Envelhecer na Espera

O sol do mundo adormece-me a cabeça, e imagino pradarias de terra dourada, desconhecidas por entre penhascos de pedra lisa. Do vale vermelho revelam-se agora copas redondas de árvores verdes, com um sabor a pinho por entre rajadas.

A vida sempre foi um caminho, que se esquece na memória dorida de um amor de luz.

E na varanda aberta, sobre o universo dos outros, escolho olhar a tua face, branca, delineada pelos raios de sol cortante, senhora do tempo.

Nada como na distracção da urbe, onde pedaços de corpos se esvaem no ar, trémulos gestos de quem não sabe onde está, de quem não quer saber para onde vai. Durante anos percorri esses antros, onde deusas esbeltas esconderam a luz.

No prado enorme de tapete verde, senti saudades do cheiro do pão, agarrei-me a ti, que voavas sem saber, para uma terra de sol, esse sol do mundo que me lembra os sinos da igreja da vila, sobre um manto de granito, numa felicidade de pedra, fria, para ficar.

As mãos escavam por entre a terra húmida, nas aldrabas das portas que se calam para sempre.

Agora tudo muda porque a terra ficou sem dono, como uma manada de vacas perdida, que se afunda no leito traiçoeiro do rio que corre. Nada que existe começa ou acaba, tudo resulta de um gesto de amor.

A poeira fina na cantaria de pedra, lembra as lágrimas que enchem os mares, nas molduras quadradas da sala vazia, os rostos abstractos dos homens sem nome,

E lembro o teu corpo de mel, liso. Sem fios era a manta com que aquecias as pernas, na sombra estreita de uma luz que se esgueira pela ranhura da porta. A felicidade escondida numa cave sombria, onde teias translúcidas revelam sentido.

Leva-me por entre estradas verdejantes, onde civilizações escondem inseguranças de medo, para a casa grande branca, refúgio de almas, a ouvir a chuva, em gotas, sobre a chapa cinzenta inclinada. Os ramos fulgurantes de folhas, no campo das invejas perdidas. Tudo estava ali, e era possível a carícia.

Foi o tempo da espera, que durou toda uma vida.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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20 respostas a Envelhecer na Espera

  1. olinda diz:

    mas que doçura.

  2. olinda diz:

    de frustração.

  3. nanovp diz:

    Acha que sim? Gostava que não fosse de frustação…há algo de bom na espera quando o que se espera vale a pena…

    • olinda diz:

      e como saber que vale a pena quando viver a esperar é mais esperar do que viver e só se sabe depois de a vida passar – ainda por cima o tempo, esse cabrão que não espera e só vive, tem a capacidade de mudar tudo inclusivé o que se espera?
      só vive quem ou o que se faz esperar: quem espera, espera viver. é lindo, é doce, é terno, é amor. mas é uma tragédia.

  4. CC diz:

    Eu acho os seus textos muito bonitos e este é mais um deles, valia mesmo a pena dedicar-se a este ofício.
    ~CC~

  5. Bernardo, os teus textos têm casas e paisagens que eu gostava de encontrar. Entram luzes, há ranhuras, surgem vales vermelhos como o rio de Hwaks. Grandes textos para viver.

    • nanovp diz:

      Manuel, provavelmente só existem nesta minha cabeça! Mas não deixam de ser reais… E se lembra Hawks então ainda melhor!!!

  6. Maracujá diz:

    Caro Bernardo, você é um encantador de histórias. Sabe dolorosamente bem esperar por mais um pouco de si, tendo o prazer de o quase sentir nas palavras que desenha.

  7. Ivone Mendes da Silva diz:

    Ali o Manuel está cheio de razão. Eu, que sempre achei que a organização do espaço urbano era a primeira marca de civilização e que me perco de amores por casas e vãos, farto-me de gostar destes seus textos irisados de janelas altas.

  8. nanovp diz:

    E devia ser assim, o espaço urbano organizado é a base de tudo, incluindo a razão das janelas altas…

  9. Há encanto nestes mundos que traz, Bernardo.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    Ternura para quem lê.

  11. que querido…é só o que me apetece dizer!

  12. nanovp diz:

    Pode dizer sempre Rita…mas só se lhe apetecer…

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