ART ME UP – x

ART ME UP
ANA VIDIGAL – vi – SÃO PAULO 2013 – LE JOUR EN FEU: la mer allée avec le soleil
LE JOUR EN FEU DE ANA VIDIGAL

A SP-Arte 2013, Feira Internacional de Arte de São Paulo, decorre de 4 a 7 de Abril e conta com a participação de galerias de diferentes países do mundo. A Galeria Baginski e os trabalhos de Ana Vidigal estão presentes.

Estes trabalhos são três pinturas, técnica mista sobre telas grandes de nos encher o olho, a mais pequena de um metro e trinta por um metro e trinta, a maior de um metro e noventa por um metro e oitenta; e um desenho, técnica mista sobre papel, de menores dimensões – 81x60x10. Em todos o material de eleição da pintora: a recolecção perfeitamente organizada de revistas e gravuras, dos lavores femininos à banda desenhada, para, através da desconstrução das mesmas, e da sua reconstrução numa lógica pessoalíssima, nos dizer do dia de hoje com a informação de ontem. É mais ampla a visão que, assim, no presente actualiza o passado, não para o reviver, mas para lembrar de onde viemos, quem somos e quem podemos ser. E Ana Vidigal fá-lo recorrendo ao corta e cola, camada sobre camada, uma técnica de atenção laboriosa no atelier que formiga no contínuo da própria casa que habita.

Fotografia de Jorge Catarino - montagem do stand na SP- Arte 2013

Fotografia de Jorge Catarino – montagem do stand na SP- Arte 2013

Mas estes trabalhos de Ana Vidigal pedem, por uma vez, outro modo para os contar que não o discursivo. São celebratórios num tempo em que o céu é de chumbo porque nos devolvem o gasoso volátil, tão leve, do amor. Inebriam. Envolvem-nos o pensamento num ritmo e raciocínio líricos. Estamos apaixonados.

Se Ana Vidigal fosse poeta e estes trabalhos, pintura e desenho, fossem poemas, diríamos: estamos diante de velhos vocábulos e com eles se inventa a frescura da frase. Antigos, conhecidos, usados, familiares como o roupão, as pantufas e as olheiras matinais, e utilitários como a neurose do relógio e as próteses telemóvel, óculos, pc, estamos diante de velhos vocábulos, e todos como se nunca antes: é o amor. O amor é sempre como se nunca antes. Mesmo quando foi papel outrora como agora, cola ontem como hoje. Porque o papel e a cola são os velhos vocábulos da pintura de Ana Vidigal. Porque a frescura da frase está na harmonia da selecção que fez deles folha a folha desta e daquela revistas, na cirurgia do corte, na espessura da linha, na palavra que irrompe aqui e ali se esconde, na cola que junta e recria a opacidade e a transparência. O amor, o velho amor, em cada vez que se lembra de amar, é sempre ao primeiro amor, é sempre a primeira vez.

É assim que, agora pelo avesso, quem nos acha é o Brasil: acabadinhos de nascer do entretecido da nossa própria história pessoal, resguardados no nosso primeiro canto por um biombo de verniz translúcido.

BEIJOCA, técnica mista sobre tela, 130x130cm

Ana Vidigal, 2013, BEIJOCA, técnica mista sobre tela, 130 x 130cm

Disse nos acha, disse. A nós. Porque é natural a apropriação da arte. A arte é nossa. O artista é nosso. Somos nós ali na pintura de Ana Vidigal: em Fevereiro, o mês mais curto, ao som miudinho do xequerê, cabaça oca envolta em contas, no passo dançado que o Berimbau marca, ai, suspiramos um Suspirinho, azul porque sobe ao céu, malandro numa Beijoca, chuac, junto com o nosso ai. Ai tão bom!

Ana Vidigal, 2013, SUSPIRINHO, técnica mista sobre tela, 146 x 114

Ana Vidigal, 2013, SUSPIRINHO, técnica mista sobre tela, 146 x 114

Que pintura é esta onde da velha história Ana Vidigal faz como se nunca antes, faz outra vez a primeira vez? Como?

