Cassandra crossing

A mântica, desde as epopeias homéricas ao De divinatione de Cícero, é um corredor estreito entre os deuses e os homens, por onde só passariam aqueles para os quais o porvir fosse tão visível como o instante presente e os que, nas formas de uma qualquer realidade e no percurso de uma ave pelo céu, intuíssem como seria o dia seguinte.

Os deuses acediam, por vezes, a premiar os homens que se tinham feito heróis com uma viagem de ida e volta ao mundo dos mortos. O pio Eneias, por exemplo, o mais triste dos heróis mediterrânicos, lá encontrará o pai, Anquises, cujos conselhos ouve mas não acata, e a sombra silenciosa de Dido. A possibilidade de atravessar essa ponte entre o mundo do que são e o mundo onde dos que foram,  quando concedida, era uma recompensa. Atravessar a ponte entre o mundo do que é e o mundo do que será é dádiva de uma outra natureza, um capricho dos deuses que dão a um mortal a ilusão de ser um deles. E essa ilusão é fardo bem difícil de carregar: lembremo-nos de Cassandra, de quem Sophia disse sentir-se  Perdida sem saber se caminhava/ Entre os deuses ou entre a humanidade, e que ouvia as vozes dos deuses como se estivesse entre eles e todo o tempo lhe era tempo presente, desacreditada por Apolo a ponto de nenhum dos príncipes troianos acautelar a iminente desgraça que ela predizia e, por força da qual, ela própria acabaria por sucumbir, lá longe no palácio dos Atridas.

Os deuses são ciosos do futuro como de uma work in progress infindavelmente retocável e nunca dada como pronta. Se algum relance permitem desse tear oculto, convém ter cuidado, dizem os mitos.

Mais vale desconhecer dia seguinte, quer ele seja acre quer seja doce, prudentes horacianos, a colher o presente.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Cassandra crossing

  1. Rita V diz:

    …é uma metáfora?
    ah ah ah

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    🙂 Claro que é uma metáfora, Rita. Ainda por cima uma metáfora armada aos cucos …

  3. Vendo como impiedoso o futuro se apresenta, diria, Ivone, que não piará no futuro o pio Eneias.

  4. Ivone Mendes da Silva diz:

    Não piará nada, Manuel, mesmo nada.

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