Na estepe, com o lobo

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De entre tudo o que já li, este é bem capaz de ser o livro que mais me influenciou naquela que foi certamente a fase da vida em que era aceitavelmente influenciável. Falar dele é, portanto, um acto autobiográfico, tal como o romance O Lobo das Estepes o foi para o seu autor – o para sempre impressionante e glorioso Herman Hesse.hh
Como é que me chegou às mãos?…
Talvez por entre charros amáveis partilhados nos alvores de Setenta, algures em Lisboa, na Travessa da Légua do Póvoa ou no seu verde e bem associado Jardim das Amoreiras: éramos todos uns querubins da contra-cultura possível, sem bem disso termos uma vaga ideia (ou mesmo nenhuma, como era o meu caso, anjolas mal saído da puberdade e completamente ignorante de movimentos intelectuais, fora ou dentro de portas). Para mim, tudo o que vivia então era apenas o húmus do que seria a vida, que sempre imaginei mais curta, algo de que me podia servir sem reservas – porque estava ali à disposição exactamente para isso.
Nem mesmo fazia ideia de que os Steppenwolf de Born to be wild se chamavam assim em homenagem ao livro de Hesse – aliás, só hoje tomei conhecimento de tal facto, quando fazia busquedo técnico para poder ao menos dizer que o homem foi prémios Goethe e Nobel no mesmo ano (1946) – e onde fiquei também a saber que Max Von Sidow tinha sido Harry Haller num filme de Fred Haines (1974) …
É curioso que outro dos grandes livros da minha vida seja também dele: O Jogo das Contas de Vidro.

200px-Hermann_Hesse_Der_Steppenwolf_1927A ideia que tenho hoje deste livro é de que o li sempre na perspectiva do narrador/editor, personagem que nos introduz aos manuscritos de Harry Haller – um ser frágil e misterioso que a si próprio se apresenta como sendo um, apenas mais um, lobo das estepes.
O comportamento errático, talvez flutuante, de Harry Haller, a sua misantropia desorada, as manias e excessos (na introdução são só copos, e sem nunca se embebedar), observados pelo sobrinho da proprietária da casa onde o lupino bípede aluga quarto, colocam o leitor no bizarro trilho exibido nos ditos manuscritos – mais concretamente naquilo que Hesse denomina de Tratado do Lobo das Estepes.
Haller é um nihillista mais ou menos falhado que decide marcar o momento da sua morte. Tem 47 anos e entende que meio século de vida chega perfeitamente como experiência. Detesta a burguesia, os seus símbolos, o que simboliza em termos civilizacionais – mas não consegue despegar-se da sua esfera de atracção. É a sua dualidade, que se vinga na metamorfose excessiva, descontrolada, emocionalmente perturbada, do solitário lobo que cruza a névoa da noite em inquieto silêncio.
O seu trilho é diverso, ao sabor das histórias esparsas e semi-oníricas, por vezes sem relação óbvia entre si, que compõem o todo dos manuscritos de Harry Haller (ou de Herman Hesse, se quisermos maior fidelidade ao autor). Existem no entanto personagens comuns ao núcleo do livro – o Teatro Mágico, só para loucos. Um Pablo saxofonista e uma Hermínia por vezes andrógina montam um jogo sexual com cocaína à mistura, o nosso excelentíssimo lobo já sonha com distopias sérias (Batida grossa em automóvel, texto que de alguma forma reflecte cenários de guerra ainda recentes, pois o livro é editado em 1927), ouve jazz mas insiste em Mozart, e a realidade vai-se reorganizando em formas e fórmulas bem distintas das que o tinham transportado até ali.o lobo das estepes
Como li este livro seguido há apenas 40 anos (por vezes abro-o para reler uma ou outra passagem específica), é óbvio que agora, já muito mais na pele do lobo que na do original narrador,  esteja a achar a segunda leitura extremamente rica – um humor tão subtil que me assusta a possibilidade de grande parte me ter escapado da primeira vez (e ainda só vou na página 32…).
Escolhi este pedaço de texto porque, não sendo minimamente importante, dá uma ideia do tom deste livro fabuloso.

