A Virgem, a legítima, a portuguesa

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Altar da Senhora da Lapa, em cima das fragas que a abrigaram 500 anos

 

Em 982 o general mouro Almançor atacou o convento de Sísimo, na localidade de Quintela, atual concelho de Sernancelhe. As religiosas em fuga esconderam a imagem mais preciosa que tinham – uma Nossa Senhora de mãos postas, pousada nas nuvens e coroada pelo Espírito Santo. Colocaram-na entre duas grandes lapas que constituem uma gruta natural e durante 500 anos ali esteve a imagem, arredada do mundo e dos homens, até que em 1498 uma pastora a encontrou e a levou para casa, devotando-lhe especiais cuidados.

Já disse que a pastora era muda? Não disse? Era muda, digo agora. A sua mãe, zangada pelos cuidados extremos que a filha dava à boneca, em vez de cuidar das preciosas ovelhas, atirou um dia a imagem para o fogo da cozinha. Foi quando se deu o milagre. Nesse momento, a pastora gritou: “Mãe, que fizeste? É Nossa Senhora”.

A imagem não ardeu e a mãe ficou paralisada por momentos, até à pequena ter pedido a Nossa Senhora que a libertasse. A menina, sem se queimar retirou depois, intacta, a imagem do fogo.

O povo, alertado por tais sucessos, quis colocar a imagem em na sua igreja, em Quintela. Mas todas as noites ela desaparecia e surgia entre as fragas, onde as freiras em fuga a tinham deixado há 500 anos. Perante tal teimosia da Virgem, compreendeu o povo que tinha de fazer uma igreja por cima das ditas pedras – essa igreja é o Santuário da Lapa, que existe desde 1498.

O nome de Senhora da Lapa que hoje existe por todo o mundo (nomeadamente no Brasil) deriva desta. Foi a maior peregrinação de Portugal (e a segunda da Península, depois de Santiago) até ser usurpada por Fátima, que em vez da história da pastora muda, colocou três pastorinhos a olhar para uma azinheira e o Sol a bailar.  Um milagre mais espetacular, com mais efeitos especiais, mas menos profundo e significativo. Na Lapa está a legitimidade do catolicismo em Portugal, contra o Almançor mouro (não há cá segredos, muito menos sobre a Rússia), a pureza de uma criança e o milagre da imediata cura da mudez da pastorinha, que ainda dá mostras de ser mais misericordiosa do que a Virgem, quando pede pela mãe.

Além do mais, a Lapa é construção de Jesuítas e de lá partiram vários para os quatro cantos do mundo – ou não coincidisse a criação do Santuário com a data da descoberta do caminho marítimo para a Índia.

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Homem esgueira-se entre as lapas da Lapa. Sem pecados, com fé

Mas, acima de tudo, a Lapa tem um método infalível de separar os pecadores daqueles que são puros de alma. Duas fragas, tão juntas que não deixariam passar o Estica, quanto mais o Bucha, ficam da parte de trás do altar. Ao chegar lá, ninguém que não seja criança pensa caber em tal esgueira. É aí que entra a fé. Com fé passamos, mesmo eu com a minha barriguinha, assim como autênticos Obelix. Já outros, magros como cães, com medo de ir parar ao Inferno – como diz a lenda – voltam para trás, a assobiar baixinho.

A minha recomendação é a seguinte: se querem acreditar num milagre de Nossa Senhora, por favor acreditam no da Lapa.

É mais puro.

É mais bonito.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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14 respostas a A Virgem, a legítima, a portuguesa

  1. Fernando Carmo Tavares diz:

    Lindo, muito lindo mesmo, Henrique Monteiro. Aliás, já a fotografia que ontem publicou, mostrando o aspecto exterior do Santuário da Lapa, era excepcional. E isto, para quem está longe, mas nasceu e cresceu calcorreando esses penedos agrestes e essas jóias da natureza que o povo foi moldando, com o seu esforço, não deixa de ser uma bênção.

  2. Isabel Maria diz:

    Que história surpreendente!
    Depois da leitura, fica a vontade de visitar o local.
    Parabéns!

    • Henrique Monteiro diz:

      Visite que não paga nada. E os restaurantes são muito baratos. E há hotéis decentes nas redondezas quase de borla… E o espumante de Moimenta (Terras do Demo) não sendo o Don Pérignon tem muita classe, sobretudo o rosé e o branco malvasia, e custa um niquinho.

  3. Rosa Maria Corvêlo de Sousa diz:

    Lido em voz alta, a gargalhada dos presentes foi unânime. Obrigado por este seu texto e continuação de boas férias. RM

    • Henrique Monteiro diz:

      Cuidado que o riso é obra demoníaca. Em indo à Lapa vão para o inferno :). Mais a sério, se a gente não se rir, ninguém ri por nós. Obrigado

  4. celeste martins diz:

    O imaginário português está povoado de deliciosas e ingénuas narrações que comovem!!! É um belo refugio para combater o “stress””. Obrigada pela escrita com que nos presenteia!!!!

  5. Maria Mourinha diz:

    Gostei muito do que li e fiquei com imensa vontade de poder visitar.Fá-lo-ei logo que me seja possivel

  6. nanovp diz:

    Grande historia Henrique, que me leva a pensar: Nada como ser magro e crente, (só sou o segundo que a barriguinha existe mesmo.)

    • Henrique Monteiro diz:

      Disso tudo sou só crente. Mas continuo a passar, ainda sábado passado lá passei, puro como uma pomba, imaculado como um lençol acabado de pôr na cama… Ai eu…

  7. Pedro Norton diz:

    o henrique não vai acreditar. É um cético. Mas passei entre essas pedras meia dúzia de vezes. Não sendo crente só me resta ser magro.

    • Henrique Monteiro diz:

      Não basta ser crente, apenas é necessário não ter pecados, o que no seu caso é mais difícil ainda 🙂

  8. Inês VP diz:

    Só o Henrique para me fazer iniciar nos comentários no EéT!
    Ri a bom rir! E confirmo: PN passou repetidas vezes entre as pedras da Lapa ( mas já foi há muitos anos…)

    • Henrique Monteiro diz:

      É uma honra ser o responsável pela iniciação comentarista de IVP. E ainda bem que precisa que PN passou lá há muitos anos. Agora a coisa fia mais fino, que já contei umas historias àquelas pedras…

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