Vilas e Vidas, Passadas a Limpo e a Tempos


Em 1991, ainda como estudante, escrevi uma pequena monografia chamada O Verbo Contra o Vento: As Vilas Volantes. Era para ser só um modelo de pesquisa de campo para o Departamento de Sociologia. Mas por alguma razão ganhou terreno mais vasto. De fato, acabou convertendo-se em minha dissertação de mestrado: registro de vilas pesqueiras que mudavam de lugar pela ação do deslocamento de imensas dunas e/ou da mudança de fluxo das marés na remota costa noroeste do Ceará.

A comovente precariedade dessas vilas era, a seu tempo, compensada por um lastro de memória e nostalgia avassalador por parte de seus habitantes. Especialmente os mais velhos. Uma astúcia de pôr na memória o que não mais era pedra ou cal. De pôr tudo à prova pela solidez da lembrança. Outros tempos, outros lugares, às vezes próximos, rentes, mas sempre remotos. Especiosamente próximos quando evocados. As artimanhas da pesca, do artesanato, da sobevivência, a densa memória dos ritos, num mover-se entre o deserto e o mar, naquele espaço em que a precariedade material compensava-se por uma robusta capacidade de narrar o passado, convocavam . Excediam.

Anos depois, em 2004, Alexandre Veras, cineasta com conceituados trabalhos nas áreas de videodança e videoarte, propôs-me uma transposição um tanto arriscada para documentário. Achei um bocado satisfatórios o convite e a forma: um documentário plano-sequência, cheio de tempos mortos, roçando ficção. Foi excepcionalmente fotografado por Ivo Lopes Araújo: nosso “Joris Ivo” de plantão. Era um álibi: ver a coisa transposta para outro meio, mas sem uma intervenção excessivamente tutelada, “autoral”, defesa de tese – ainda que eu tenha chegado a colaborar com a pesquisa e a edição do filme. O filme, não obstante a segura direção de Veras, foi um esforço coletivo, no melhor sentido do termo.

Para um documentário – média-metragem, em vídeo, feito para ser exibido nas TV’s educativas dos estados brasileiros – seguiu bastante bem recebido. Logo os críticos de São Paulo e do Rio aproximaram-no de um cinema artesanal, que vinha sendo gestado sobretudo em Belo Horizonte, Minas Gerais, em torno do Grupo Teia, com quem aliás, à época não tínhamos qualquer contacto. Mas a analogia guarda algum sentido. O filme chegou mesmo, depois de longo circuito paralelo, a ser exibido no Festival de Cinema Brasileiro, em Nova York , entre outras mostras de relevo.

Mas, o melhor ainda estava por vir, anos depois, uma jovem banda em início de carreira, a Breculê, compôs seu primeiro álbum, Vidas Volantes, tomando como mote alguns assuntos do filme, sua atmosfera geral. Uma terceira dentição do impulso original? (E mais não são por essas mutações que alguma tentativa de arte abrevia-se na longa vida? Impossível dizer. Tudo é tradução).

 (Todas as imagens acima foram recombinadas para o clipe dos Breculê a partir de sequências originais do documentário As Vilas Volantes (2005), e editadas por Philipi Bandeira, ele próprio um realizador e documentarista. Topar com esse clipe na rede – duplamente na rede¹ – uma agradável surpresa).

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¹ Ah, sim, a Rita bem que há de decifrar melhor que os outros tristes o sentido dessa dupla rede!

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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4 respostas a Vilas e Vidas, Passadas a Limpo e a Tempos

  1. cc diz:

    Lindo o texto, linda a música…comovente o modo de falar dessa gente.
    ~CC~

  2. nanovp diz:

    Que grande história , como semente que desabrocha e se vai transformando, e que extraordinárias imagens…

  3. Vilas, aldeias nómadas é um conceito quase utópico. Deve ter sido uma grande tese.

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