Escrito na Antártica

 

CHIUSURA ANTICIPATA DEI LOCALI DI CAMPO SANTA MARGHERITA IN SEGUITO ALL' ORDINANZA DEL SINDACO ORSONI.

Duas vezes por dia sento-me no Caffè, no Campo de Sta. Margherita em Veneza: de manhã, para beber um café, e ao fim da tarde para um spritz. Enquanto o faço leio o jornal ou, quando me assoma uma ideia, tomo notas. Mas a maior parte das vezes olho apenas os estudantes que se juntam em bandos pela praça. Sobretudo ao fim do dia. Pode dizer-se que sou uma espécie de voyeur de estudantes; pelo menos enquanto se puder dizer tal coisa e ela não for banida pelo politicamente incorrecto. A energia estudantil contagia-me: os arremedos passionais e intelectuais, as opiniões que os empinam como potros alimentados pela combustão hormonal, as certezas declaradas pelo saudável desconhecimento da incerteza que governa o mundo, os sorrisos sexuais; tudo o que é estudantil anestesia-me a artrite. Isso e os spritzes. Depois, quando a noite cai, duas coisas podem acontecer: ou vou jantar e mergulhar nos meus textos e livros ou então, quando bebi uns spritzes a mais, vou dar uns dedos e conversa ao Aldo. Aldo é dono de uma livraria, ali no Campo Sta. Margherita, dedicada quase só a livros de viagens. E é um velho amigo com quem gosto de conversar pela noite dentro sobretudo depois da tal meia dúzia de spritzes sem jantar.

Foi num dias desses, passeando pelas estantes da livraria enquanto aguardava que Aldo despachasse uns clientes, que encontrei um livro curioso. Intitulava-se “Escrito na Antártica” e era todo branco. Nada estava impresso nas suas quatrocentas e quatro páginas; nem uma letra nem um algarismo. Para além do título na capa, manuscrito talvez a grafite, nada mais. Apenas branco como se fosse um grosso caderno de apontamentos de capa dura pronto a estrear. As folhas, no entanto, eram todas desiguais. Cada qual tinha a sua textura, a sua porosidade e o seu toque diferente; umas eram sedosas, outras ásperas, outras macias como camurça; umas eram brilhantes e de brancos azulados, outras mais baças, outras ainda de branco pérola. Eram duzentas e duas amostras, de outros tantos tipos de papel, naquilo parecia ser o mais completo catálogo de brancos alguma vez compilado. O livro era assinado por um tal Will Bardo de quem nunca tinha ouvido falar.
Aldo explicou-me que o volume, pois na verdade não podia chamar-se aquilo um livro, tinha sido deixado à venda pelo próprio autor que se apresentou como Will – Aldo pronunciava Vil – um poeta acabado de chegar a Veneza que, segundo Aldo, não parecia ter os parafusos todos apertados. Wil tinha entrado na livraria e pedido para lá deixar o livro à venda durante uma semana, finda a qual voltaria para o recolher caso não se vendesse. Cem euros, era o que o Will pedia pelo exemplar único do que dizia ser um poema épico sobre o seu exílio antártico. Para quem estivesse interessado em comprar o livro haveria um procedimento: os cem euros seriam deixados na livraria mas o comprador não levaria o livro. Este ser-lhe-ia entregue pelo próprio autor em mão e em lugar a combinar. Aí, e então, Will contaria ao comprador toda a história.
Intrigado, e porque gosto de colecionar livros raros tanto quanto gosto de pessoas e histórias raras, e porque tinha bebido spritzes a mais, resolvi comprar o livro. Deixei os cem euros a Aldo, como depósito, e fiquei à espera de receber o livro das mãos do autor. E uma história da sua boca. Dois dias depois Aldo telefonou-me pela manhã a dizer que o autor do “Escrito na Antártica” o tal Will Bardo encontrar-se-ia comigo na trattoria Do Mori na Fondamenta Sant’Eufemia na Giudecca. Teria que pagar-lhe o almoço em troca da história que me iria contar pois os cem euros apenas cobriam o livro.

– Buon giorno io sono Donatello – anunciei-me estendendo a mão a um homem grande, corpulento, já bem entrado na segunda metade da vida, e de longos cabelos loiros e barba farta de profeta.
­— Ciao Donatello io sono Will Bardo — respondeu-me com um sotaque indefinido e pronunciando um V em vez de W. — Poeta, orador e brasileiro, como Deus — disse-me com um sorriso.

Embora o céu estivesse cinzento, e as águas da lagoa esverdeadas e agitadas pelo vento que anunciava chuva, sentamo-nos na rua, de frente para o canal della Giudecca e pedimos o almoço. Will vestia-se impecável, de fato azul escuro, camisa branca sem gravata e sapatos castanhos. O chic e o alinho da sua farpela contrastavam com o desalinho do cabelo e da barba. Um estranho homem que contou uma estranha história.

 

(continua)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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9 respostas a Escrito na Antártica

  1. Olinda diz:

    isso não vale! estou babada com a história, derretida, e agora queria a dela – a história da história. como eu queria esse livro que pensava só existir na minha imaginação!

    (não costumo fazer publicidade mas olha aqui a coincidência:)

    http://sinhaenaoacorda.blogspot.pt/2013/04/a-camelia-cor-de-rosa.html

  2. Pedro Lupi Caetano diz:

    Então, e agora? Também tenho que pagar o almoço para ler o resto?

  3. Rita V diz:

    «Escrito na Antár­tica” e era todo branco»
    Gostei muito da ideia do livro.

  4. Belo arranque, mio caro Donatello

    • Pedro Bidarra diz:

      na verdade também gosto do arranque, saiu-me bem. Depois condensei o universo todo. Vou ter que o descondensar e estender para a versão impressa

  5. nanovp diz:

    Já ia no segundo vodka, ( não tenho ingredientes para fazer Spritzers…)

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