Durante esses dias, raramente vi Hermínia, mas na véspera do baile bateu-me à porta – vinha buscar o bilhete que eu tinha arranjado; e deixou-se ficar algum tempo, amenamente sentada no meu quarto; e foi então que avançamos por uma conversa que me pareceu bastante estranha e me impressionou mesmo profundamente.
“Realmente já andas com outro aspecto, até pareces outro”, disse ela, “a dança põe-te como novo. Quem não te tivesse visto há um mês, mal te reconheceria”.
“É”, confessei, “há anos que não me sentia tão bem. Tudo isso graças a ti, Hermínia”.
“Oh!, e a tua bela Maria, não conta?”
“Não. Ela própria também foi presente teu. É uma maravilha”.
“É a amante de que estavas a precisar, Lobo das Estepes. Bonita, nova, bem-disposta, sabida no amor e nem sempre acessível. Se não a tivesses de partilhar com outros, se ela não fosse sempre para ti uma companhia passageira, as coisas não andariam tão bem”.
Era assim mesmo, também isso tinha de admitir. 

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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19 respostas a Na estepe, com o lobo

  1. Minhona diz:

    Quando se lê a palavra-mágica “autobiográfico” (2ª linha), o leitor endireita-se, passa também a voyeur e a leitura passa a ser uma visita guiada. Neste caso ao universo dos idos setentas, uma fase da vida comum a todos da mesma geração, querubins da contra-cultura e de toda a riqueza e intensidade de emoções genuínas e características desta época. Os que a ela pertencem sentem-se donos de uma casta exclusiva e irrepetível. E esta viagem pelo texto do autor, em que ele abre a porta da alma e nos acompanha até às suas memórias, é um caminho iluminado pelos cenários que se vão abrindo, as personagens que revemos, os cheiros, a música, remetendo-nos para uma doce e quente nostalgia cheia de sorrisos cúmplices. Obrigada pela companhia, adorei o passeio, vou saborear esses sorrisos que despertou em mim.

  2. Caro António Eça de Queiroz, o seu texto já produziu efeitos – mexeu com a minha lista de prioridades de releituras e novos livros (novos só porque nunca lidos).
    Além disso, também tornou presente o meu recorrente e ruminativo interesse, enquanto aprendiz de feiticeiro, daquilo a que muitos psicólogos e escolas de Psicologia chamam “pensamento mágico”. Essencialmente, esse tipo de pensamento pode ser encontrado, mesmo que em formas e estruturas diferentes, na criança pré-escolar e no adolescente púbere. No meu entender, não é um pensamento residual, ou “de segunda”, ou “de transição”, ou… ou… ou… Isso sim, é um pensamento extraordinário, que merece a mais cuidada das pedagogias de tem a educação das crianças e dos jovens como profissão ou missão.
    Falo-lhe de 2 autores, de quem me ocupei, por diversas razões, recentemente: Eugénio de Andrade e Rómulo de Carvalho. O primeiro, feito adulto, renegou quase tudo o que escreveu de poesia na sua juventude; o segundo, riu-se e corou com o que escreve na juventude mas, felizmente, não apagou. Ora bem, o que eu gostaria era que autores como eles, ao invés de renegarem ou desvalorizarem como infantilidades, olhassem de frente, tranquilamente, os jovens autores que foram e, em jeito de “metapensamento à distância” (estes psicólogos dizem cada coisa!…), voltassem à pele do rapaz que foram um dia e nos dissessem o que eram, o que pensavam, como sinceramente viam o mundo e a sua força pessoal.
    O António diz neste seu texto “éramos todos uns querubins da contra-cultura possível, sem bem disso termos uma vaga ideia (ou mesmo nenhuma, como era o meu caso, anjolas mal saído da puberdade e completamente ignorante de movimentos intelectuais, fora ou dentro de portas). Para mim, tudo o que vivia então era apenas o húmus do que seria a vida, que sempre imaginei mais curta, algo de que me podia servir sem reservas – porque estava ali à disposição exactamente para isso.” Está cá tudo, António: a desvalorização que o adulto maduro e sábio faz do puto lírico e gratuitamente idealista; o reconhecimento de que uma revolução acontecia dentro de si; a sensação de de uma totalidade inesgotável que dá a sensação de poder e força).
    Esse “puto”, António; os putos que todos somos à vez, saiba, amigo, que são os que eu acredito que serão capazes de encontrar soluções radicais e verdadeiramente salvadoras dos problemas que enfrentamos em todo o Mundo. Falta-lhes apenas a Pedagogia certa para os conduzir. Para chegarmos a ela teremos de revalorizar os putos que fomos, temos de os trazer de volta, falar deles o mais rigorosamente e lucidamente possível.
    Abraço grande, António!
    (desculpe-me tantas edições, é que escrevi este texto diretamente aqui e cada vez que carreguei na tecla “Enter”, pimba, fechava o comentário.
    [comentário originalmente escrito no Facebook]

