Ghost writer

 

 

Edgar Degas, Réalisme, Musée d’Orsay (Paris, France)

Edgar Degas, Réalisme, Musée d’Orsay (Paris, France)

 

Je viens d’arriver, madame, j’ai à peine posé mes bagages e me voilà en train de vous écrire. Tem cada um as memórias que escolhe mesmo que o não saiba e ainda bem, pois que nada melhor do que afastar da frente dos olhos um lastro de maus passados. Toma-se muitas vezes por sereno aquele que nada diz e é um erro. Há, de entre as palavras, uma mão cheia delas que não se deixam apanhar às primeiras. Passada a hora já é tarde. Nenhuma emoção, nem decisão, quer ser dita por palavras do dia seguinte, requentadas ao lume brando das horas que foram passado e cicatrizando.

Joseph-Louis de l’ Estrée tinha poucas palavras que o assistissem na hora em que eram precisas. Um capricho genético entaramelara-lhe os arroubos da adolescência e impedira as conversas graves da primeira idade. Nessa altura descobriu que, ainda que não lhe não saíssem da boca, saiam-lhe da pena e a isso se segurou, que nada é mais doce ao género humano do que âncora que lhe prenda a rota. Fez demorados amigos que raramente via mas com quem tinha conversas que serpenteavam de correio em correio, je m’ excuse de ne pas vous écrire depuis si longtemps, levando e tecendo.  Esta demora, madame, pensei primeiro evitar-me de vo-la explicar. Há destinos que não se partilham se não quisermos impor aos outros a cruz das nossas vias. Mas também há segredos em que nos sentimos como em pântano, as raízes a chamar-nos para o fundo, a falta da ar. A minha mulher, Madame de l’ Estrée, née Fibonacci, chega ao fim da sua sexta gravidez e eu tremo. E conto já o que rodeio desde o início da nossa correspondência: não duram os nossos filhos mais do que um tempo de umas horas. A primeira, encontrei-a gelada no berço junto à janela aberta e caiu-me de tal maneira em cima o horror que não pude dar passo, nem pensar até que os anos me trouxeram a mesma certeza repetida. Estranha demência leva minha mulher a matar os filhos recém nascidos, expondo-os ao frio e ao desagasalho, estranha demência que nunca tive como enfrentar. Fui primeiro tolhido por pensar que algum direito, mais do que eu, ela teria sobre essas crianças mortas. Hoje duvido que o tenha, madame, minha amiga, estou certo que não o tem. Por isso tomei a decisão de partir, nascida a criança e levando-a comigo. Tenho preparadas as mudas da viagem, o que julgo ser necessário. Je vous supplie, madame, de m’accueillir chez vous pendant deux où trois jours.

– Mãe, 0 pai não me ouviu.

– O pai está a escrever, Margareta. Fica sossegada.

Que casa esta, madame, onde os outros julgam tristeza só há perfídia. E faz aqui dentro um frio que me parece ser sempre madrugada a espreitar nas janelas altas.

– Afonso, está pronto. Não demores, sim?

– Sim. É só acabar de escrever isto.

(Maria, este quadro é muito difícil. Muito.)

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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10 respostas a Ghost writer

  1. Muito bem escrito, como sempre.

  2. rita tormenta diz:

    arrepiante.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Rita, já vu bem a cara da senhora? O marido só podia mesmo ter delírios assim …. 🙂

  3. Olinda diz:

    gostei muito do texto, Ivone. mas odeio o título.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Faz bem, Olinda. É assim que devemos estar na vida: a gostar muito de umas coisas e a odiar outras. É o equilíbrio. Obrigada pela leitura.

  4. Bruto da Silva diz:

    Estarei em desequilíbrio? Não odeio (quase) nada. Mas um bocadinho de italiano tornava a cena ancora più colorata e appetitosa per qualche.

    Et voici mon petit apport for the Ghost writer sadness 😉

  5. nanovp diz:

    E quanto tempo durará ainda o hábito de escrever cartas, agora que o mundo se apressa numa correria digital a alta velocidade? O seu texto é um sinal de esperança.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Bernardo, mesmo na correria, ou mesmo apesar da correria, eu acho que há-de durar. Veja: respondo-lhe agora à gentileza da sua leitura e este comentário é assim uma espécie de bilhetinho que pousa na sua secretária na volta do correio.

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