Tira a tira. Fio a fio. Houve, há, uma relação íntima entre a pintura e a tapeçaria. A primeira era passada para cartões que custavam fortunas, coisa para bolsas reais, e depois, fio a fio, em minúcias repetitivas, obsessivas no tac-tac de teares de mil horas, crescia até da pintura se fazer um corpo maleável, pesado e tangível.

Fotografia de Ana Vidigal, 2012, atelier

Fotografia de Ana Vidigal, 2013, atelier

Há uma tecedeira aqui: coincide com a pintora tanto quanto a pintura coincide com a tapeçaria: mil fios para nascer. Hoje como se nunca antes. É o amor. Corre luminoso por entre os dedos, tac tac, uma tira de cada vez, mil, cola vezes mil, é o amor. Nascemos.

Ana Vidigal, 2013, FEVEREIRO, o mês mais curto (xequerê), técnica mista sobre papel, 190 x 180

Ana Vidigal, 2013, FEVEREIRO, o mês mais curto (xequerê), técnica mista sobre tela, 190 x 180

Assistimos ao nosso próprio nascimento quando nos vemos no olhar de quem nos ama, e feitos dessa matéria vamos à vida como somos: amor. Somos os mesmos mas somos outros: as nossas virtudes florescem das páginas desfeitas e refeitas. Na linha do x-acto todas as cores em botão se abrem, e as nossas falhas coladas redimem-se pela aceitação: porque nos recebem inteiros, bem e mal, inteira bebemos a vida, néctar e veneno para um elixir de paixão, borbulhante tal champagne, e somos mais, somos melhores, gostamo-nos mais, fazemos melhor. E isto tudo sendo os mesmos vocábulos de sempre.

Abre-se aqui um aparente parêntesis a propósito desta associação livre de dois objectos de valor lançados para dentro de dois objectos de valor. Os dois objectos de valor são dois corpos que transcendem a própria individualidade para ser comunidade. E os outros dois objectos de valor neles lançados são os traços colectivos da identidade e dela na arte. Colocados um diante do outro como espelhos de nós, social e individualmente. É um pensamento denso, este que me ocorreu, mas tenha paciência, explico-o.

O rei foi a encarnação do povo – o rei, o tal lá de cima, o de bolsa cheia para fazer da pintura tapeçaria.

Ele foi a encarnação do povo como o trabalho do artista é, para além de tudo o resto, a continuação e a exploração dos traços comuns da nossa identidade e de como eles criam a nossa história e a interpelam.

Estes traços que nos constituem, e esta dinâmica, estão lá depositados porque os depositamos? Ou porque foi o artista, no caso a pintora que os levou para dentro de si e os lançou na tela? A carne é mística quando é o nós levantado do eu, isto é, quando o objecto artístico nos representa, re-presenta, nos faz presentes – não é diferente do que acontece na comunhão católica, bem vê… o que se comunga, partilha, é o corpo místico de Cristo, são, portanto, as propriedades cristãs que se repartem entre a igreja.

Talvez também por isto, por estarmos de alguma forma presentes, projectivamente presentes, sejam tão extremadas as relações afectivas com os artistas e os seus trabalhos e, por vezes, uma montanha russa. Isto é mais explícito com as estrelas de cinema: passam de amadas a escória num fôlego. Quando não nos revemos, pior quando vemos algo que estranhamos, um anti-corpo, sentimo-nos traídos. Porém somos traídos com a mesma verdade que um bebé quando a mãe o deixa para beber um copo de água e ele se pensa abandonado. Ó raça! a desta nossa carne de desejo uno com o que amamos, a despeito da separação que usamos para ser e sobreviver e ser sobrevividos.

Fecha-se aqui o parêntesis que de facto não se fez.

