Evita

Gosto muito de tudo da casa. E de dar conta de tudo da casa, desde saber onde o tapete está puído até ao que está em falta na despensa. Sempre fui assim.

Havia um armário onde se guardava a melhor louça na casa da minha avó. Era muito pequenina e passava horas escondidas, tão cuidadosas, a tirar prato a prato e a pensar mesas perfeitas. Dava uso a tudo, até às peças já só decorativas. A tudo, não escapava nada. E decidia com que talheres. E decidia com que flores. Em que ocasião.

Sempre fui muito Evita: enfeitava-me com uns bons brincos, de preferência uma capinha de vison – sabia lá que não era uma capinha, para o meu tamanho de capuchinho vermelho era -, ensaiava o equilíbrio em cima da vertigem dos saltos altos e pronto, quer dizer, pronta.

Em preparos de grande dame, aos meus olhos, e de grande entroncho, aos olhos da minha avó, em vez de me pôr à conversa em chás de amigas, o que queria era, Evita, ir ver os lençóis estendidos de branquinho lá cima onde secavam, espreitar a ordem dos tanques e da máquina de lavar roupa, sentir o bafo quente do vapor do ferro de passar, entrar no movimento perpétuo da cozinha cheia de naturezas vivas: ervas, legumes, peixe ainda a morrer de tão fresco. E o fogão. Posso ajudar? Qual o quê. Podia era ser enxotada dali para fora. Não há respeito.

Mesmo vestida de crescida, prestes a sair com o marido, voltava para trás: não conseguia resistir à esfregona, à vassoura, à reorganização dos livros por alturas, até ser apanhada em flagrante nestas manobras. Pior. Mandava vir o que me parecia adequado ou fugia de casa para ir pessoalmente comprar e pedia que se pusesse na conta. Coisas prodigiosas e incompreendidas, e em quantidades generosas. Como não tinha autoridade dizia: a avó pediu que lhe dissesse que era para ir à retrosaria buscar fita de veludo da largura de um dedo, em verde escuro, se faz favor, mas é para já. A princípio tinha credibilidade. Depois inventaram um tem a certeza de que foi a avó de muito mau gosto. Deixar uma pessoa assim em xeque…

Nunca me passou pela cabeça que chegada a esta idade não tivesse o meu próprio armário de Ali- Babá da louça. A minha Evita interna e particular não se conforma de não ter a Flora Danica todinha como ela foi feita para a imperatriz Catarina ii da Rússia, mulher ingrata, pois nem esperou pelo serviço de jantar: fez a Frederico da Dinamarca a desfeita de morrer antes de receber o presente – parece mal.

Eu, claro, estou-me bem lixando para a Flora Danica, não tenho a porcelana, não tenho, vejo os bonecos na enciclopédia livres de pratos e travessas.

Mas, ó meu Deus, e aqueles lindos, lindos sinos de gelo espalhados estrategicamente, a espaço certo na minha mesa perfeita? Sim, aquele prato onde deveria estar um pedaço de gelo, tapado por um sino rendilhado por onde se escapasse o frio e a humidade e me refrescasse os convidados em condições? Bem sei, bem sei:

– ó filha, liga o ar condicionado.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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17 respostas a Evita

  1. Lininha diz:

    Fantástico texto.

  2. Luísa Tavares de Mello diz:

    Está muito bonito o seu texto. Eu revi o meu armário que foi da minha mãe e do meu pai. Está numa sala onde raramente entro. Tem muitas histórias lá dentro. E as loiças não estão arrumadas, estão excessivamente juntas para caberem! Empilhadas na medida das suas fragilidades.

    Reparando bem na vida de alguns de nós é assim. Empilham-se coisas…Emoções, tesouros, recordações, diplomas, coisas.

    Já com as pessoas é diferente. Fantasio mais com as pessoas e raramente ficam aprisionadas no armário.

    • É como diz, empilhado, excessivamente junto, e alguns equilíbrios de tem-te não caias!

      Confesso que na vida sou pouco empilhadora. Guardo apenas o que nunca, a meus olhos, perdeu valor. Costumo dizer que tenho ataques de feng-shui, jogo tudo fora e viva o futuro!

  3. Ó mas que casa organizadinha. O pior é o déficit prodigioso e incompreendido das comprinhas da avó. Lindo texto.

    • Tenho um bocadinho o maluquedo da arrumação, que hei-de fazer se gosto de uma ordem limpa?

      Agora as comprinhas infantis… nem contarei da missa um décimo, em muito bebé fui terrible! Melhorei quando me enfiaram no colégio da segunda vez – da primeira fui expulsa, perdão, convidada a sair.

  4. Ivone Mendes da Silva diz:

    Ó Eugénia, no próximo jantar a menina tem de trazer a capinha de vison. Sabe lá o que eu gosto de capinhas de vison. Promete?

    • A última vez que usei tal foi para ir a um baile – sim, sei, parece um desuso mas foi assim mesmo – que coincidiu com o meu aniversário de 18 anos. Porque tinha um vestido, tão lindo, de veludo martelado, manga a três quartos, decote em barco subido à frente, mas… com um tal decote nas costinhas que ó, era inverno, tive de ir de capa que sempre se escapa! (E sempre é mais tcharam quando se tira.)

      Nem me lembrava disto…

  5. Mário diz:

    A porcelana liga com os naperons. Também os havia espalhados pela casa? 🙂

  6. nanovp diz:

    eugénia, olhe que se ligar o ar condicionado estraga tudo, menos o texto que esse já não se pode perder!

  7. olinda diz:

    🙂 evitanices e rendilhados? junto-me a ti.

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Tão próximas somos nalgumas das nossas memórias! Este vai direto para o baú dos tesouros que aqui coleciono.

  9. ah ah ah fez-me lembrar o meu serviço infantil. Guardo religiosamente numa gaveta as peças que sobraram.
    a cup of tea?

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