Adolfo Caminha e a Respiração dos Imigrantes

Fortaleza em 1893

Aspecto da Rua Major Facundo, em Fortaleza, 1893, ano da publicação de A Normalista, de Adolfo Caminha

 

De momento, Adolfo Caminha é apenas a dor de cabeça de muitos secundaristas brasileiros forçados a ler seus dois romances que sobreviveram – A Normalista (1893) e Bom-Crioulo (1895) – para os exames vestibulares. E também conviver com uma sintaxe e um vocabulário que já não soam tão usuais.

Caminha é mais que isso, no entanto. Compartimentalizado entre os naturalistas, com todas as reduções e prejuízos que isso implica, há em seus livros suficiente vida para serem lidos ao largo de se pensar em escolas, movimentos. E, em especial, pelo que agregam da história social do Brasil de fins do séc. XIX. E de um esboço de Brasil urbano – e, à época, ainda bastante afetado por Portugal. Esboço tênue, incipiente, que segue sendo protagonizado sobretudo pela figura de um pária: o imigrante. Como contemporâneo do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, não é nada natural – mas certamente naturalista – que se esqueçam de Caminha por ofuscamento. Ou que, ao menos, Caminha não seja posto no devido lugar, para alguém que antes de contar trinta anos, escreveu romances sobre homossexualidade e incesto quando a resposta da sociedade a tais temas era um pesado silêncio.

Porém, se há algo de ainda mais moderno em Adolfo Caminha, até mais que assuntar incesto ou homoerotismo numa época de silêncio vitoriano, é uma espécie de natural cuidado ao tratar da questão do imigrante. Ele próprio um migrante, do Ceará para o Rio, e então, de volta ao Ceará – e depois errante um pouco por toda parte na Marinha de Guerra – Caminha não se exime de demonstrar uma sorte de cuidado com suas personagens peregrinos e trânsfugas. Como se boa parte da respiração do mundo não se desse sem o arranco transformador, desestabilizador que só imigrantes portam.

Praticamente todos as principais personagens de Adolfo Caminha são imigrantes e de baixa extração social. E, assim, ele tece uma etnografia de um Brasil urbano, de muito dinamismo, mas em que o peso do rural segue a ser demasiado.

Em A Normalista, Maria do Carmo, embora more em Fortaleza, é filha de rancheiros das margens do Jaguaribe. Chegou à cidade com seis anos, na esteira da grande estiagem de 1877. Amaro, o Bom-Crioulo, um escravo fugido e que até achava os primeiros tempos da duríssima vida na Marinha de Guerra, pontilhada por castigos físicos, como um mar-de-rosas se comparados à extenuante faina na fazenda, da qual ele se lembra apenas fugazmente, muito em raro, sem nenhuma saudade. Aleixo vem das aldeias de pescadores, de extração açoriana, fixados em torno da Baía de Florianópolis (então, Desterro). Carolina, a senhoria que alcovita o caso dos marinheiros num cortiço carioca, e depois tornar-se-á amante de um deles, é uma imigrante portuguesa que também fora prostituta quando mais jovem. E o próprio quartinho no sobrado usado pelos amantes gays, em Bom-Crioulo, fora previamente ocupado por um jovem português recém-chegado, que morrera de febre amarela. O cubículo ainda tresandava a ácido fênico. Como a aproximar, uma vez mais, sexo e morte.

Zuza, o pretendente de Maria do Carmo, em A Normalista, parece a exceção. Era amigo do governador da província (à altura do império chamava-se presidente da província) e bacharel. Mas seu pai, vinha da truculenta cepa dos coronéis do Nordeste – e, portanto, tinha um pé no Interior, no rural. E ainda que o próprio Zuza tenha estudado Direito no Recife, frequentado o Prado, os teatros, tenha tido uma amante argentina, de vestidos parisienses com quem viveu um idílio num chalezinho acolhedor, na Madalena; sua figura apenas denuncia a tênue casca cosmopolita revestindo séculos de arcaísmos, arbitrariedades, violências, caprichos, fronteira, volubilidades, mandos despóticos e isolamento, que lhe foram legados como um bastão. A ele, já nascido na cidade.

