Isto está tudo lixado (com um F enorme)

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Jean-Jacques Rousseau, que eu nem sequer admiro muito, distinguia três liberdades: a liberdade animal, que se perde através do contrato social; a liberdade civil, que é regulada pelo contrato social; e a liberdade moral, que é irrestrita e torna cada um amo de si próprio.

Por estranho que pareça, 300 anos depois do nascimento do autor de Du Contrat Social, esta última é a que verdadeiramente continua em crise. Em grande crise porque quase ninguém quer ser amo de si próprio, responsável por si próprio, pai e mãe de si próprio.

A maioria gosta de viver encostada. Ao emprego, ao Estado, à família, ao mainstream. Sacrifica a liberdade moral à segurança da pertença. Talvez Rousseau tivesse razão quando, em 1755,  escreveu o Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens (Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes). Nesse discurso, comummente conhecido como o Segundo Discurso, Rousseau afirma que o primeiro homem a colocar-se num pedaço de terra e a dizer “isto é meu!”, tendo encontrado gente simples capaz de nele acreditar, foi o fundador da sociedade civil. Eu acrescentaria, foi o fundador da política, porque formulou um postulado até então sem sentido, conseguindo mais tarde que ele se tornasse lei.

E toda a lei é uma restrição da liberdade, toda a democracia é uma restrição da nossa irrestrita liberdade moral. O contrato social faz-nos aceitar – volontiers – essa restrição. Porém, ultimamente, mesmo no campo irrestrito do pensamento e da palavra aceitámos limitar a nossa liberdade. O politicamente correto tolhe-nos. Não podemos expressar uma ideia, um conceito, um sentimento sem que haja culpa, suspeita ou danação. Mudámos as palavras, acabaram os coxos, os cegos e os aleijados, porque a nossa sociedade é limpa de defeitos; em inglês a palavra alegre deixou de ser gay porque esta foi apropriada pelos homossexuais. Há uma novilíngua orwelliana por todo o lado.

Há dias, encontrei o jornalista Adelino Gomes (que acabara de representar Maquiavel no teatro A Barraca) e, falando disto e daquilo, ele lembrou a frase de um miúdo angolano que, nos anos 90, no Huambo, perante o microfone da TSF da nossa colega Ana Margarida Póvoa (hoje na SIC), resumiu a situação do seu país desta forma: “Ó patroa, está tudo fodido!”.

Acho que só não fazemos coro com esse miúdo devido à restrição da nossa irrestrita liberdade moral. Mas a verdade, tão verdade como um coxo ser coxo apesar de já não o chamarmos assim, é que isto está mesmo tudo fodido!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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14 respostas a Isto está tudo lixado (com um F enorme)

  1. Grande malha caro Henrique! Ainda acredito que não; que não está tudo f….., há um país que resiste, que trabalha, luta, silenciosamente; que investe, cria emprego, umas vezes rangendo os dentes, outras… chorando para dentro, sempre arregaçando as mangas, mas…resiste! Vejo-o todos os dias! Não é qualquer Nação que resiste 900 anos! Mas…dói ver certas coisas, sim!

    • Henrique Monteiro diz:

      Sabe meu caro, essa de resistirmos 900 anos não nos promete outros 900. Mas eu sou um retratista com fé. Hoje está tudo assim, amanhã pode estar melhor, ou pior. Haja fé!

  2. arlindo louro diz:

    Nunca tive coragem, para escrever fosse o que fosse, sobre o que o ilustre, ascendente da minha terra, tem escrito. Não o faço por timidez e por achar que não tenho arte para tanto, mas esta opinião não me deixou insensível, como insensível não me deixa tudo o que escreve, queria falar o que fala, mas fico sem palavras porque o que queria dizer foi dito por si. Obrigado Henrique Monteiro, por dar voz ao que sentimos. O Lixado com F é pouco, mesmo que ele tenha o tamanho da Torre Eiffel, está mesmo tudo Fodido, alguém escreveu que era o amor que era f…, mas não é só amor, agora tudo é.

    • Henrique Monteiro diz:

      Sempre às ordens! O amor é fodido, mas passa. Isto não tenho a certeza. Embora goste de citar aquela frase de Mark Twain: “Sou velho, toda a vida tive problemas, mas a boa notícia é que a maioria deles nunca existiu”. A ver vamos, como dizia o invisualzinho (acho que é assim que agora se diz ceguinho)…

  3. Arlindo Louro diz:

    alguém escre­veu que o amor era f…, mas não é só amor, agora tudo é.

    Não sei como emendar o que segui mal organizado, por isso retifico a aqui, as minhas desculpas.

  4. celeste martins diz:

    O titulo é sugestivo e esclarece de imediato! Leio com prazer o que escreve mas como sou uma

    “seguidora de base” regalo-me com todos os artigos .” Escrever afinal não é triste!!!! Pelo menos

    para mim é um privilégio segui~lo!!!

  5. Mário diz:

    Mas quando tudo estiver f…… não estaremos livres novamente? E se for a única forma? Então que se f……

    • Henrique Monteiro diz:

      Mas este não é dos casos em que se pode dizer que enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Porque na realidade… não folgam

  6. Olinda diz:

    eu posso e sem culpa: a mim, a democracia só me fode naquilo que não depende de mim – e isso é que é fodido.

  7. That’s right, my man: está tudo fodido e nós, é só podermos, tudo fodemos.
    Cem por cento contigo (para não exagerar com os 110 por cento): o políticamente correcto talha-nos a língua. Como direi: le politiquement correct c’est un ennemi de la belle minette.

    • Henrique Monteiro diz:

      Et n’oublie pas les pipes, tout ce qui est oral est une sublime forme de la langage.

  8. jrocha diz:

    Um dia quando o nosso primeiro ministro, estava a discursar para o povo, falou falou falou! Chegado a uma certa altura perguntei-lhe porque não beijava as pessoas ali presentes? Ele repondeu-me, porque haveria de fazer isso? E então eu disse-lhe: Há tanto tempo que nos está a foder, porque não nos beija? Eu não consigo foder, sem dar umas beijocas.

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