Família Belleli

 

Edgar Degas, Réalisme, Musée d’Orsay (Paris, France)

Edgar Degas, Réalisme, Musée d’Orsay (Paris, France)

Edgar Degas, ao regressar a Itália onde parte da família residia, inicia o retrato da “Família Belleli” em 1858 na cidade de Florença. É o seu primeiro trabalho com pincel largo mais próprio para caiar do que utilização em pintura clássica.

Trabalhou nesta obra cerca de uma década antes de o apresentar sob o título “Retratos de Família” em 1867 no “Salão de Paris”. Não obteve loas do público ou dos críticos.

Drama ou ritual doméstico? Pose dos Belleli ou memória impressiva que reproduziu na tela? Homem irascível, mulher formal segundo a época? E as crianças? Mais interrogações podem ser levantadas. Respondidas ou não por quem na pintura atentar.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

12 respostas a Família Belleli

  1. Ora…atentar por atentar…como é que o raio de um pintor munido de um pincel de caiar – sort of – demora 10 anos a pintar uma telazita michuruca? (isto sou eu a falar!)

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Acha muito? Quantas telas demoraram mais a pintar até o artista dar por completo o fazer e refazer…

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    Oh; Maria, que crueldade: plasma aqui uma imagem e uma pessoa sabe-lhes já os nomes e a história toda que tem de pôr a imaginação a fazer o pino para conseguir alinhar alguma coisa de legível. Ai.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      A ideia foi essa mesmo. Com o seu talento não considero árdua a tarefa. Aliás, estou «mortinha» por ler o que vai alinhar. Degas merece, ó se merece!

  3. Bruto da Silva diz:

    Memória impressiva, claramente.

    Memoria Impressiva o “Priming”. Consiste nel formarsi di una memoria in seguito al semplice effetto di esposizione a uno stimolo che presenti una particolare potenzialità evocativa (potere della suggestione) o per una particolare recettività dovuta a caratteristiche del soggetto e/o della condizione d’esperienza (primo stimolo di una serie, effetto novità, ecc.). Nel tipo di prove sperimentali impiegate per testare questa forma di memoria è in genere risultata importante la neocorteccia.

  4. Pois é, Maria, mas que bem caiada que está esta parede. Bora lá graffitá-la

  5. Bruto da Silva diz:

    Afinal, não é preciso usar a imaginação:

    That there were strains within the Bellelli household at the time was almost certainly noticed by Degas, and confirmed by another uncle: “The domestic life of the family in Florence is a source of unhappiness for us. As I predicted, one of them is very much at fault and our sister a little, too.”
    Laura subsequently confided to Degas that, living in exile, she missed her Neapolitan family, and further, that her husband was “immensely disagreeable and dishonest…
    Living with Gennaro, whose detestable nature you know and who has no serious occupation, shall soon lead me to the grave.
    “Laura Bellelli was pregnant at the time, and it has been suggested that this circumstance, and the subsequent death of the child in infancy, may have contributed to her unhappiness and to domestic tensions in general.
    These conflicts would provide both background and content for the painting.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Interessante também.

      • Bruto da Silva diz:

        corrigindo:

        Laura sub­se­quen­tly con­fi­ded to Degas that… her hus­band was “immen­sely disa­gre­e­a­ble and disho­nest…
        Living with Gen­naro, whose detes­ta­ble nature you know and who has no seri­ous occu­pa­tion, shall soon lead me to the grave.“

Os comentários estão fechados.