Escrito na Antártica (parte 2)

Giudecca

Will Bardo era poeta. Era-o no falar, na maneira como contava as histórias, no ritmo e na rima com que a sua narrativa se desenrolava e no pathos grave e reverberante com que proferia parágrafos inteiros. Tivesse sabido e teria levado um gravador para gravar o poema épico que me foi narrado e que ouvi incrédulo, durante a tarde em que nos sentamos à mesa, em frente ao canal della Giudecca. Mas não levei gravador e por isso resta-me contar a história, sem ritmo nem rima, e de forma seca e pouco floreada que é a única forma que me assiste.
Will Bardo diz poesia. Não escreve. As suas obras, explicou-me, são acontecimentos que se esgotam depois de apresentados. A sua arte é a oratória. É para ser ouvida, vivida no momento e não escrita. Nada fica impresso a não ser na memória de quem a tem.
— Sou um orador, a maior parte das vezes sem anfiteatro nem púlpito. Oro assim, à mesa com desconhecidos. Ou em sítios improváveis onde as coisas que têm que ser ditas têm que ser ouvidas.
Em 1981, no Rio de Janeiro, Will Bardo ficou conhecido pelo poema “O Útero Tropical”. Uma prédica sobre o amor, a hipocrisia e a liberdade, dita no famoso Centaurus, um bordel frequentado por políticos, homens de negócios, juízes e diplomatas. Durante o evento, e enquanto todos os figurões de roupão confraternizavam com as meninas, um manuscrito enrolado como um papiro, foi expelido do útero de uma prostituta contorcionista e depois lido perante os olhares atónitos e os queixos caídos de quem assistia. Entre eles um chefe da polícia que, talvez pensando ser heresia juntar bordel e poesia, resolveu tratar do poeta. Uns dias depois, Will Bardo foi raptado e sovado por desconhecidos e convidado a sair do Brasil; o que fez assim que pode voltar a andar. No dia 30 de Abril desse ano deixou o Brasil e desapareceu.

Durante quase duas décadas viajou pelo planeta, sob o nome de Fagundes Fernandes, biscatando pelos seus recantos e aprendendo a falar todas as línguas do mundo; coisa que afirma ter conseguido. Will disse-me ser dotado de um ouvido especial. Graças a esse talento, e por ter-se obrigado a trabalhar e a viver em várias regiões do mundo onde as línguas eram desconhecidas da escrita e dos livros, tinha intuído a gramática universal. Em menos de um mês, dizia, conseguia aprender a falar qualquer língua.
Das história e das viagens muito me contou Will Bardo. Mas são histórias de trabalho, de quotidianos banais, de pessoas que sobrevivem por esse mundo fora fazendo o que têm a fazer para se alimentar, para se aquecer, para foder. Nada de extraordinário sobres estas deambulações lhes posso contar pois o espanto e a beleza estavam na narração de Will Bardo e essa sou incapaz de reproduzir. Falou-me das mulheres que teve, dos filhos que fez, das famílias que formou e que abandonou para formar outras que voltou a abandonar para deixar mais Fernandes pelo mundo. Há Fernandes no Brasil, no Chile; há Fernandes pelas ilhas do Pacífico, no Japão, na Indonésia; há Fernades em Jerusalém, em Beirute, e por toda a Europa.
— Também em Veneza haverá Fernandes não tarda — disse-me com um sorriso.

Em 2002, mais de vinte anos passados depois de “O Útero Tropical”, Will Bardo reemerge de novo em Nova Iorque, no recém inaugurado Bowery Poetry Club. Aí, numa noite de outono, intoxicou a audiência com um ensaio sobre a retroacção humana a que chamou “Gazes”. As voltas que havia dado pelo mundo tinham-no transformado num ecologista radical. A sua oratória sobre a retroacção humana e a falta de consciencialização dos efeitos da predação da espécie foi apresentada como um micro-apocalipse e declamada em vinte e sete idiomas diferentes. Cada página foi lida e depois incinerada numa pira onde ardia também uma mistura alucinógena de salva divinorum e iboga. Os presentes alucinaram sem parar durante dias. Pessoas foram internadas e queixas foram apresentadas, embora, como a maior parte sofresse de uma amnésia profunda, foi difícil ao ministério público deduzir acusação. Mas, estando Nova Iorque, há época, particularmente sensível a atentados, fogos e ataques, Will teve mais uma vez que continuar a viagem.

 

(continua)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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7 respostas a Escrito na Antártica (parte 2)

  1. Olinda diz:

    ai que chamego bom! agora estou com o útero em bico. 🙂 mais, mais, mais!

  2. Mário diz:

    Pedro, agarre nestes dois textos, leve-os a uma editora e peça um adiantamento pelo que há-de-vir. Citando (e deturpando) a Elis, não dê aquilo que pode vender 🙂

    • Olinda diz:

      agarra nada, Mário, que de negócio está o mundo cheiinho. agarra é na inocência do talento e vem partilhar para, sem ganhar pataco, dando, ganhar alegria e prazer e amor.

    • Pedro Bidarra diz:

      tenho outros para a editora. Estes são só um amuse bouche

  3. Telefonou-me agora um conhecido crítico literário, pedindo para, mantendo o anonimato, ver aqui lavrada a sua opinião. Cito-o: “Reconheça-se à obra de Fagundes Fernandes a coerência simbólico-baudelairiana que falta à tanta protestação literária nacional. O que, note-se, só se consegue indo de bordel em bordel.”

    • Pedro Bidarra diz:

      O bordel é uma constante de vida
      tão concreta e definida
      como outra coisa qualquer

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