Amor e Uma Cabana

"Esquecido", de Joseph Kosinski

“Esquecido”, de Joseph Kosinski

A Terra foi devastada por uma guerra com uma raça alienígena. Os humanos venceram o confronto, mas do planeta pouco restou. Jack (Tom Cruise, o cientologista com rosto de 30 anos e idade biológica de 50) é uma espécie de Prometeu high-tech. Assegura o funcionamento das turbinas que drenam o que sobra da energia hidráulica do globo, monitorizando os robots que vigiam o território, sabotados por uns poucos salteadores extraterrestres. Nesta vigília, Jack recebe a dupla assistência de Victoria (Andrea Riseborough) : vivem como colegas e amantes num posto aéreo, embora Jack tenha sonhos recorrentes com Julia (Olga Kurylenko) no topo do Empire State Building. Entretanto, os sobreviventes do confronto foram evacuados para Titã, uma das luas de Saturno. Há apenas um problema: nada disto é verdade. Nem os humanos venceram a guerra, nem Jack e Victoria são quem julgam ser, nem os salteadores que ficaram para trás são alienígenas.

Dizer mais seria estragar o (eventual) prazer do espectador face a uma história razoavelmente inventiva de ficção científica que começou por ser o esboço de uma novela gráfica. Joseph Kosinski, responsável por “Tron: O Legado” em 2010, mostra um indiscutível sentido plástico, com imagens fortes e adequadas à melancolia “sci-fi” (Victoria banhando-se na piscina suspensa nos céus, os desfiladeiros ocres do que foi Manhattan). A chatice está no tom da história: há um romantismo serôdio que parece excitar Kosinski, como o amor e uma cabana para Jack e Julia ao som de “Whiter Shade of Pale” dos Procol Harum (acreditem, é mesmo assim). Surgem referências atiradas para o ar, como o célebre quadro de Andrew Wyeth, “Christina’s World” ou o poema épico “Horatius” de Thomas Babbington Macaulay. Kosinski tem talento visual, mas a prosa do cinema não é com ele e as suas réplicas amorosas dão vontade de rir. Pode ser que não acabe a filmar palermices para meninas de 12 anos, como aconteceu ao outrora prometedor Andrew Nicoll (“Truman Show”, “Gattaca”).

Publicado na revista “Sábado”

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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7 respostas a Amor e Uma Cabana

  1. Lininhacbo diz:

    Bem,… não é bem amor e uma cabana… Basta olhar para toda aquela tecnologia… comece pela piscina…

  2. Olinda diz:

    mas eu queria mais. ó.

  3. riVta diz:

    Indecisa entre o Skyfall e o Esquecido optei pelos efeitos do primeiro. Fraquinho, mas nunca resisito a um bom 007.
    Não consigo trazer-te nenhuma cena em especial. Talvez o Bardem.
    Ah! O ‘Dench Factor’ tem piada. Parece que tiveram mais queixas do palavreado que ela usa do que da violência do filme.

  4. nanovp diz:

    Pois ainda não sei se me convenço a mim próprio…a descrição é que já valeu…

  5. Em miúda, e já crescida, tinha vício de SF – ainda adoro, só deixei de ler porque não chega para tudo. Mas estou sempre à espera de um filme daqueles à Blade Runner.

  6. Aquela piscina é fresca, Lininha. O pior é quando chegamos ao momento José Cid no meio da devastação…eu gostei muito do “Skyfall”, Rita. Foi-te um bocado indiferente? É capaz de não valer a pena a deslocação, Bernardo. Um filme à Blade Runner é mais difícil do que encontrar um político deserto, Eugénia. E já lá vão 30 anos.

  7. Queria dizer “um político sensato”. Como a sensatez parece perdida algures no deserto de Gobi, dei um passo maior do que a perna.

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