    • Caríssimo Fernando, eu também acredito nesse pensamento mágico, seminal mas sem idade ou tempo – embora quando se é mais novo existam mais possibilidade dele surgir sem mesmo avisar (menos preconceitos, talvez, muito mais disponibilidade e também porque nessas idades somos genericamente indestrutíveis)..
      Grande abraço!

  3. Olinda diz:

    que rico naco de prosa, António.

  4. O teu Hesse, os meus Steppenwolf, a contra-cultura e o jardim das amoreiras, isto tudo junto não será alucinógeneo? magic carpet ride!

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Como depois deste texto vou escrever no “Está escrito”? Ai a aflição!

  6. Querida Maria do Céu, faça como eu: escreva sobre um livro que ame realmente.
    O resto vem por arrasto. 🙂

  7. manoel caraballo diz:

    Meu primeiro anti-herói… Gustavo Andresen deu-me uma cópia autografada – pelo próprio Gustavo – num aniversário.. – na mesma época adquiriu o Anarchist Cook Book, onde aprendia-se à fazer bombas atômicas caseiras e metanfetamina.. um sucesso!!!!

  8. nanovp diz:

    António fiquei reduzido à insignificância de ter lido o livro mas pouco me lembrar dele! Há pouco tempo li o Jogo das Contas de Vidro e entrei outra vez nesse universo tão especial de Hesse.

  9. Maria Leão diz:

    Certo dia, um bando de doidos (da mata da filosofia) , decidiu fazer um colóquio cujo título e tema era: “E depois o que fazemos ao resto?” ….. neste caso, e após viagem pelas palavras escritas, belas palavras, pergunto: ” E agora porque não escreve um livro?” (se calhar mais um, pois já deve ter vários publicados) … assumidamente a escrita, as palavras em silêncio deitadas numa folha em branco, ou são mágicas , quando são excelentes, ou desastrosas …. (o que mais há) …. Neste caso, entre a realidade e a magia, o diabo que escolha, mas parabéns …… adorei …escreva , escreva …. deite as palavras , ou apenas as coloque no papel , ou no ecrân, para quem com elas vive ter possibilidade de as fruir …. lindo texto …. mais um ao qual me rendo com a vontade de voltar a viajar no Hesse ,preferindo neste caso aguardar por mais um texto 🙂 parabéns e obrigada 🙂

  10. Obrigado eu, Maria, o seu comentário é bem animador – para mais num tempo que já quase nada o é…
    Sabe, já escrevi livros sim, mas agora não vejo muito jeitos disso…
    Vou-me ficar pelo ecran…

  11. Maria Leão diz:

    Sorry, tenho que responder …. esse “tempo que já quase nada o é …” existe sim, mas não para quem “Escreve”, mais que isso, oferece a quem lê uma coisa que está fechada sobre si mesma: mistério! Ora, quem li e vive as palavras, gosta de as viver mesmo ….. escritas num papel …. um livro que tem só um identidade : a do seu autor! O ecran ….. fica sempre aquém de tudo …. pior …. as palavras não estão protegidas …. ficam ao alcance do mais habil curioso …. ESCREVA …. LIVROS … 🙂

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