Sim, há mais realismo e crueza em Caminha que, por exemplo, em Jorj’Amado, que veio depois dele. Mas isso parece passar batido aos olhos de boa parte da crítica, interessada em esquemas e diagramas antes que em letra viva. Crítica quase sempre mais naturalista, aliás, que o próprio Caminha. E, se este, por exemplo, faz Maria do Carmo ler o Crime do Padre Amaro e esconder seu exemplar no banheiro, isso não só registra a amplitude da ressonância de Eça de Queiroz no Brasil àquela altura, mas também certa ânsia feminina por ideias novas, menos opressivas, chegando como lufada de ar até mesmo a uma normalista da funda província, perdida em seus devaneios e alheamentos juvenis.

Em A Normalista há, aliás, uma contradição interessante, que torna uma das personagens ainda menos unidimensional: o fato mesmo de João da Mata, que mais adiante irá deflorar a própria afilhada, ser um simpatizante do positivismo, das ideias modernas e francesas. Um entusiasta da ciência, anticlerical e leigo. Então, o romance não é nada maniqueísta, como costumam ser algumas personagens do naturalismo, ou dessa fase de poesia simbolista ou parnasiana, um tanto revomitada do francês. Ou de previsíveis romancezinhos predeterministas, positivistas, pseudo-científicos, decalcados de Zola. Ou então, francamente insípidos, feito A Fome, de Rodolfo Teófilo. Quantos autores politicamente corretos – e com justificada razão – não serão lidos dessa forma esquemática e sensabor no futuro? Não constituirão os naturalistas do futuro esses autores e o zelo um pouco patético com que defendem suas causas?

As personagens de Caminha, contraditórios, verossímeis, menos previsíveis, guardam uma rica vida interior. E, evidente, também carregada de sordidez. Parecem tramar coisas más quase o tempo inteiro, ao ruminar em torno de seus pequenos desejos egoístas ou limitadíssimos pela estreiteza da vida na faixa social reservada a eles num instante em que à classe-média urbana cabia um papel um bocado mesquinho na vida do país. Ao contrário de hoje. Mas isso, no entanto, não é algo determinista ou isolado. Se dá em contíguo com alegrias, pequenas conquistas e contentamentos, na vida como no amor. E isso destoa de naturalismo.

E mesmo em Caminha, rotulado de misantropo e seco, há humor. Um humor menos ostensivo que o temperamento geral brasileiro. E, por isso mesmo, mais abrasivo e pleno de sugestões. Embora ele seja direto e explícito quando o momento pede. Exemplo? O instante em que a senhoria portuguesa e Aleixo fazem sexo à borda do tanque, no quintal do pequeno sobrado em Bom-Crioulo.

A cena é hilária, extremamente visual, deslavadamente cômica. Mais que uma notação de roteiro, surge como o próprio filme em edição final e irrevisável. E com o cenário bem à vista. Ou, antes disso, quando ela – que na juventude tivera a sugestiva alcunha de Carola Bunda – praticamente deflora o jovem grumete com um calor de meio-dia em Teresina:

Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote…

Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar. E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.

[…]

E com fingida ternura, ameigando a voz:

-Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra…”

Há em Caminha um perseguir a felicidade que não é gratuito. Ele próprio, em vida, assemelha-se a essas personagens. Ao caminho delas por um mundo violento e cheio de cardos. À busca dessas personagens, vagabundas, um pouco por nostalgia, um pouco por não ter nada a perder. E, assim, no atacado, o que dizem ser sombrio é, na verdade, apenas mais realista em Adolfo Caminha. Ocorre que, por temperamento, ele não suaviza nada. E, de outro modo, só fala daquilo que conhece, de facto, com uso e vezo de uma experiência voraz e apaixonada. Caminha, à certa altura da breve vida, apaixonou-se pela esposa de um alferes. Foi correspondido. Passaram a viver juntos. Um escândalo na pequena Fortaleza do final do séc. XIX. Logo teve de renunciar a seu cargo de oficial da Marinha. E partir em definitivo para o Rio, onde passara parte dos anos de formação e estudos na Escola Naval. Tiveram duas filhas.

Quando escreve sobre homossexualismo na Marinha, em Bom-Crioulo, escreve sobre um fenômeno que sabia da existência por ter andado embarcado, e conhecido meio mundo. E inclusive compilado, em uma obra menos estudada, algumas vívidas impressões dos Estados Unidos (No País dos Ianques, 1894).