Fotografia de Jorge Catarino, Baginsky- Ana Vidigal, SP- Arte 2013

Fotografia de Jorge Catarino, Baginsky- Ana Vidigal, SP- Arte 2013

Ana Vidigal trouxe o amor a São Paulo. Que amor?

Amor há só um. Porém, quando é taça cheia, derrama-se sobre a vida, céu, luz, café, a música no ouvido, o beijo do amante, o riso, o livro, uma linha de voo e um verso, derrama-se sobre a vida que a cada dia mais é um dia a menos. É sôfrego o amor que anda assim a contar as batidas do coração, e é contido pelas paredes do tempo – ou do eu temporal, mais exactamente.

Ana Vidigal, 2013, BERIMBAU III, técnica mista sobre papel, 81 x 60 x 10

Ana Vidigal, 2013, BERIMBAU III, técnica mista sobre papel, 81 x 60 x 10

O contínuo do trabalho de Ana Vidigal, a ininterrupção desse trabalho, a contenção com que se delimita e não se contamina nas suas três vertentes, a pintura, o desenho, o trabalho paralelo, são amantes da vida e conscientes do tempo. E quanto mais conscientes do tempo, mais amantes da vida realimentando o motor do trabalho.

O tempo externo é o sino que convoca ao entusiasmo das horas todas até ao inevitável silêncio da voz, ou à quietude eterna da mão. Morremos.

Ana Vidigal pinta e desenha desta forma. Qual? Na ciência do relógio, a olhar o tempo nos olhos. Aqui visível como jamais esse entusiasmo que se auto-sustenta. Entusiasmo, palavra que, etimologicamente, nos coloca en theos, em Deus, portanto, no equilíbrio entre a possessão pela pintura e na possessão da pintura.

Não há arte fora do entusiasmo, é ele quem dá a disciplina da repetição que ela exige, é ele que oferece a resistência à frustração quando a mão não consegue realizar a visão que a cabeça guarda e ficando aquém insiste em ser além, ir além. Vai.

É o entusiasmo que religa a arte à criação original, porque é o entusiasmo que faz do filho o pai; da criatura o criador; e do objecto artístico o memorial da criação. Mil horas. Dia após dia numa rotina onde coabitam o artesão e o artista.

É o entusiasmo, rosto criativo do amor, quem leva o artista ao trabalho e lhe dá o fio para atravessar o labirinto até à saída para outro começo.

E o rosto criativo do amor é a face que temos exposta, hoje, em São Paulo. Não, espelho meu, hoje não há quem seja mais bela do que eu.

*Le jour en feu, do poema L´ETERNITÉ, de Arthur Rimbaud

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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14 respostas a ART ME UP – x

  1. Gosto tanto! Muito obrigada Eugénia! E fazendo minhas as suas palavras: lai lai lai ,que mais posso eu dizer…

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Que bonita defesa da arte da Ana pela menina Eugénia! Aquele “Suspirinho” só me dá vontade de suspirar por tê-lo…

    • E suspirar pode, no caso, ser sinónimo de surripiar sem culpa nem remorso. Depois, plasma-se o Suspiro no meio da parede, abre-se uma linda late harvest, serve-se, e fica-se estendido no sofá a olhar e a suspirar…

  3. Rita V diz:

    maravilhosoooooooo!!!!!! Parabéns…às duas!

  4. Eu ando mal dos meus olhos – agruras da idade. Aqui, neste post, vi bem e vi duas vezes. Vejo, vocabular, a pintura da pintora e vejo, corrido fio a fio, o olhar da escritora.

    ps- é pouco vulgar (a não se que um tipo se chama Robert Hughes) num texto sobre arte ler-se uma prosa que seja clara, discursiva, mas também metafórica e celebratória. Excelente.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Encheu as medidas neste meu acordar. Felicito a Eugénia e a Ana Vidigal.

  6. Uau, que texto bom. A Ana deve estar muito prosa. E não é para menos.

  7. nanovp diz:

    O seu texto, como a arte em si e a artista retratada, é um mundo de sugestões aberto e lúcido, mas mais do que isso, necessário.

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