Lugares mágicos

Senhora da Lapa

Santuário da Lapa, perto de Sernancelhe. Até Fátima surgir, em 1917, era aqui a maior peregrinação de Portugal

Há sítios mágicos e um deles é nas Terras do Demo, onde no “corrume dos ventos sopra a boizana e o cieiro”, como escreveu Aquilino, que inventou a expressão que dá nome àqueles sítios. Andei por lá no sábado, de Soutosa para Tabosa, passando pelo santuário da Lapa, a entreter com historietas mais de 100 pessoas que, por iniciativa da Associação Portuguesa de Escritores, queriam conhecer melhor vida e obra do genial autor do Malhadinhas (figura que era, aliás, ali de Barrelas, onde fomos ver a maravilhosa cruz mudéjar do séc. XI, jóia da sua igreja matriz, que o almocreve considerava uma das grandes maravilhas do mundo).

Mais tarde direi como tudo foi. Agora apenas me interessa a magia do lugar e os seus efeitos nas pessoas. São locais graníticos, onde à primeira ideia não há compromisso, mas que se tornam gentis como a água que lhe corre pelos lameiros. Neles se encontram os que raro se encontram; são companheiros os que raro se acompanham. À volta da mesa, dos enchidos, do presunto, da vitela, das trutas de escabeche, regado com bom vinho (e bom espumante, que a zona entra na região de Távora Varosa), dão-se encontros improváveis. Ali esteve o Bispo Emérito de Bragança Miranda, o sólido conservador D. António José Rafael, nascido há quase 88 anos naquelas paragens de Moimenta; ali esteve também, como que em contraponto harmonioso de uma partitura barroca, o advogado e dramaturgo Jaime Gralheiro, homem de mais de 80 anos, mas com vigor de 40, e que para mais ensinou o b-a-bá do comunismo e do ateísmo a Carlos Carvalhas, que como ele é de São Pedro do Sul; e esteve o padre do Santuário, que explicou o que é um santuário, porque quase ninguém sabia; e ainda o pároco de Vila Nova de Paiva que nos mostrou a cruz do Malhadinhas; e familiares de Aquilino e mais uns professores, médicos, economistas, jornalistas, gestores, a maioria com conhecimentos soberbos da meia centena de livros publicados pelo Mestre, outros nem tanto, mas todos, mesmo os que são da zona, basbaques a ver a serra e as pedras, porque mesmo que as olhemos muitas vezes, são sempre menos aquelas que as vemos.

E por ali andámos, passando entre as impossivelmente estreitas fragas da Igreja da Lapa, que vieram provar ninguém ali ter pecado a declarar a São Pedro, no céu, regressando, por momentos, àquela fusão com a natureza, à telúrica força dos pastores que cada um de nós transporta no código genético.

Qual crise, qual país. É a terra que conta. A nossa ou a que adotámos, mas a terra. Por mais danada que seja.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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18 respostas a Lugares mágicos

  1. Maria do Rosário Almeida diz:

    Gosto muito de ler os seus posts!!!!!!!!Fico à espera de mais……….Tem muito mais piada e é muito mais criativo, pelo menos para mim, do que aquilo que escreve sobre analise politica, vá não se babe, gosto mesmo!!!!!!!!!!

    • Henrique Monteiro diz:

      Não me babo, mas como sabe a política é uma porca, como desenhava o Bordalo e dizia o Ramalho…

  2. Fernando Carmo Tavares diz:

    Naturalmente que gosto muito de ler o que escreve e sempre partilho. Mas, hoje, permita-me que lhe diga, estou muito, mas mesmo muito desiludido. Com efeito, no seu escrito, notável pela referência ao mestre Aquilino e ao presunto, enchidos e vinho da região, à notável fotografia da zona do Santuário da Lapa, mesmo à referência que faz a Soutosa e à Tabosa mas aqui, perdoe-me que o diga, cometeu um erro crasso, dado que a Tabosa que também calcorreei, a pé, é uma aldeia da freguesia do Carregal, onde o mestre Aquilino nasceu e, no seu escrito, esta minha terra á pura e simplesmente ignorada. A Tabosa possui um notável Mosteiro, mas não está, nem de perto nem de longe, ligada ao mestre Aquilino Ribeiro. O seu a seu dono.