Sua opção em tocar num assunto absolutamente tabu fez cair uma cortina de silêncio sobre Bom-Crioulo, onde, entre outras, há a insinuação de que alguns oficiais graduados da Marinha eram homossexuais e mantinham casos com subordinados, a quem retribuíam com favores, quando embarcados.

Não é pouca ousadia. Muitos daqueles críticos acadêmicos, bacharéis, um pouco empoeirados pelo vezo da classificação em escolas e a rigidez dos gêneros literários, encaram essa opção temática como parte daquele apego à anomalia, ao defectivo, ao monstruoso, peculiar ao espírito naturalista. Outra impressão se tem quando se lê o livro e constata a naturalidade com que o caso entre os dois grumetes é narrado, descontada obviamente alguma observação de asco por força de época. Se essas observações ocorrem, são de todo infrequentes, no entanto. Pode-se mesmo dizer que talvez em nenhuma outra parte do planeta àquela altura falava-se de homossexualidade com a naturalidade – e não o naturalismo – presente em Bom-Crioulo:

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.

Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.

Nunca vira dois homens gostarem-se tanto!

Mas há também o instante n’A Normalista em que João da Mata, roído de ciúmes, especula na cama se o Zuza passou ou não um bilhete à Maria do Carmo – a jovem afilhada por quem ele nutria um desejo reprimido. A mensagem de fato passara por baixo da mesa do jogo de víspora. E a mulher, depois de ouvir por largo trecho arenga e especulação, tasca um:

Homem, trate das suas hemorroidas que é melhor…

Ora, sabe que mais? Você é outra!

E deram-se as costas fazendo ranger a cama.

Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova.

Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite.

A leitura de A Normalista e Bom-Crioulo, antes que um rito vazio, de Vestibular, devia constituir o reconhecimento e a celebração de um autor de invulgares consciência, ousadia e talento para o momento e idade em que escreveu. Adolfo Caminha vale tanto pela observação mordaz da esposa quanto pelo ranger da cama ao gesto de repelência do casal para a noite. Ou pelo ronco e o silêncio dilatando-se na calada da madrugada. Ele é mesmo essa lamparina de azeite acesa sobre a face menos luminosa de nossa cultura urbana. Um caldo de cultura, aliás, assaltado pelo medo. Ou que vive de janelas atrás de grades, ainda longe da propalada pós-história. A vida dura, no improviso dos cortiços, depois propagada no tamanho e na miséria das favelas e zonas de anomia, onde uma espécie de seleção não natural decretou que a lei do mais forte é ainda mais forte.

 

 

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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9 respostas a Adolfo Caminha e a Respiração dos Imigrantes

  1. Pedro Bidarra diz:

    Nunca li o Caminha. Vou por no monte de livros a ler. Obrigado.

  2. nanovp diz:

    É um levantar do véu que deixa uma vontade enorme de o ler. E diz bem, quando fala como tantos autores foram “rotulados” de “ismos” sem que realmente fossem valorizados por aquilo que faziam bem: a sua escrita.

  3. Nunca li O Bom Crioulo. Mas ainda vou em tempo. A Normalista, sim, com gosto e adolescência. Desconheço muito Caminha.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    Grato pelas leituras e impressões, Pedro, Bernardo e Henrique.

    Eugénia, gosto mais de A Normalista. Como romance, é melhor estruturado. E me agrada a ideia de que Caminha tenha leitores em Portugal. Bom-Crioulo obviamente, pela temática até, tem feito algum sucesso recentemente. Mas parece ter mais o jeitão de uma novela, ao modo do Morte em Veneza, de Mann, que propriamente de um romance. Obviamente ambos são livros não muito extensos, modestos, pois de algum modo escritos por alguém muito jovem.

    Cheers!

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Ruy, mas que grande “Está escrito”. Muito bom. E essa portuguesa que Vexa foi desencantar a Caminha é de um ardor que tanto faz de um grumete homem, como de um homem grumete.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Danke schön, Herr Doktor. Às vezes a gente tenta se aproximar da excelência (e fluência) de seus textos sobre cinema.

      Em vão, desnecessário dizer.

  6. Rita V diz:

    Não conhecia,. Boa primo!

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