Escrito na Antártica (parte 3)

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O livro “Escrito na Antártica” é um diário dos seus quatrocentos e quatro dias no continente branco onde, como Fagundes Fernandes, trabalhou cinco verões antárticos como glaciologista, investigador de radiação cósmica e luzes polares na ilha do rei Jorge. Este exílio, nos confins da terra, terminou em 2012 quando um incêndio destruiu a base brasileira.
Durante 404 dias Will Bardo tomou notas sobre o continente branco. No último dia, durante uma festa, e depois de declamadas as 404 páginas, um fogo começou na casa das máquinas e estendeu-se a toda a base. Will Bardo chama ao acontecimento “Preto no Branco”, uma intervenção do destino em forma de mácula; um comentário à invasão do sapiens sapiens para a delapidação dos recursos antárticos. Se Will foi ou não responsável pelo incidente não se apurou; nem disso há notícia. Mas pelo sim pelo não o cientista Fagundes Fernandes desapareceu mal pôs pé em Punta Arenas, no Chile, aquando da evacuação.
— Tudo o que declamei nesse dia está escrito nessa páginas brancas — disse-me, apontando para o livro que estava à minha frente. — Na verdade está lá tudo o que precisa ser dito — acrescentou.
Depois fez silêncio, bebeu o café e agradeceu o almoço fazendo tenção de se levantar.
Perguntei-lhe que iria faze de seguida, se tinha prevista mais alguma prédica, algum acontecimento, talvez em Veneza?
Respondeu-me que iria continuar a viagem pela Europa que era onde o azar agora fermentava.
— Talvez a próxima obra seja uma elegia à democracia. A democracia é a ideia de uma ordem feliz. Quando é encenada, ensaiada e representada por bons actores, todos suspendemos a descrença no caos e sonhamos com uma ordem produtora de felicidade. A democracia é uma peça de teatro que, quando bem representado, nos faz esquecer a inevitabilidade da marcha entrópica do universo. Quando é representada por actores de segunda categoria a ideia deixa de ser vivida, o estado de suspenção da descrença é interrompido e vemo-nos de volta à crença no caos. E o caos explode e manifesta-se de novo como é da natureza dele.
Will fez uma pausa e olhou para o canal enquanto agitava o copo de vinho que parecia reproduzir, no seu interior, as águas agitadas da lagoa. Ou talvez fosse o contrário pois dava ideia que quanto mais o abanava mais as águas se agitavam.
— A consequência do acto terrorista, bem vistas as coisas, é a de relembrar a natureza entrópica do universo e de nos fazer acertar o passo com a marcha do tempo que é no sentido da desordem e do caos uniforme — Fez de novo uma pausa e depois acrescentou: — Vou à casa de banho.
Estava ainda sentado à mesa, a pagar a conta, quando me pareceu vê-lo no vaporetto a caminho do Zattere. Nunca mais vi Will Bardo ou Fagundes Fernandes, se é que o seu nome é Fagundes Fernandes. Estranha personagem. Um poseur? Um elaborado contador de histórias? Um poeta mitómano? Uma aparição? Ou apenas uma alucinação minha resultante de uma quantidade anormal de spritzes? Provavelmente tudo isto e nada mais. Mas sempre que no mundo explode uma nova barbaridade, a relembrar a tal natureza entrópica do universo, pergunto-me se não será mais uma obra do Vil Poeta.

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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9 respostas a Escrito na Antártica (parte 3)

  1. V diz:

    O que vai Dona­tello fazer com o livro branco de 404 páginas, que são na verdade dias?

    Gosto de pensar que este livro de 404 páginas brancas tem o poder de dar a quem o “encontra” 404 dias de revelações. Após os quais o deve “deixar” para ser encontrado por um outro Donatello.

  2. Olinda diz:

    e o resto dos pormenores do encontro? quero saber. 🙂

  3. Pedro, fizeste-me pensar nos relatos do Papini. Ele inventou o Gog, um milionário louco, que encontrava Fagundes e Fernandes a cada esquina.

    • Pedro Bidarra diz:

      Pois lá terei de ir ler o Papini. Achas que vou acabar num convento franciscano como ele?

      • Os sintomas apontam nesse sentido. Chegou-me, aliás, o ecrã partido de um futuríssimo tablet (estão sempre a cair-nos em cima coisas do futuro) onde se lê a palavra Bidarra e, no periclitante canto inferior direito, “…depois dessa fulgurante carreira literária, veio cerrar-se num mosteiro, praticamente não saindo do frondoso jardim.”

  4. nanovp diz:

    Acho que tens de deixar de beber Spritzers! Entretanto se o vir aviso-te!

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