    • Henrique Monteiro diz:

      A casa onde nasceu Aquilino é privada e pertence a outra família. Não pode ser invadida por uma comitiva de mais de 100 pessoas. Na Tabosa, na Igreja, o pai de Aquilino dava missa, foi o pretexto

      • Fernando Carmo Tavares diz:

        Caro Henrique Monteiro. Apesar de não ser um expert na obra do mestre Aquilino que, como sabe, infelizmente não é muito estudada, possuo praticamente todos os seus livros e posso assegurar que ele nasceu no Carregal, numa pequena casa ao lado da Igreja Paroquial. Tabosa, é uma pequena aldeia, pertencente à freguesia do Carregal, onde existe um pequena capela, integrada no denominado Convento da Tabosa, que albergou, durante pouco tempo, um conjunto de freiras, que tiveram de fugir, com a extinção das ordens religiosas, em 1834.
        Efectivamente, a casa onde nasceu o mestre Aquilino é particular, fica dentro do (para nós, os daí naturais o pátio) pátio conhecido como dos Sanhudos e actualmente Aquilino Ribeiro. Aliás, ainda recentemente ali levei um grupo de Beirões residentes no Minho e, o proprietário, entretanto falecido, teve uma tirada engraçada …durmo na cama onde ele nasceu…
        Portanto, meu caro e sem querer entrar em polémicas, embora alguns historiadores refiram Carregal da Tabosa, a freguesia foi sempre e ainda é o Carregal (e aí de situa a Igreja Paroquial e a escola)
        (Todas estas informações podem ser consultadas em: http://sernancelhe.planetaclix.pt/

        • Henrique Monteiro diz:

          Não me passou pela cabeça contradizê-lo, bem sei que ele nasceu onde diz. Apenas explicar porque razão não fomos ao Carregal. Claro que o padre Ribeiro dava missa na igreja do Carregal, mas também a dava ali, na capela do convento.

          • Fernando Carmo Tavares diz:

            Aceito, meu caro, naturalmente, a sua explicação, que tem lógica, Mas e peço-lhe que me perdoe, acho que não ficaria de bem comigo próprio se não defendesse a minha terra, o Carregal, isto sem qualquer desprimor para a Tabosa, aldeia muito bonita e onde vivi momentos inesquecíveis. É que, nascido que fui em 1948, não havia qualquer divertimento, a não ser aqueles que nós, os do Carregal e Tabosa, íamos criando, cimentando a nossa natural amizade. Portanto, para mim, ouvir falar ou escrever da Tabosa e do Carregal é quase a mesma coisa. Mas, em abono da verdade, a sede da freguesia é o Carregal e foi só por isso que reagi. Aceite os meus respeitoso cumprimentos.

  3. Olinda diz:

    que riqueza de comilanço que encheu a barriga ao saudosismo.

  4. euclides costa diz:

    É com prazer que vou lendo tanto os post, como alguns artigos de opinião publicados no nosso jornal de referencia “O Nosso Expresso”. É também com um sentimento de inveja que vejo essa escrita por terras do demo, não é justo, eu aqui a roubar uns minutos ao herario público, para comentar. e o meu amigo a viajar por essas lindas terras. Permita-me um conselho. deixe a politica por uns dias, mergulhe na paisagem, sem qualquer botija de gás, vá até a profundida dessas terras, encontrará por certo umas espécies de gente que desconhecidas do mundo, cada dia das suas vidas, lutam para respirar melhor, e para fazer dos tempos maus, tempos de gloria colectiva.
    Um abraço

  5. maria diz:

    As minhas raízes passam por aqui.Uma pequenina aldeia, As Arnas onde vivia a minha bisavó e uma Tia antiga que aí dava aulas e se dava com o Aquilino-

    • Henrique Monteiro diz:

      Conterrâneos, pois. Tenho as costas todas no concelho de Barrelas a que o liberalismo deu o ajudengado nome de Vila Nova de Paiva, para citar Aquilino

  6. nanovp diz:

    A terra e a história…e vá lá um bom copo a acompanhar um naco de pão com chouriço!

  7. Olinda diz:

    olá Henrique, o meu nome é Invisíbelle. 🙂

  8. Ana diz:

    Os lugares das Terras do Demo podem ser únicos. Mas a magia está nos olhos de quem os contempla. O que valeu, vale e valerá sempre são as pessoas. Obrigada pela visita, voltem sempre!

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