A leitura ignorante

mrozeck

Gostaríamos tanto dos livros de que às vezes gostamos se não soubéssemos quem eram os seus autores? Ou de uma canção, de uma pintura? Sem a assinatura, sem o contexto, só nós, os nossos olhos, frase a frase, parágrafos vencidos, páginas viradas, ter-nos-íamos rendido da mesma maneira à “Montanha Mágica”, teríamos preferido “As Pupilas do Senhor Reitor” a “Os Maias”?

Vem tudo a propósito deste livrinho que li em 1971, em Luanda. Chegou assim, capa escuríssima, o número 2 de uma nova e belíssima colecção, “Livro – B”, páginas azuis claras. Nem prefácio, nem nota biográfica do autor, nem badanas – um livro assim, nu, sem cuequinhas ou sutiã. O livro chamava-se e chama-se “O Elefante” e reunia uma série de contos hilariantes, todos escritos na cama da sátira política, mas que iam, desavergonhadamente, entregar-se, logo a seguir, aos braços do absurdo. Nonsense, um inconformismo três vezes nonsense.

Lembro-me de ter delirado a ler contos como “O Aniversário” em que um casal de boa sociedade, em vez de um canário ou uma arara, tem na sala, numa gaiola, um progressista vivo, que canta canções revolucionárias, ou “O Elefante” que conta a visita de uma turma de miúdos a um Zoo que preenchera a falta de elefantes com um de borracha que enchera de gás – um sopro de vento levanta-o no ar, desmentindo o que o professor acabara de classificar com o maior e mais pesado animal do mundo, episódio que atira essas crianças para o cepticismo: “… começaram a negligenciar os estudos e tornaram-se vagabundas. Conta-se que se embebedavam e partiam vidros. E nunca mais acreditaram em elefantes.

“ O Elefante” era, dizia a capa, da autoria, e vinha em minúsculas, de mrozeck. E nem mais um nome, uma inicial ou um ponto de exclamação. Voltei no sábado, na magnífica “Pó dos Livros”, a comprar um exemplar igualzinho ao que terá ficado a educar as massas angolanas no tempo do falecido Imortal. E estou, francamente, com medo de ler. Estes olhos que já namoram o glaucoma, a minha vil e perversa degenerescência retiniana, ainda se deixarão levar pela prometedora falsa modéstia de frases como “Uma tarde, ao olhar, pela janela, vi um funeral a passar na rua. Caixão simples, sobre carreta puxada por um só cavalo”?

Seja como for, fui descobrir, a acreditar na pesquisa da web, que este ressuscitado mrozeck, tem o nome mal grafado na capa. É Mrożek de apelido e Slawomir de nome cristão. Polaco, fugiu da ditadura comunista e vive em França desde os anos 60, tendo feito sucesso em toda a Europa como dramaturgo.

Leio que escreveu “O Elefante” ainda na Polónia e que o livro é uma paródia desabrida da vida quotidiana. Em “ O Elefante”, pessoas e instituições dão um generoso contributo a páginas de humor, nonsense.  É essa a exactíssima ideia que tenho do livro. Mas resistirá, o que a minha abençoada ignorância me deu a ganhar, à leitura culta de quem agora sabe quem é o autor e qual o contexto?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a A leitura ignorante

  1. Luciana diz:

    “Gos­ta­ría­mos tanto dos livros de que às vezes gos­ta­mos se não sou­bés­se­mos quem eram os seus auto­res?” Li uma porção de livros que foram (e permanecem) queridos quando não sabia quem eram os autores. Não que lhes desconhecesse o nome, essa ignorância tão absoluta não tive o prazer, mas os nomes me diziam muito pouco – ou mesmo nada.

    Comento essa irrelevância particular enquanto penso que, se em alguns casos saber mais e mais sobre o autor proporcionou mais e mais sabor aos seus ditos (ler a biografia “O Anjo Pornográfico”, por exemplo) em outros deu-me a pavorosa tentação de “psicologizar” as obras e/ou buscar sentidos prévios, o que mesmo quase sempre mantendo em um suspenso “quase” (espero) não deixa de amesquinhar a leitura.

    Em relação aos tristes encontros, acho que gosto mais agora que quase escuto o que leio.

    ps. fazia tempo que não comentava, estava com saudades de estar, com vocês, triste.

  2. É verdade, nós mudamos e os livros é que se fazem outros. Enfim, o que interessa é que desconheço tudo do autor: fica para o futuro.

    • Não sei, Eugénia, se com uma Antiguidade tão grande para ler, o Mrożek ainda tem algum futuro. Foi apenas uma daquelas derivas juvenis de um tempo em que buscávamos noutros lugares a insolência que não conseguíamos em Portugal ter com os costumes e as instituições. Hoje, quais costumes ou instituições, quem é que quereria ter na sala, metido numa gaiola um canoro progressista?

  3. Pedro Bidarra diz:

    Li quase todos os livros dessa colecção. E como os li quase todos de seguida, e era muito novo, a mixórdia de estilos ficou para sempre na minha cabeça como um estílo literário ele próprio.
    Já quanto a voltar a um sítio onde se foi feliz, não sei…

    • PoIs é Pedro, e havia um sobre o assassínio como uma das belas artes, um clássico. Já agora, até a infelicidade de voltar a um sítio onde fomos felizes nos faz ainda mais felizes.

  4. Tu que és especialista em aves canoras dos ecrãs, de quem é a voz, da Bacall ou do Andy Williams? (às vezes esquece-se que o cinema é apenas um truque, e então na era digital, um bom editor faz interpretações que ganham Óscares, tenha o realizador feito um número de takes suficiente, sendo possível editar frame a frame, o melhor amigo do ator é o editor).

    • Tanto quanto sei, ela cantou. Mas pergunta ao David Thomson que é autoridade na matéria. Ainda chegaram a pensar dobrá-la, mas depois decidiram que a miúda aguentava o barco.

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