A voluptas, o editor e o leitor

livro de horas

a história do livro é a história da relação entre o texto e as imagens

Desde a Antiguidade que a “voluptas” se cola como uma lapa à leitura. A “voluptas” do olhar foi utilizada pelos “editores” em toda a sua extensão para que o leitor pudesse ter uma dose dupla de lascívia: lendo o texto e vendo imagens. Curiosamente, a história do livro também foi, em parte, a história da relação entre o texto e as imagens; a história do livro não seria o que é sem os maravilhosos livros de horas, sem os riquíssimos trabalhos dos iluminadores, sem o incrível talento de desenhadores e gravadores. Ou seja, o “coffee-table book” é uma invenção clássica que a Idade Média pacientemente redefiniu.

Fiz uma preguiçosa pesquisa e tentei descobrir os best-sellers do século XV, quando a invenção guttenberguiana fez do livro o que, basicamente, ele continua a ser hoje. Num tempo de incunábulos, o livro que mais se editou foi a Bíblia. Só da Vulgata Latina fizeram-se 133 edições. Tomás de Aquino era, ao que consta, o Dan Brown da altura. Com a vantagem do Vaticano, que se saiba, nunca o ter obrigado a declarar que era ficção a teia que ele armava com os seus fios de cuspo metafísicos e a sua brilhante baba teológica. Também se publicaram clássicos: Cícero, Ovídio, Horácio. Mas a obra de ficção mais lida foi a novela “História de Dois Amantes” do Papa Pio II (que julgo ter por título “Eurialo e Lucrécia” e que deve ser a única narrativa erótica escrita por um Papa).

pio II

a única novela erótica escrita por um Papa

Os livros de auto-ajuda também não se portavam mal: os livrinhos de medicina de Galeno e de Avicena vendiam-se como pãezinhos. Na literatura um pouco mais light, um fólio de grande sucesso foi a Carta de Cristóvão Colombo sobre as ilhas recém-descobertas, impresso em Barcelona no ano de 1493: alcançou 12 edições em 12 meses, antecipando o sucesso que os meus amigos da Gradiva tiveram com o “Codex” do José Rodrigues dos Santos.

Eu não sei se estes meus números de vendas são muito fidedignos. Sei apenas que a filosofia não mudou muito: os editores no século XV publicavam afinal aquilo que os leitores queriam ler.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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10 respostas a A voluptas, o editor e o leitor

  1. Pedro Norton diz:

    Mestre, vai ver que com jeitinho ainda convence o Francisco a escrever mais uma novela erótica.

  2. bst diz:

    tudo lido, fica-se a saber que não faz a mais pequena ideia de quem foi S. Tomás de Aquino!

  3. Já li, já reli e já me ri! Os bonecos, estes bonecos que fizeram o coffee table book da idade média, isto foi bem caçado, Manuel Fonseca, são fundamentais: agora continuam a fazer o sucesso do livro em cada vez que um é adaptado ao cinema.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Dos meus livros com bonecos, “iluminuras”, vá lá, o que a minha Três Sinais publicou com texto de Agustina e a pintura da Paula Rego, “Meninas” chamada é o, de longe, mais bonito. Devia ter sido “adaptado” ao cinema.

  4. nanovp diz:

    Pelos vistos nada de novo no horizonte da história, que por si só tem riqueza que chegue para nos ir entretendo.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Tal qual, ou abrem falência se lucros são objetivos imediatos.

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