Há caminho! A caminho!

Primeiro pensei que gostaria de voltar àquela pureza inicial de despreocupação. Ao estado em que descuramos quaisquer sinais de futuro, porque sabemos que ele está lá, por muito tempo, à nossa espera. É a fase em que para tudo temos tempo, porque tempo não nos falta. Tudo está em aberto, límpido e claro amanhã que pode cantar ou gritar e há de ser melhor.

Depois, pensei que isso são devaneios de jovem vedados à provecta idade que acumulo, sonhos de infância, lirismos de garoto. A cada dia que passa há uma desvontade, uma desaúde, uma desilusão… Estreita-se o caminho do futuro e o que prometia ser os gloriosos anos dourados do descanso afiguram-se, ao invés, como mais dolorosos anos de provações e lutas.

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Caminante, Vitória (Gasteiz), País Basco

Foi então que me lembrei do meu Machado, o António, o andaluz que como a sua terra irradia luz ao andar. Não, o caminho nem existe, nada é caminho senão o rastro que deixamos e quando olhamos para trás apenas vemos a senda que jamais voltaremos a pisar. Não há caminho para ninguém, apenas sulcos no mar, que se fecham mal o navio passa.

Caminante son tus huellos
el camino, nada más.
Caminante no hay camino
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y a volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
haz de volver a pisar.
Caminante no hay camino,
sino estelas en la mar.

Isto, mesmo assim de memória, reconforta-me muito. Significa que todas as minhas incertezas são a normalidade da vida. Que todas as esperanças da vida são ilusão. Mesmo as más esperanças. Nada está escrito, nada está destinado, senão o que já tivemos, até hoje, por destino.

É este o caminho. Há este caminho. Vamos a ele. Como vi escrito nas camionetas, que há 30 ou 40 anos cruzavam as estradas,  vamos à vida que a morte é certa!

 

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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9 respostas a Há caminho! A caminho!

  1. Luísa Tavares de Mello diz:

    Transitórios e estreitos os caminhos. A minha normalidade é o susto da finitude. Que raio de caminho.

  2. Mas cada instante tem a dimensão do infinito e, nele, tudo é possível!

  3. È o que dizia Hemingway, com tristeza,…

  4. Inma diz:

    Fico contente porque há pessoas que gostam da poesia além disto, se têm boas recordações dos nossos poetas espanhois.

  5. rita tormenta diz:

    Tenho-o na memória dentro da pele a correr-me no sangue.
    caminhar com um destino sem me condicionar por uma bússola.
    e ainda esta semana o disse baixinho como uma oração que aquieta a hecatombe.

  6. Quoi? — L’Éternité. C’est la mer allée. Avec le soleil.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Ponhamos a «coisa» neste ponto: a Joana Vasconcellos não é uma artista, é uma instalação/empresa. Já viu a quantidade de gente a que dá trabalho?
    Não me admiraria, num qualquer dia, vê-la como Ministra da Cultura sempre enfiada em rendas.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Sorry. Este comentário era para o outro seu texto sobre a Joana Vasconcellos. Apague-o por favor.

  8. nanovp diz:

    A vida é demasiadamnete rica, e isso assusta-nos! Conhecemos a alegria pura mas aterrora-nos o vislumbrar da dor.

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