 respostas a Viagens, lavandeiras, salinas

  1. Carla L. diz:

    Da beleza do Ceará já ouvi falar, mas que lindas que são estas águas do Camocim. Curioso é o significado da palavra tupi guarani.Num país tão grande muita coisa nos escapa.Vocês me lembraram os músicos do Clube da Esquina. Bom de ouvir.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Na mosca, Carla. Ouvíamos muito Clube da Esquina e Pat Metheny (que, aliás colaboraram) à altura que escrevi esse arranjo.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Ia jurar que tive Verões assim. Olha só que bom.

  3. CC diz:

    Que lindeza!
    ~CC~

  4. Mário diz:

    Fica chateado se eu meter o “Here I Go Again On My Own” dos Whitesnake? É que o Ceará é longe, e o Seagull e a sua varanda sobre o mar era já aqui…

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    Qual nada. Fico lisonjeado. Aprecio o Whitesnake. Mas eles são profissionalíssimos e uma outra onda. Nós compositores bissextos, músicos amadores.

    Agora, veja, o Ceará não é assim tão longe. É a terra mais perto de Lisboa desde o Brasil. Fortaleza é cerca de 1/3 em horas de vôo mais perto que o Rio ou São Paulo. Há essa bossa.

    • Mário diz:

      Você é muito boa onda Ruy. Fui ver o mapa, confirmo. Conheço o Recife (e as praias partilhadas com os tubarões), Ipojuca em dia de pagamento de pensão (renda?), Olinda à chuva, Porto (claro)…confiei, misturei-me e fui muitíssimo bem tratado. Grande País.

      • Ruy Vasconcelos diz:

        Pensão mesmo. Hahaha, Ipojuca. Meu pai, que escapou de ordenar-se franciscano, estudou num mosteiro ainda do tempo da colônia, em Ipojuca. Conheço pouca gente mais pró-Portugal que meu pai. Ele dizia: “aqueles portugueses sabiam onde construir as coisas. Sempre no alto, contemplando a paisagem”.
        Adoro Olinda, muito boas recordações de Carnaval por lá. E Porto (como não?). E só não posso falar mais de Recife, porque iam me matar aqui em Fortaleza. A rivalidade é como Porto/Lisboa.

  6. Mário diz:

    Voltando ao post e à música. Nos meus 18 anos (podiam ser 19 ou 20, é por aí) tinha (e tenho, felizmente) um amigo que levava sempre uma guitarra para a praia. A guitarra estava visivelmente mal tratada (no aspecto e no talento) e cheia de autocolantes alusivos ao surf. Ele só sabia 2 ou 3 acordes, começava a dedilhar o início das músicas e parava logo de seguida. Nunca chegou a saber tocar, mas era óptimo para atrair meninas, ai se era. Era um grande “marqueteiro”.
    PS: ele também tinha uma prancha de windsurf, com o qual fazia o mesmo. Montava a prancha, levava-a para a praia e ali ficava, deitada. Dizia que o vento não estava de feição. Ao contrário da guitarra, 20 anos depois aprendeu mesmo a velejar. Pode encontrá-lo no Verão em Sagres, é o que tem a prancha mais bonita.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Um sábio amigo.

      Mas aqui, neste e no post acima, também buscou-se alguma mixagem de temas recentes: Stromboli, derrières, certa simpatia do mundo e alguma sanidade de navegação.

  7. nanovp diz:

    Não sabia que havia invernos assim! O “chegadinho” só podia ser brasileiro !!!

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Tanto acontece no reino das emoções “Antes de lhe telefonar”…

  9. Ruy Vasconcelos diz:

    E se acontece.

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